"A Copa América no Brasil é uma vitória mais pessoal do que política do presidente": jornalistas esportivos comentam a crise da CBF - Revista Esquinas

“A Copa América no Brasil é uma vitória mais pessoal do que política do presidente”: jornalistas esportivos comentam a crise da CBF

Por Cesar Spina e Lucas Cecci : junho 10, 2021

Paulo Vinícius Coelho, do Grupo Globo, e Mauro Beting, do SBT e da TNT Sports, analisam as polêmicas atuais da CBF

Clima pesado, bastidores agitados, disputas políticas e acusações: o ambiente da Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, se encontra conturbado. Desde o primeiro dia de junho, quando o Governo Federal confirmou a realização da próxima edição da Copa América no Brasil, as polêmicas se tornaram públicas. Algumas vêm de discordâncias e desgastes acumulados entre personagens da entidade, enquanto outras surgiram do recente anúncio.

Ex-Presidentes da CBF

Marco Polo Del Nero, ex-presidente da Confederação, é uma figura conhecida e apreciado pelos colegas pelo poder de encabeçar suas decisões de forma escusa. Essas deliberações acontecem de forma velada, uma vez que o Comitê de Ética da FIFA decidiu impedi-lo permanentemente de desempenhar qualquer função no futebol brasileiro.

Seus antecessores, José Maria Marin, preso por corrupção, e Ricardo Teixeira, banido do futebol por pagamento de propinas que giraram em torno de R$32,3 milhões, também enfrentaram problemas na justiça, o que revela o histórico problemático dos últimos presidentes da Confederação.

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Marco Polo Del Nero
Senado Federal

Segundo Mauro Beting, jornalista do SBT e da TNT Sports, “a sequência de más administrações na CBF só pode acabar quando houver mais transparência. Enquanto continuarem com as mesmas práticas e os mesmos ideais, o futebol vai ser sempre o mesmo. Evolui em campo e regride fora dele”.

Atritos atuais da CBF

Um problema recente envolve Rogério Caboclo, atual presidente da entidade, que está sendo acusado de assédio sexual e moral. Protocoladas por uma funcionária da CBF, as acusações provocaram o afastamento de Caboclo do cargo por 30 dias pelo Conselho de Ética da CBF – tempo que pode ser prolongado. Até que ele volte, Coronel Nunes já está em exercício. Em entrevista à ESPN, Rogério voltou a enunciar a sua inocência e o apoio da família e amigos para sua defesa. “Não posso falar nada sobre isso porque tudo será tratado na minha defesa. Eu sou inocente. Tenho absoluta certeza de que vou provar isso. Não há dúvida de que voltarei à presidência da CBF”, argumentou.

As interferências ilegais do antigo dirigente incomodam Tite, atual técnico da Seleção Brasileira. Para Paulo Vinícius Coelho, PVC, jornalista do Grupo Globo, “o problema esteve em Caboclo ter vazado essas informações para tentar desviar o foco dos problemas que ele vivia. Ele protagonizou uma série de lambanças, como os vazamentos dos convites de Xavi e Muricy, além de aceitar a Copa América no Brasil convidando Bolsonaro a financiá-la”.

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Tite em jogo válido pelas eliminatórias para a Copa do mundo de 2018, contra o Equador, em Quito
Agencia de Noticias Andes

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Copa América

A sede da Copa América era dada como certa na Argentina e na Colômbia, mas o aumento do número de casos de covid-19 nos países trouxe a competição ao Brasil, que aceitou a proposta. A Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL) anunciou que o torneio seria recebido pelo País apenas 12 dias antes de seu início, mesmo com a pandemia em situação crítica no Brasil. Caboclo entrou em contato com Jair Bolsonaro, Presidente da República, para tratar de assuntos como o financiamento do torneio.

Sobre o diálogo, PVC acredita que “não é papel do Estado interferir no futebol.” Já Mauro opina que ”a Copa América ser no Brasil é uma vitória mais pessoal do que política do presidente, até porque, como organização, o desgaste é gigantesco, é desgastante em todos os sentidos”.

Os jogadores presentes na última convocação realizada por Tite se mostraram insatisfeitos com o anúncio. Neymar, Casemiro, Thiago Silva, Alisson, Marquinhos e Danilo não gostaram da forma como a pauta foi tratada. O capitão Marquinhos se pronunciou em nome dos jogadores da Seleção Brasileira em relação à Copa América: “Em momento algum os jogadores se negaram a vestir essa camisa. Isso aqui é o nosso sonho de criança, nós víamos na televisão e sonhávamos estar aqui e hoje estamos, fizemos o que tínhamos que fazer nesses jogos e agora vamos ver o que será decidido”.

Depois da entrevista, os atletas publicaram um pronunciamento via Instagram Stories.

 

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Mauro Beting acredita que ”os atletas devem sempre se posicionar dentro do possível. Talvez, hoje, seria um atestado de óbito por todas as pretensões em termos de seleção se alguém se opuser a isso”. Ele complementa: “Para essa história ser feita como nunca se fez, é preciso que todo mundo no futebol entenda o momento único que se vive na pandemia, mas não parece ser esse o entendimento”.

Dentre os fatores que motivaram o Governo Federal a defender o Brasil como sede do torneio, esteve o investimento de entre 30 e 40 milhões de dólares por parte da CONMEBOL para realizar a Copa América.

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Alejandro Dominguez, Jair Bolsonaro, Rogério Caboclo e Agustín Lozano em premiação da Final da Copa América, disputada entre Brasil e Peru, em 2019
Palácio do Planalto

“A CBF deve voltar a ser um grande produtor de conteúdo para que o Brasil volte a ser um grande polo cultural de futebol. Com isso, o País voltaria a ser campeão do mundo. Uma coisa leva a outra.”, concluiu PVC.

As polêmicas não acabaram por aqui. Na última terça-feira (08), a Mastercard desistiu de expor sua empresa em eventos e ações durante a Copa América no Brasil. Ainda que a exibição da marca seja limitada, seu nome será preservado nos estádios das quatros cidades-sede brasileiras – Rio de Janeiro, Brasília, Goiânia e Cuiabá – e em materiais do torneio, como backdrops e banners. A Ambev foi outra marca a desistir, mas esclarecendo que “segue com seu compromisso e apoio ao futebol brasileiro.” Ambas seguirão honrando o pagamento do patrocínio.

No dia 10 do mesmo mês, a pedido da ministra Cármen Lúcia, o Supremo Tribunal Federal (STF) vai conduzir um julgamento voltado a duas ações protocoladas contra a realização da Copa América 2021 no Brasil. As ações que estarão em pauta foram requeridas pela Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos (CNTM) e pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). A alegação é de que, com a realização do torneio no Brasil, haverá um agravamento da pandemia no país. A sessão de audiência será realizada de forma remota.

O ministro da Saúde Marcelo Queiroga salientou que a competição terá uma regulamentação de segurança sanitária, incluindo testes moleculares do coronavírus nos atletas a cada 48 horas. Os jogos também serão disputados sem público nos estádios.

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