"Não senti medo", diz idosa de 103 anos que superou covid-19 em casa - Revista Esquinas

“Não senti medo”, diz idosa de 103 anos que superou covid-19 em casa

Por Luccas Lucena : maio 10, 2020

Figura emblemática de Boca do Acre, no Amazonas, “Dona Senhorinha” contou com a ajuda da família para se recuperar sem internação

Era dia 19 de abril quando Maria Teixeira de Moura, 103 anos, começou a sentir fraqueza no corpo. Em questão de dias, os sintomas evoluíram para perda de olfato e paladar. Nascida no dia 2 de fevereiro de 1917 e tendo presenciado a Gripe Espanhola, “Dona Senhorinha”, como é conhecida em Boca do Acre, a 617 km da capital do Amazonas, tornou-se das pessoas mais velhas do mundo a contrair covid-19. E a superá-la — sem necessidade de internação. 

Dona Senhorinha afirma que o mal-estar durou quatro dias. “Senti falta de ar, muita dor de cabeça e muita fraqueza”, declara. “A pior parte da doença foi quando não tinha vontade de comer, não sentia cheiro, não tinha vontade de fazer nada. Só ficar deitada mesmo”, conta ao telefone, com a voz ainda debilitada.

A neta Maria Graciane Vieira de Araújo, 53 anos, é técnica de enfermagem no Hospital Regional de Boca do Acre. Partiu dela ajuda fundamental para a recuperação da avó. “Fui dando vitamina, antigripal e um chá de agrião, limão, alho e mel de abelha. Povo do interior gosta bastante de chá milagroso”, diz, aos risos. “Ela toma umas três vezes por dia desse chá. Fomos mantendo os cuidados necessários e ela foi melhorando”, descreve. 

Segundo Maria Graciane, a idosa contraiu covid-19 do bisneto Henrique Costa, 26 anos. Ele trabalha num frigorífico que se tornou foco da doença. Como forma de contenção do surto, a Secretaria de Saúde e Vigilância Epidemiológica passou a testar, nas residências, quem teve contato com os funcionários. Fizeram dois testes em Dona Senhorinha. Ambos deram positivo.

A situação do sistema de saúde do Amazonas é crítica: 10.727 casos confirmados e 874 mortes até esta sexta-feira (8). Dona Senhorinha não quis ir para o hospital. Preferiu ficar isolada com o bisneto, que foi levado para uma casa ao lado. “Conversava com ele pela janela. Eu falava daqui e ele falava de lá”, relembra. Quando Henrique melhorou, passou a cuidar da bisavó sozinho, para não precisar expor ninguém, inclusive a cuidadora. “Eles são bastante apegados e o Henrique sabe cuidar direitinho”, afirma Maria Graciane. Já são 19 dias desde o início dos sintomas e quase uma semana com bom estado geral. Tempo suficiente para a família acreditar que a doença foi embora. “Tanto que já foi liberada pela equipe médica”, comemora a neta. 

Dona Senhorinha ainda diz que a doença não foi a pior coisa que já enfrentou na vida. “Quando minha irmã faleceu, fiquei muito pior”, afirma. “Agora, eu não senti medo, não. Sabia que ia ficar boa dessa doença por causa da minha fé”. Aos 103 anos, lúcida e saudável, Dona Senhorinha costura, cuida das plantas e das galinhas. Curada, está liberada para voltar à dieta preferida: café com farofa de ovo, que ela gosta de tomar logo depois de acordar.