Entre o sensacionalismo e a prática jornalística ética, especialistas apontam caminhos para cobrir desastres ambientais
De acordo com o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, o trabalho desses profissionais deve ser regido por uma série de princípios norteadores, como o compromisso com a verdade, a imparcialidade e o respeito aos direitos individuais. Apesar de essa ser a conduta desejável, nem sempre é a mais utilizada, sobretudo em coberturas de desastres socioambientais. Em grande parte dos casos, a privacidade e a intimidade dos cidadãos envolvidos no fato noticiado são anuladas para priorizar o “furo jornalístico”, dando lugar ao sensacionalismo e à banalização do tema.
Entre os desastres mais notórios, há o rompimento da barragem de Mariana, no subdistrito de Bento Rodrigues (MG), que completará 10 anos em novembro deste ano. Estima-se que 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de lama foram despejados no meio ambiente no dia da ruptura, atingindo 49 municípios em Minas Gerais e Espírito Santo. O evento resultou na morte de 19 pessoas, e uma mulher que estava grávida — resgatada com vida — sofreu um aborto. Houve a destruição de milhares de comunidades produtivas, das quais muitas ainda aguardam a conclusão de ações civis e trabalhistas.
Sensacionalismo x Ética: os limites ultrapassados em coberturas de desastres
Diante da magnitude da tragédia de Mariana, muitos veículos ultrapassaram os limites da ética jornalística ao se apoiarem no sensacionalismo durante as coberturas televisivas. Segundo Karina Gomes, professora da Universidade Federal de Ouro Preto e responsável pelo laboratório Lampião, jornal que acompanhou de perto o rompimento da barragem, a imagem dos indivíduos afetados foi colocada à prova: “O problema não é só o sensacionalismo exagerado, mas a simplificação e a desumanização das vítimas”.
Na busca por audiência, a estrutura dos programas tende à espetacularização. “O telejornalismo, em especial, costuma dar destaque apenas a lágrimas ou falas incoerentes. O limite é a verdade, o interesse público e os direitos humanos. Uma manchete sensacionalista não cumpre pelo menos dois desses fundamentos”, comenta Karina. Seja pela utilização de GCs chamativos, imagens chocantes ou falas dos repórteres para causar comoção, o valor-notícia perde espaço e a seriedade do desastre fica em segundo plano.
A ruptura da barragem em Bento Rodrigues foi o pior desastre ambiental em extensão da história brasileira, mas o rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, em 2019, também ganhou grande destaque midiático devido ao número de vítimas: contabilizaram-se 272 mortes, 3 desaparecidos e milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração lançados na bacia do Rio Paraopeba. Até agora, seis anos depois do ocorrido, ninguém foi condenado.
Para Gabriela Mayer, jornalista que cobriu ativamente o desastre de Brumadinho na época, o sensacionalismo está nas más escolhas por parte da imprensa, mas o ato de informar ainda desempenha um papel relevante, principalmente quando acompanhado por um caráter de denúncia: “Há negligência de informações das autoridades para as pessoas. Muitas vezes elas ficam sabendo do que está acontecendo, sabendo de informações que elas estão esperando receber, pela imprensa”.
Em grandes coberturas jornalísticas, o veículo de comunicação que consegue noticiar um fato de notório interesse público acaba ganhando destaque e a preferência da audiência. Porém, essa realidade não deve ser utilizada como artifício para ultrapassar os limites da ética da profissão. O ato de informar desastres ambientais exige foco nas causas e nos envolvidos. A atenção deve ser direcionada à notícia factual, e não à espetacularização de um cenário trágico.
Gabriela ainda relembra situações nas quais jornalistas, em busca de “imagens exclusivas”, não seguiram as recomendações dos órgãos responsáveis. “Em Brumadinho, em vários momentos, os bombeiros davam orientações para os jornalistas dizendo: ‘Não pode fazer isso. Não pode ir nesse lugar. Não pode ir nessa área’. E, nesses casos, por exemplo, muitos jornalistas escolheram fazer movimentos que não eram permitidos, fazer coisas que estavam ali expressamente proibidas, para conseguir um ângulo melhor, para mostrar mais de perto como era o trabalho dos bombeiros”.
Em meio à urgência dos resgates em situações adversas, essa conduta dos profissionais dificulta o trabalho dos socorristas. Afinal, muitos arriscam a própria integridade física em prol do “melhor furo jornalístico”. Em vez de se investigar as causas, quem são os envolvidos e quais os possíveis desdobramentos, o calor do momento transforma jornalistas no principal meio de propagação de informações — e isso pode colocá-los sob o holofote. “A gente não é o centro da história”, opina Gabriela.
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Diferentemente de notícias e reportagens breves, a cobertura jornalística envolve a imersão da equipe no cenário da tragédia para aprofundamento da pauta. Por conta do contato praticamente diário com a sensibilidade e seriedade dos temas, muitos jornalistas podem enfrentar desafios para diferenciar o lado pessoal do profissional.
