Data centers em expansão na América Latina geram discussões sobre tecnologia, sustentabilidade e uso de recursos naturais
À medida que a inteligência artificial avança em ritmo acelerado, a América Latina passa a ocupar um papel estratégico na nova corrida global por infraestrutura digital. Países como Brasil, Chile, México e Colômbia entraram no radar das big techs como destinos prioritários para a instalação de grandes centros de processamento de dados, estruturas que, sozinhas, podem consumir tanta energia quanto pequenas cidades.
Se, por um lado, esses empreendimentos simbolizam desenvolvimento tecnológico e atração de investimentos bilionários, por outro, levantam uma série de alertas sobre seus impactos socioambientais, especialmente relacionados ao uso intensivo de energia, água e território. No centro do debate está o conflito entre crescimento tecnológico, soberania dos recursos naturais e o direito das comunidades afetadas.
A corrida pelos data centers
Nos últimos anos, a América Latina tem sido alvo de uma disputa silenciosa entre gigantes da tecnologia como Google, Meta, Microsoft e Amazon. O objetivo é claro: garantir infraestrutura capaz de sustentar a expansão da inteligência artificial, que depende de servidores cada vez mais potentes e integrados globalmente.
Para atrair esses investimentos, governos da região oferecem uma combinação de incentivos fiscais, flexibilizações regulatórias, terrenos a baixo custo e acesso facilitado a recursos naturais, como água e energia — especialmente de matrizes hidrelétricas. Além disso, a proximidade com mercados em expansão e a posição geográfica estratégica reforçam o interesse das empresas.
Segundo a consultora independente Paz Peña Ochoa, especialista em tecnologia, gênero e justiça social, há uma convergência de interesses entre Estados e corporações:
“À medida que a inteligência artificial avança na economia digital, ela exige data centers cada vez mais potentes, com acesso a mais energia, água doce e território. Assim, seus impactos socioambientais crescem de forma exponencial.”
Para compreender os impactos dos data centers no meio ambiente, é possível dividi-los em duas frentes principais: consumo energético e uso de água.
Impacto energético
Atualmente, cerca de 2% de toda a energia global já é direcionada ao funcionamento de data centers. Segundo projeções da Agência Internacional de Energia, esse número pode chegar a 4% até o fim da década, um salto significativo em termos de pressão sobre os sistemas elétricos.
O avanço é visível em países como a Irlanda, onde, em apenas sete anos, o consumo de energia dos data centers triplicou e passou a representar 18% de toda a eletricidade nacional. Na Dinamarca, a expectativa é que esse índice atinja 15% em cinco anos.
De 2012 a 2025, o número de data centers no mundo saltou de cerca de 800 para mais de 12 mil unidades. Os Estados Unidos lideram com aproximadamente 6 mil centros. O Brasil ocupa a 12ª posição, com cerca de 188 data centers em operação.
O neurocientista Miguel Nicolelis faz um alerta direto sobre os efeitos desse crescimento:
“Onde eles vão, irão gerar escassez de água, aumento na conta de luz e desemprego. Não se tem melhora da internet e nem geração de empregos. Depois de construído, o data center precisa de cinco ou seis pessoas para cuidar.”
Impacto hídrico
Além da energia, o consumo de água é um dos pontos mais críticos. Um estudo da Universidade da Califórnia aponta que o resfriamento de data centers consome, em um único ano, cerca de 24 bilhões de litros de água doce. A mesma pesquisa estima que 50 interações com ferramentas de IA generativa podem consumir aproximadamente meio litro de água, considerando apenas o processo de resfriamento dos servidores.
Para Peña, o uso da água tem um papel fundamental na compreensão social do problema:
“A água é o que nos torna humanos; é o sustento de nossas vidas e de nossos sistemas culturais e econômicos. O uso massivo de água pelos data centers coloca em perspectiva os impactos da digitalização e evidencia que a cadeia de produção da IA envolve um enorme consumo de recursos.”
Um dos casos mais emblemáticos ocorreu no Uruguai, que enfrentou recentemente a maior seca de sua história. A represa de Paso Severino, responsável por abastecer mais de 50% da capital Montevidéu, teve seu nível reduzido a ponto de o governo precisar misturar água doce com água salgada do Rio da Prata. Mesmo nesse cenário, o Google adquiriu 29 hectares de terra para a construção de um data center no país.
O episódio gerou forte indignação popular. Segundo Peña, o ponto mais grave está na postura do Estado:
“O problema mais sério é que os próprios governos aceitam esse tipo de cláusula em nome do bem-estar corporativo, em vez de exigir transparência e responsabilização pelo bem-estar da população.”
