"Sem auxílio no Brasil, tive de ir à França para abortar um feto que morreria ao nascer" - Revista Esquinas

“Sem auxílio no Brasil, tive de ir à França para abortar um feto que morreria ao nascer”

Por Luccas Lucena : agosto 25, 2020

Em meio a uma gestação conturbada, estudante de 22 anos relata como foi o processo para realizar o aborto

“Me levaram para uma sala de parto, introduziram a agulha no meu abdômen e pararam o coração do bebê.” O parto induzido demorou 10 horas.

A gravidez

Bianca Alves* descobriu que estava grávida com 19 anos de idade, no dia 7 de junho de 2017. Atualmente, aos 22 anos, estuda Licenciatura em Teatro e trabalha como atriz desde os 11. Em janeiro de 2017, Bianca se mudou para o Rio de Janeiro com o objetivo de estudar Artes. Meses depois acabou engravidando. “No começo eu não consegui criar expectativa pois estava sozinha no Rio de Janeiro. Não sabia o que esperar”, afirma.

O ex-namorado, na época, não apareceu mais após descobrir a gestação por videochamada. Dias depois, a estudante teve um sangramento na madrugada e precisou chamar uma amiga para ir ao hospital. Chegando lá, descobriram um descolamento de placenta, órgão responsável pela nutrição do bebê, e ela foi orientada para ficar de repouso absoluto em sua casa.

Mesmo com esses problemas, Bianca estava decidida a ter o bebê. Ela diz que começou a ter tranquilidade e “fazer planos” de ser mãe após contar a novidade aos pais quando foi visitá-los em Macapá, capital do Amapá, durante as férias de julho. “Essa imagem de eu ser mãe começou a se formar na minha cabeça quando eu finalmente contei para os meus pais. Foi quando aquilo começou a ser real”, diz.

Problemas na gestação

No primeiro diagnóstico, soube-se de algo incomum no abdômen do bebê: onfalocele. A má formação é causada por uma abertura na parte central da parede abdominal. Além disso, caracteriza-se pela presença de órgãos, como intestino, fígado ou baço, fora do abdômen e recobertos por uma fina membrana. O cordão umbilical está no centro da má formação.

“Mesmo depois daquilo, fiquei com muita esperança. Procurava pesquisas e casos dizendo que aquilo podia dar certo”, descreve Bianca. “Ia levar a gestação até o final. Continuava com a visão otimista sobre poder estar com meu filho. Ia ser difícil, mas ia dar certo”, conclui.

No primeiro ultrassom, a estudante foi com sua mãe e lembra que a sensação de ouvir o coração do bebê foi “o melhor frio na barriga que já teve”. O procedimento terminou e a médica chamou a mãe de volta à sala.

A demora incomodou e, ao chegarem no carro, Bianca soube o assunto da conversa: a gravidez era arriscada para o bebê. “Foi como se tivessem jogado um balde de água fria em mim. Fiquei num estado de choque tentando digerir isso”, afirma.

Em consulta com o obstetra no dia seguinte ao ultrassom, ele confirmou a possibilidade. “Quando o obstetra me contou e explicou de forma direta pela primeira vez, foi aí que eu entendi o que estava acontecendo. Entrei no carro e chorei muito”, diz a estudante.

Acompanhamento no Brasil

Segundo Bianca, o acompanhamento com outros especialistas foi ruim aqui no Brasil. “Desde o primeiro ultrassom, nada era dito para mim, tudo era dito para os meus pais. Não sabia direito o que estava acontecendo. Ficava sem saber de nada e pensando: ‘Ok, em qual momento vou entender o que está acontecendo? Quando vou poder dizer o que quero e o que não quero?’ Nem era a gestação em si, mas os procedimentos”. Ela descreveu todo esse processo no Brasil como “perturbador”. “Parecia que estavam escondendo algo de mim para que eu não entrasse em desespero.”

Até que um dia, Bianca foi ao especialista e ele disse a ela que não tinha certeza se o bebê nasceria com vida e que a lei do Brasil não permitiria “fazer o que é adequado”. “Era tanta incerteza que a ficha ainda não tinha caído de que eu teria que interromper a gravidez. Pensava que eles falavam aquilo para demonstrar o quão difícil seria a gestação”, completa.

Segundo o artigo 128 do Código Penal, o aborto é permitido apenas em caso de risco de vida para a mulher ou se a gravidez foi resultante de estupro. Em casos de risco para o bebê, o aborto só é permitido quando há quadro de anencefalia.

Com incertezas sobre a situação, Bianca via seu problema virar mais dos outros do que propriamente seu. “Me senti grávida como se eu fosse um assunto público. Nada mais era só sobre mim. Era sobre todo mundo. Era debate no almoço em família, conversa dos amigos”, relata.

Ela ainda contou com opinião médica. “Por causa da gravidez conturbada, precisei ir ao médico um dia pois estava passando muito mal. Quando cheguei lá, ele disse: ‘Nossa, se fosse minha filha você não sabe o que eu faria’. Um médico falou isso na minha frente”, conta. “Me senti muito invadida pois eu já tinha 19 anos na época. Me tratavam como alguém de 15 anos que tinha feito a pior coisa do mundo. Todo mundo queria fazer parecer que era mais difícil para eles do que para mim”, completa.

Num almoço em família, uma tia, que trabalhava no sistema de saúde da França, sugeriu que a sobrinha fosse para lá a fim de saber com mais clareza o que estava acontecendo e, se necessário, fazer o que era adequado.