Tanto para Karina quanto para Gabriela, o equilíbrio emocional em notícias dolorosas é mais um dos grandes desafios enfrentados por esses profissionais. “Muitos alunos voltavam do campo chorando. Não eram vítimas, mas eles foram muito afetados. Eu nunca tinha visto o jornalismo afetar tanto os estudantes”, relembra a professora sobre o laboratório Lampião. Gabriela reforça essa vulnerabilidade compartilhada: “Antes de ser jornalista, eu sou uma pessoa, e não tem como eu não me deixar afetar por uma tragédia”.
Mas há algo que transcende até mesmo as lágrimas: o silêncio. André Luis Carvalho, jornalista e professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), relembra uma sensação que marcou sua experiência nos locais atingidos: “Você não ouve som de bicho, você não ouve som de pássaro, você não ouve nada. É um silêncio ensurdecedor, uma coisa assustadora”. Esse vazio sonoro — ausência de vida onde antes havia movimento — representa uma dimensão da tragédia que as câmeras e manchetes sensacionalistas raramente capturam: a morte não apenas de pessoas, mas de todo um ecossistema, de rotinas, de futuro.
Diante desse cenário, os princípios que deveriam nortear a profissão (verdade, interesse público e direitos humanos) aparecem como mais do que diretrizes: são limites éticos que não podem ser ultrapassados nem sob pressão por audiência. André reforça essa preocupação ao apontar um recurso recorrente nas coberturas: “Quando você dá o zoom para mostrar o choro, aí eu acho que é o choro acima da história. Ele faz parte, ele integra a história, mas não pode ser a moeda de mais alto valor do que a própria história”. A câmera que se aproxima da lágrima, que enquadra o desespero como espetáculo, transforma dor em produto e pessoas em personagens descartáveis.
O desafio de não silenciar e nem explorar
Em contraposição a esse modelo, surgem iniciativas que propõem outra forma de narrar tragédias. Os veículos laboratoriais Lampião e Re.lato, produzidos por estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto sob coordenação da professora Karina Gomes e do professor André Luis Carvalho, apostam no tempo como aliado da verdade. “A gente trabalha muito com essa ideia de um mergulho no território mesmo”, explica Karina. “Tem que haver um outro tipo de envolvimento para que a gente tenha uma outra abordagem com essas pessoas”. Em vez de extrair depoimentos em segundos, esses projetos investem em reportagens que acompanham os desdobramentos dos desastres meses e anos depois que as grandes emissoras já foram embora.
André destaca o compromisso da Re.lato com a escuta: “Essas pessoas precisam ter o direito e os espaços para que suas histórias sejam lidas e vistas. A Re.lato fez essa escolha: ela é uma revista que quer especialmente entender como as pessoas que estão no centro dessa história estão vivendo, quais são as questões pelas quais elas estão passando, quais são os desafios e injustiças de hoje”. Essa abordagem reconhece que a complexidade do trauma não cabe em fragmentos. Como ressalta Karina: “É dor, é luta, é memória, é reivindicação, é esquecimento também. Não vai dar conta num áudio de 20 segundos, num bloco de fala de três linhas, ou num vídeo de 30 segundos”.
Nesse cenário de espetacularização e dor explorada, surge a questão: é possível cobrir desastres de forma ética e informativa? A resposta, segundo as fontes ouvidas, não está em escolher entre noticiar ou silenciar, mas em transformar o modo como se noticia. O debate está longe de acabar, mas alguns caminhos já se mostram necessários.
Karina defende que a primeira mudança deve vir da formação: “A gente tem possibilidades de formações continuadas, e eu acho que jornalistas que cobrem esses eventos têm que investir nisso. Seja em oficinas, seja em cursos de extensão ou mestrados”. Ou seja, não basta o diploma: é preciso aprender continuamente a cobrir temas que desafiam as fórmulas tradicionais do jornalismo.
Além da capacitação técnica, a professora enfatiza a necessidade de uma reflexão ética contínua: “Não é só olhando para o código deontológico, para os manuais, mas olhando, refletindo eticamente sobre os sentidos que aquela cobertura está propondo e trazendo”. Em outras palavras, cada imagem publicada, cada manchete escolhida, cada segundo de vídeo editado deve passar pelo crivo de uma pergunta fundamental: isso serve ao interesse público ou ao espetáculo?
Desastres não acabam quando os corpos são resgatados ou quando a lama seca. As feridas permanecem abertas por anos, décadas. Gabriela resume esse entendimento: “Não desumanizar as pessoas envolvidas nessa cobertura. Lembrar o tempo inteiro que a gente está tratando de pessoas que são seres humanos, que estão em sofrimento. Eu acho que isso é muito importante para a gente construir esse repertório reflexivo da profissão, que vai nos levar a um caminho sempre mais ético”.
Por fim, há o compromisso com a cobertura de longo prazo. Quando as câmeras escolhem enquadrar causas em vez de lágrimas, quando os repórteres permanecem nos territórios mesmo após o fim do “factual”, quando as manchetes priorizam contexto em vez de choque, o jornalismo cumpre seu papel mais fundamental: ser ponte entre a dor e a transformação, entre o trauma e a justiça. Cobrir tragédias com ética é também uma forma de impedir que novas tragédias sejam esquecidas antes mesmo de serem reparadas.