As histórias por trás do voto - Revista Esquinas

As histórias por trás do voto

Por Blume Durães : outubro 24, 2026

Entre histórias, desafios e encontros, o dia de votação revela que a democracia vai muito além das urnas. Foto: Blume Durães

Em seu primeiro dia como mesária, estudante encontra três eleitores que revelam diferentes sentidos do voto

Quando tirei meu título de eleitor, perguntaram se eu gostaria de ser mesária. Respondi que não. Algum tempo depois, porém, recebi a convocação. Sem ter escolhido estar ali, passei um domingo trabalhando nas eleições. O que parecia apenas uma obrigação acabou se transformando em uma experiência marcada por três encontros e uma nova percepção sobre o significado do voto.

A escola em que fui convocada fica no Brooklin, bairro de São Paulo onde nasci e moro. Entre a conferência de documentos, a procura por nomes no caderno de votação e a orientação aos eleitores, encontrei conhecidos, conversei com moradores e ouvi histórias que dificilmente conheceria em outras circunstâncias.

A experiência também me fez refletir sobre o significado de ocupar aquele espaço como mulher. No Brasil, o direito feminino ao voto foi reconhecido em 1932, depois de décadas de mobilização. Durante a ditadura militar, o país também passou por um longo período sem eleições diretas para a Presidência da República.

Décadas depois, eu estava ali, participando da organização de uma eleição e ajudando outras pessoas a exercer um direito que nem sempre esteve ao alcance de todos. Aos poucos, a resistência inicial deu lugar à sensação de responsabilidade.

Há certa ironia nisso. Escolhi cursar Jornalismo porque gosto de conversar, conhecer pessoas e ouvir suas histórias. Naquele domingo, sem pauta definida, entrevistas marcadas ou perguntas preparadas, passei o dia fazendo justamente isso. As conversas surgiam espontaneamente, nos intervalos entre um eleitor e outro.

Três delas permaneceram comigo.

Três eleitores, três histórias

Um dos primeiros eleitores a chegar foi um senhor que se aproximou da mesa com certo constrangimento. Antes de apresentar os documentos, explicou que não tinha a biometria cadastrada e que, embora costumasse assinar o caderno de votação, já não conseguia escrever depois de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC).

Havia nervosismo em sua voz. Mais do que a dificuldade física, parecia incomodá-lo a necessidade de explicar uma limitação sobre a qual não tinha controle.

Disse que encontraríamos uma solução. Com um carimbo disponível, conseguimos registrar sua impressão digital no lugar da assinatura.

O alívio foi imediato. Depois de votar, ele contou que, apesar da idade, fazia questão de comparecer às urnas. A eleição também fazia parte de um pequeno ritual.

“Sempre que vou votar, saio de casa, vou tomar minha média e comer um pãozinho na padaria Leiriense. Mesmo não sendo obrigado a ir.”

Respondi que ele tinha razão em valorizar aquele momento. O voto, afinal, é uma das formas de participar das decisões políticas do país.

A conversa durou poucos minutos, mas me fez perceber como um gesto aparentemente simples, como assinar o próprio nome, pode se transformar em um obstáculo. Para aquele eleitor, conseguir registrar sua presença significava preservar uma participação da qual não estava disposto a abrir mão.

Pouco depois, conheci uma senhora que também tinha uma relação particular com as eleições. Ela morava longe da escola, mas continuava fazendo questão de votar naquele endereço.

“Enquanto eu estiver lúcida, não tem motivo para eu não exercer o meu direito de votar, não é mesmo?!”

Contou que talvez transferisse o título para um local mais próximo na eleição seguinte, caso estivesse viva e em condições de comparecer. Por enquanto, entretanto, o deslocamento também era uma oportunidade de passear.

No Brasil, o voto é facultativo para pessoas com mais de 70 anos. Para aquela senhora, porém, a ausência de obrigação não significava falta de compromisso. Participar das eleições continuava sendo uma escolha.

A terceira história começou com a chegada de um homem de aproximadamente 35 a 40 anos. Ele caminhava com o auxílio de duas muletas, acompanhado da filha. Dois dias antes, havia quebrado o pé.

Perguntei o que tinha acontecido e, durante a conversa, comentei sobre sua disposição para comparecer à votação mesmo naquela condição.

Ele respondeu que, se dependesse dele, o Brasil seria bem governado. Na sua avaliação, não era possível correr o risco de deixar o resultado das eleições dar errado.

“Não pode dar errado”, reforçou antes de se despedir.

Não sei em quem aqueles três eleitores votaram. Tampouco conheço suas posições políticas. O que ficou das conversas não foram preferências partidárias, mas a importância que cada um atribuía à própria participação.

Um enfrentava as consequências de um AVC. Outra percorria uma distância considerável para chegar à escola. O terceiro havia sofrido um acidente poucos dias antes. Nenhum deles parecia disposto a deixar de votar.

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O direito de continuar participando

Os encontros também me fizeram pensar sobre o lugar reservado aos idosos na sociedade brasileira.

Em um cotidiano marcado pela valorização da juventude, da produtividade e da autonomia, envelhecer pode significar perder espaço nas decisões, nas conversas e até nas relações familiares. Pessoas que acumularam décadas de experiências frequentemente encontram dificuldades para serem ouvidas.

Nas eleições, entretanto, o direito à participação política permanece. Mesmo depois dos 70 anos, quando o voto deixa de ser obrigatório, muitos brasileiros continuam comparecendo às urnas por vontade própria.

As histórias dos dois primeiros eleitores revelavam justamente essa disposição. Para eles, votar não era apenas cumprir uma formalidade, mas continuar participando das decisões de um país do qual fazem parte.

Há uma contradição nessa relação. A sociedade que tantas vezes desconsidera a experiência dos mais velhos depende também de sua participação na construção da vida democrática. O reconhecimento de sua importância, portanto, não deveria se limitar ao período eleitoral.

O voto não resolve o isolamento, a falta de acessibilidade ou a invisibilidade enfrentada por parte da população idosa. Mas oferece uma oportunidade de manifestação política que não deveria ser reduzida à idade ou às limitações físicas de quem a exerce.

Ao longo daquele domingo, percebi que cada pessoa que se aproximava da mesa carregava uma trajetória desconhecida. Havia quem votasse por convicção, quem transformasse a eleição em um passeio e quem enfrentasse dificuldades para não deixar de participar.

A urna era a mesma. As razões para chegar até ela, não.

No fim do expediente, a convocação que inicialmente me desagradou já tinha outro significado. Ser mesária não havia sido apenas conferir documentos, localizar nomes e orientar eleitores. Foi também testemunhar, de perto, a relação de pessoas comuns com um direito conquistado ao longo da história brasileira.

Cheguei à escola contrariada. Saí pensando que talvez não fosse tão ruim voltar para um segundo turno.

Naquele domingo, descobri que, antes de cada voto, existe uma história.

Editado por Enzo Cipriano

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