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O discurso das empresas: eficiência, sustentabilidade e transparência
Enquanto comunidades relatam preocupação com escassez hídrica, aumento da conta de luz e impactos territoriais, as empresas do setor defendem que a nova geração de data centers opera sob padrões elevados de sustentabilidade. A Ascenty, maior provedora de data centers da América Latina, afirma que suas unidades são abastecidas integralmente por energia renovável e que todas as emissões de carbono são neutralizadas.
Segundo o CRO da empresa, Marcos Siqueira, a própria estrutura desses empreendimentos tem sido pensada para reduzir riscos ambientais. “Tudo o que está na nuvem passa por um data center: streaming, mensagens, transações bancárias. Para isso funcionar 24 horas por dia, é preciso garantir energia estável, sistemas de refrigeração avançados e uma rede que não pare”.
Sobre o consumo de água, Siqueira sustenta que os modelos atuais já operam de forma diferente dos sistemas antigos. Segundo ele, a Ascenty utiliza refrigeração com água gelada em circuito fechado, na qual o mesmo volume circula continuamente por anos, com reposição mínima. “É como um grande circuito onde a água absorve o calor, volta para o chiller, é resfriada e reutilizada. Não há desperdício”. De acordo com a empresa, esse sistema garante um índice de uso de água próximo de zero para resfriamento, sendo o recurso utilizado apenas para fins sanitários.
A companhia também afirma manter diálogo com as comunidades próximas às instalações e divulgar dados ambientais em relatórios públicos de sustentabilidade, além de investir em capacitação de jovens e programas de diversidade.
Transparência em disputa e o papel do Estado
Apesar desse discurso, Peña alerta que a divulgação de informações nem sempre é feita de forma acessível à população. Para ela, a transparência, quando existe, muitas vezes serve mais para confundir do que para esclarecer. Segundo a pesquisadora, mesmo quando os dados são publicados, eles costumam ser apresentados de forma técnica e pouco compreensível. Nesse contexto, ela defende que a responsabilidade deve recair sobre os governos. “Os Estados precisam exigir, por meio de regulamentação, que os data centers publiquem relatórios realmente compreensíveis. Só assim será possível discutir limites de uso de recursos conforme os territórios onde estão instalados”.
Na América Latina, ainda são raros os marcos regulatórios específicos para esse tipo de infraestrutura. No Brasil, especialistas apontam lacunas tanto na área ambiental quanto na energética. No Chile, mesmo com regras mais rígidas, o avanço dos data centers ocorre em meio a uma crise hídrica prolongada. Já no México, a disputa por investimentos tem avançado em um ambiente de baixa regulação.
Em setembro de 2024, o governo brasileiro sancionou o REDATA, programa que faz parte da Política Nacional de Data Centers. A iniciativa prevê incentivos fiscais às empresas mediante compromissos ambientais, exigência de conteúdo local e doações de capacidade de armazenamento. Também impõe investimentos obrigatórios em pesquisa, desenvolvimento e inovação. A proposta busca equilibrar atração de capital e responsabilidade ambiental, mas ainda enfrenta críticas pela falta de clareza nos mecanismos de fiscalização.
Crescimento sustentável é possível?
A pergunta que paira sobre a expansão dos data centers na América Latina é inevitável: é possível crescer de forma sustentável? Para especialistas e comunidades, a resposta depende de escolhas concretas, regulamentação e engajamento social.
Paz Peña observa que a participação das pessoas que vivem próximas a esses centros é crucial. Segundo ela, “o ativismo local não só funciona, como é essencial para garantir o bem-estar das populações. Comunidades devem exigir evidências concretas de benefícios versus impactos, pressionar por regulamentações claras e acompanhar a implementação das tecnologias”. Peña recorda ainda situações em que denúncias de moradores levaram a mudanças nos projetos de data centers: “Em vários lugares, apenas depois da pressão social, empresas passaram a adotar sistemas de refrigeração fechados ou a publicar dados mais claros sobre consumo de energia e água.”
Miguel Nicolelis amplia a perspectiva: “A inteligência artificial tem que ser vista como um projeto ideológico, de dominação política, de dominação do ser humano.” Ele lembra que, quando se observa os mapas de expansão das grandes corporações, é evidente que os investimentos não estão distribuídos apenas por necessidade tecnológica, mas também para aumentar a influência em regiões em desenvolvimento. Para ele, “a expansão dos data centers pelo sul global não é só fruto do crescimento tecnológico; é uma imposição do norte global, que busca controle sobre territórios, água e energia.”