Bianca diz que os trâmites da viagem foram complicados e foi necessário um mês e meio para regularizar tudo, pois precisaria de dinheiro e atualizar o passaporte. “A família toda se uniu para me ajudar a pagar a passagem. Nos endividamos totalmente. Pedimos dinheiro emprestado para todo mundo. Conseguimos passagens só para mim e meu pai”, conta Bianca.

O acompanhamento na França

Para começar os procedimentos de acompanhamento da gestação, Bianca e seu pai embarcaram em agosto para Nantes, cidade que fica no oeste da França. De primeira, ela conta que teve dificuldades com a língua. “O simples ato de todos os médicos se esforçarem para chegarem perto de uma língua em que eu pudesse entender, como espanhol e inglês, foi muito significativo para mim”, explica. “Pela primeira vez eu vi alguém se importando para que eu entendesse o que estava acontecendo”, ressalta.

De acordo com Bianca, o processo todo durou um mês. “Refiz todos os exames e isso levou um tempo. Não levei nenhum exame daqui do Brasil. Foi uma demora necessária pois eles precisavam entender o que estava acontecendo também”, descreve.

Após passar por várias consultas, o olhar otimista começou a ficar de lado, e a visão do que precisava acontecer acabou tomando conta. “Cada vez que eu entendia mais do que estava acontecendo, mais daquela visão de esperança se desfazia. Comecei a cair na real”, relata.

O bebê não tinha diafragma e todos os órgãos estavam para fora do corpo, inclusive o coração. “Ele estava vivo só por causa de mim e dos nutrientes que recebia do meu corpo. Isso é o que dói”, completa.

Tudo isso levou ao dia em que a médica deu uma escolha para Bianca: se ela teria interesse em interromper a gravidez. “Aqui no Brasil fizeram de tudo para que eu nem pensasse nisso. Eu já estava certa de que queria interromper depois de saber tudo”, conta.

Ela teve um tempo para tomar a decisão e optou por esse caminho, ao qual ninguém da família se opôs. “Na França ficou muito claro para todo mundo o que estava acontecendo. Ninguém queria que eu passasse pelo trauma de parir um bebê morto”, explica.

O dia da interrupção

No dia 9 de outubro de 2017, exatos quatro meses após descobrir que estava grávida, Bianca chegou às 7h30min em uma das maternidades de Nantes. O procedimento que estava marcado para ocorrer às 8 horas, foi pontualmente atendido pelos médicos. “Me levaram para uma sala de parto, introduziram a agulha no meu abdômen e pararam o coração do bebê”, descreve. Após isso, uma pílula intravaginal foi injetada para induzir o parto.

O processo era doloroso, por isso a anestesia teria de ser aplicada. “Comecei a sentir muita dor. Nesse momento, a enfermeira atrás de mim me deu um gás anestésico”, diz. Bianca começou a perceber algo de errado e começou a se debater na maca. “Eu não sabia que aquilo era um gás anestésico. Quando comecei a ouvir as vozes um pouco distantes e percebi que iria dormir, comecei a me debater de desespero”, relata. Bianca tinha medo de anestesia.

Após perceber a situação, a enfermeira tirou o gás de perto da gestante. “Ela percebeu que eu não queria e respeitou a decisão. Ela me deu a mão e ficava dizendo ‘vai ficar tudo bem’, ‘calma, vai dar tudo certo’”, conta. “Senti como se fosse uma mãe ali do meu lado e fiquei mais calma”, completa. Apesar disso, Bianca começou a sentir fortes dores pelas contrações do parto e pediu para que aplicassem a anestesia.

Finalizado o procedimento, a médica perguntou se ela queria saber o sexo da criança. “Eu não tive o direito de saber, no processo da gestação, se meu bebê era homem ou mulher. Nada disso. A todo momento era: ‘Quais as possibilidades de ele sobreviver?’ Respondi que queria saber. Era um menino”.

O procedimento todo durou 10 horas e a gravidez foi interrompida. Bianca precisou ficar em observação no hospital por um dia. “Tive algumas reações. Minha pressão caiu muito durante a noite e toda vez que isso acontecia uma enfermeira aplicava alguma medicação intravenosa em mim”, explica. Ela teve que tomar três medicamentos por três meses.

“Eu não tive o direito de saber, no processo da gestação, se meu bebê era homem ou mulher”
Acervo pessoal

Volta para o Brasil

Em novembro de 2017, Bianca voltou ao Brasil. Por ter feito um relato nas redes sociais na época, ela conta que acabou ouvindo coisas “inapropriadas”, mas também recebeu apoio. “Ouvi e li muita coisa horrível. Mas recebi muitas mensagens positivas e isso me blindou. Era como se eu não ouvisse as coisas negativas. Meu celular travava de mensagens lindas”, descreve.

“Eu coloquei [nas redes], pois queria que as pessoas vissem um outro lado disso. Na internet há muitos relatos de como é interromper a gravidez, mas nenhum relato de quem realmente já tinha feito”, explica.

Devido a esse período, Bianca desenvolveu síndrome do pânico e precisa tratar até hoje. “Mesmo que eu não acreditasse que era uma assassina, ficava frustrada. Contei toda a minha história e teve gente que não entendeu. Ficava frustrada de ver que as pessoas não se colocavam no lugar das outras”, explica. “A médica me deu uma escolha, pois não tinha como ter o filho. Eu tinha convicção do que havia feito, e ninguém vai me convencer de que sou assassina”, desabafa.

Bianca diz que possui certeza de que hoje faria tudo diferente e têm planos para o futuro: ser mãe. “Não seria igual a primeira vez, eu tomaria as decisões dessa gestação. Coisa que me foi tirada anos atrás”, finaliza.

*Os nomes dos envolvidos foram alterados para preservar a identidade dos mesmos

Encontrou algum erro? Avise-nos: [email protected]