Com 21 bilhões de visualizações, o BookTok não só indica livros, mas também movimenta editoras e seus leitores.
Você já ouviu falar do #BookTokBrasil? Ao pesquisá-lo no TikTok, encontramos a seguinte descrição: “Sabe aquele livro que você não quer que acabe? Aqui no #BookTokBrasil ele continua. São mais de 2 milhões de vídeos e 21 bilhões de visualizações que fazem a história não terminar na última página”.
Mas o BookTok não é só isso. A plataforma influencia não apenas os consumidores, mas principalmente a indústria editorial. O ramo literário tem se moldado ao novo modelo digital, e os principais agentes dessa mudança são os famosos “booktokers”, que atuam como curadores e divulgadores de novos títulos.
Em 2021, o mercado literário virtual já dava sinais de seu futuro sucesso. A booktoker Liv Resenhas (@livresenhas) começou a postar vídeos sobre livros na internet em 2020 e hoje soma mais de 709 mil seguidores no TikTok. Com seu crescimento na plataforma, ela consegue trabalhar com editoras, indicando títulos e fazendo traduções de obras estrangeiras.
Ela relata que fez uma resenha do livro Tweet Cute, de Emma Lord, obra ainda não publicada no Brasil, no início de sua carreira, em meio à pandemia. O vídeo furou a “bolha” de leitores do TikTok, alcançando mais de 180 mil visualizações, fazendo com que a editora nacional Plataforma 21 optasse por trazer o título ao país. “Não parece, mas há um impacto muito grande no poder das comunidades”. Hoje, o BookTok é um fenômeno consolidado e, graças à união entre booktokers e editoras, o mercado segue crescendo de diferentes formas.
Liv é a prova do poder dos influenciadores em moldar modelos econômicos pré-estabelecidos. Antigamente, as livrarias sobreviviam por conta própria. Era natural folhear um livro físico e almejar comprá-lo. Entretanto, a indústria literária tem declinado desde o advento dos livros digitais, do e-commerce e de outras plataformas que facilitaram a compra, dificultando a manutenção de espaços físicos que vendem livros.

Mais do que uma simples hashtag, o BookTok é um ambiente virtual para compartilhar ideias, recomendações e opiniões sobre obras literárias.
Foto: Giovanna Toffanelli
O que é o BookTok? Mais que uma hashtag, uma comunidade
Mais do que uma simples hashtag, o BookTok é um ambiente virtual para compartilhar ideias, recomendações e opiniões sobre obras literárias. Ele faz parte de uma subseção do TikTok e surgiu dentro da própria plataforma, unindo leitores de todas as idades e estilos.
O nome ganhou destaque durante a pandemia da Covid-19, quando criadores de conteúdo começaram a dar dicas e resenhas de livros para se distrair do cenário caótico que o mundo vivia. A hashtag ganhou tanta força que passou a ser vista como uma comunidade. Tanto produtores quanto consumidores desses conteúdos literários se tornaram uma “família”, com hábitos, linguajares e um sentimento de pertencimento.
Liv Resenhas explica: “Eu acho que o BookTok tem o senso de comunidade porque a gente tem nosso próprio dialeto. Se você falar ‘TBR’ para alguém que gosta de ler, ele sabe o que é. Mas, se alguém não está dentro dessa comunidade, não sabe o que é TBR”. Ou seja, é uma comunidade multimídia que se comunica de diferentes formas e em diferentes plataformas.
Compartilhar gostos com pessoas dispostas a debater sobre literatura tornou-se muito significativo, tanto para quem consome conteúdo literário quanto para quem o produz. O BookTok é um espaço de trocas: para ouvir e ser ouvido, para imaginar, desfrutar e ser você mesmo.
As livrarias físicas têm se adaptado ao mundo digital?
A ascensão do BookTok como comunidade influente, somada ao crescimento do e-commerce, impôs um desafio existencial às livrarias físicas. Para não serem engolidos, esses espaços culturais precisaram se reinventar, abraçando a tecnologia como ferramenta para direcionar o tráfego de volta às suas portas e revalorizar o ato de folhear um livro.
Essa adaptação opera em duas frentes: a expansão estratégica da presença online das livrarias e o cuidado com a experiência dos leitores nos pontos físicos. Na primeira, para competir com grandes redes de marketplace, as livrarias têm investido em plataformas próprias que, embora não reproduzam a experiência física, facilitam a vida do leitor que compra um livro e pode retirá-lo assim que preferir, garantindo a manutenção econômica do setor literário.
Nos bastidores, a inteligência artificial representa um enorme avanço, por meio de sistemas de gerenciamento de estoques mais dinâmicos. Isso permite que as livrarias monitorem, em tempo real, quais títulos estão em alta no ambiente digital — especialmente os viralizados pelo BookTok — e ajustem suas compras para criar uma curadoria mais ágil e assertiva.

A ascensão do BookTok como influente comunidade, somada à crescente dos e-commerce, impuseram um desafio existencial às livrarias físicas.
Foto: Gabriela Zaffiri
Inesperadamente, o BookTok se tornou um catalisador de vendas, e as livrarias tiveram que aprender a capitalizar esse fenômeno. A estratégia principal é o espelhamento da tendência nos pontos de venda. É comum encontrar mesas e prateleiras temáticas dedicadas explicitamente aos “Livros que viralizaram no BookTok”, por exemplo. Essa tática remove barreiras entre o digital e o físico, facilitando a busca do consumidor e transformando o desejo digital em uma compra física palpável e imediata.
Em paralelo, algumas livrarias utilizam suas próprias redes sociais para promover parcerias com booktokers, realizar sessões de autógrafos e criar conteúdos especiais que celebrem o prazer de folhear, valorizando a ambiência única da loja.
O livreiro assume o papel de curador, oferecendo recomendações personalizadas e promovendo um diálogo que fala mais alto que o algoritmo. Além disso, os espaços são transformados para incentivar o convívio, anexando cafés e desenvolvendo clubes de leitura.
Essas e tantas outras estratégias fazem com que o público passe mais tempo possível no local, estabelecendo um senso de comunidade entre leitores e reafirmando a livraria como um ponto de encontro cultural vital. Ao unir a agilidade das plataformas digitais à riqueza insubstituível da experiência física, as livrarias demonstram que não estão apenas lutando por sobrevivência, mas encontrando uma nova e sustentável forma de prosperar na era digital.
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A padronização literária
Verity, Melhor do que nos filmes, Os Sete Maridos de Evelyn Hugo e Biblioteca da Meia-Noite são algumas das obras contemporâneas que se popularizaram no TikTok. Por mais que pertençam a gêneros distintos, todas compartilham uma certa “fórmula”, provável razão para o sucesso nas redes.
Uma história fluida, diálogos constantes e rápidos, cercados por narrativas cativantes, pavimentam a estrada para o sucesso dos mais frequentes best-sellers. O público jovem busca conteúdos impactantes, algo que capture sua atenção. Com sua capacidade de foco cada vez mais reduzida, obras clássicas como Os Miseráveis, de Victor Hugo; Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado; e O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald perdem espaço.
A prevalência das obras “popularzinhas” gera discussões entre os amantes da literatura. Há quem diga que romances água com açúcar não exercitam o senso crítico, sendo uma paródia dos folhetins que reinavam no século XIX, e, por isso, não deveriam ser tão incentivados. No entanto, Liv Resenhas apresenta outro ponto de vista.
A influenciadora defende que não existe material certo para ser lido: “Temos que parar com isso de que só quem lê clássicos, calhamaços e literatura erudita é leitor de verdade”. Além disso, é impossível ignorar que, em um país onde 53% da população não lê livros — de acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024) — qualquer contato com a literatura é válido.
Claramente, há uma dualidade estabelecida. Por um lado, quem lê apenas um padrão de histórias; por outro, quem desvaloriza um ramo de produção literária tão válido quanto os clássicos consagrados.
Inegavelmente, o BookTok apresenta limites. O TikTok estimula um mercado consumidor crescente, transformando hábitos literários em um mercado baseado em estética. Até as capas dos livros passaram por uma “gentrificação”, compostas pelas mesmas cores e estilos.
O fluxo incessante das redes sociais pressiona os usuários por leituras rápidas, sempre antenados no assunto do momento. O resultado óbvio dessa tendência é a aproximação com a superficialidade, uma relação com os livros que, em vez de partir do prazer genuíno, se dá pelo desejo de integrar uma onda viral.
Qual o futuro da literatura no Brasil?
Ainda hoje, a leitura é frequentemente atrelada à escola. Os livros são vistos como uma obrigação, acompanhada de provas, e, por isso, muitas pessoas não enxergam a literatura como hobby.
A comunidade, aos poucos, consegue dissociar essa visão. A viralização de certas obras, influenciadas pelo TikTok, possibilita que os consumidores ampliem seus repertórios literários e explorem diferentes estilos de leitura. Liv supõe que, caso as pessoas não saiam de suas bolhas, correm o risco de “odiar a literatura pelo resto de suas vidas”, já que não têm acesso às inúmeras possibilidades do que a literatura pode ser.

O ramo literário tem se moldado ao novo modelo digital, e os principais agentes dessa mudança são os famosos “booktokers”, que atuam como curadores e divulgadores de novos títulos.
Foto: Maria Eduarda Toti
As narrativas não precisam ser sérias, como muitos pensam. As pessoas precisam vê-las como diversão, como prazer. Essa abordagem já está atraindo novos leitores e provocando um aumento do interesse pela leitura, especialmente entre os mais jovens. Uma pesquisa feita pela Bienal do Livro de São Paulo em 2022 revelou que quase 30% das pessoas são influenciadas pelas redes sociais em suas escolhas. Dentre elas, mais de 60% dos jovens — de 10 a 29 anos — citaram influenciadores digitais como referência.
Apesar dos pontos positivos, o BookTok apresenta críticas relacionadas às falhas do algoritmo. “Falta o próprio impulsionamento da plataforma para não entregar só o que é viral e sim impulsionar a possibilidade do que a literatura pode ser quando chega às mãos das pessoas certas”, afirma Liv. Também há uma carência dos leitores em buscar diversificação e sair das zonas de conforto, já que existem booktokers que fogem dos gêneros convencionais.
Mesmo que a comunidade tenha engajado comercialmente as livrarias, essa ponte entre digital e físico se perdeu no popularizado, ou seja, muitos se conectam com o BookTok apenas observando o número de curtidas de determinado livro. A Editora Intrínseca foi uma das primeiras a notar o potencial do TikTok como ferramenta de promoção de seus livros.
O primeiro vídeo publicado pela editora na plataforma, em 2021, viralizou com um livro que nem havia sido lançado: Os Dois Morrem no Final, de Adam Silvera. A obra virou uma série aclamada, com 250 mil livros vendidos. Assim, outras editoras também se moldaram aos virais, e as que não se adaptam acabam não tendo tanta visibilidade. Quando algo performa bem no TikTok e é bem recebido pelo público, esse domínio é usado para intensificar ainda mais o efeito em sites e materiais de livrarias.