Após o Agente Secreto, o que esperar do cinema brasileiro? - Revista Esquinas

Após o Agente Secreto, o que esperar do cinema brasileiro?

Por Maysa Sevaroli e Júlia Rezende : março 20, 2026

No âmbito político internacional, para o produtor e diretor Marcelo Lordello, a vitória de "Agente Secreto” no Oscar poderia ser vista como um “statement" da Academia. Foto: Agente Secreto/Divulgação

Mesmo sem vitória, presença brasileira no Oscar reforça visibilidade e levanta questões sobre o futuro do setor

Seria o Oscar a nova Copa do Mundo dos brasileiros?

Na noite do último domingo, 15 de março, o Brasil se encontrou extremamente vidrado com a cerimônia do Oscar. O grande evento hollywoodiano foi considerado tão importante que gerou repercussão nível Copa do Mundo. O filme “Agente Secreto” do pernambucano Kleber Mendonça Filho rendeu ao Brasil 4 indicações no Oscar de 2026. Os brasileiros se encontram sem a famosa estatueta dourada esse ano, mas o nosso caminho no Oscar está só começando.

Um longo caminho

O Brasil agora tem seu cinema consolidado no olhar internacional, mas essa recente atenção se deve ao passado do país na premiação mais importante do audiovisual. Desde o começo dos Oscars, o Brasil sempre esteve presente, porém de maneira quase despercebida.

Na 32° edição da premiação, em 1960, o Brasil teve seu primeiro papel como protagonista. O filme “Orfeu Negro” foi indicado a Melhor Filme Internacional representando a França, apesar do longa ser inteiramente em português e se passar durante o carnaval no Rio de Janeiro. Tudo mudou em 1963, quando o filme brasileiro de Anselmo Duarte “O Pagador de Promessas” foi indicado na mesma categoria. Apesar de não ter levado estatueta, o filme não só recebeu a Palma de Ouro no Cannes, como abriu a porta para mais cineastas brasileiros serem reconhecidos internacionalmente. Em sequência, O musical Brazil, em 1985, teve grande repercussão entre os profissionais da área como críticos, artistas e estudantes, no entanto, não foi um grande sucesso comercial, tendo uma exibição restrita. O filme concorreu a dois Oscars: Melhor Roteiro Original e Melhor Direção de Arte, e venceu o BAFTA de Efeitos Especiais e Desenho e Produção.

Pulando para os anos 1990, o Brasil recebeu uma série de indicações como Melhor Filme Estrangeiro: “O Quatrilho” (1996), “O Que É Isso, Companheiro?” (1998) e “Central do Brasil” (1999). O último foi a primeira indicação de Walter Salles no Oscar e a primeira indicação de uma brasileira na categoria de Melhor Atriz, resultado da performance de Fernanda Montenegro. As indicações começaram a crescer e a presença brasileira no cenário internacional se consolidou. O clássico filme de Fernando Meirelles, “Cidade de Deus”, conquistou quatro indicações no Oscar, sendo elas: Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Montagem.

Por fim, chegamos a 2025 e “Ainda Estou Aqui”. O filme de Walter Salles não só emocionou os brasileiros, como também emocionou telespectadores ao redor do mundo. O longa adaptado do livro de Marcelo Rubens Paiva rendeu ao Brasil diversas estatuetas no Festival de Cannes e no Globo de Ouro. No Oscar, o filme recebeu três indicações: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz para Fernanda Torres, que seguia os mesmos passos de sua mãe 25 anos depois de “Central do Brasil”. Nessa noite levamos a estatueta de Melhor Filme Internacional.

Esse ano, recebemos indicações para Melhor Filme, Melhor Elenco, Melhor Filme Internacional e Melhor Ator para Wagner Moura. Além da indicação do filme “Sonhos de Trem” em Melhor Fotografia, que foi feita pelo também brasileiro Adolpho Veloso.

Mas e se o Agente Secreto tivesse ganho?

No âmbito político internacional, para o produtor e diretor Marcelo Lordello, a vitória de “Agente Secreto” no Oscar poderia ser vista como um “statement” da Academia. Ou seja, premiar um filme sobre ditadura e repressão seria uma forma dessa organização mostrar seu posicionamento em relação aos recentes acontecimentos no mundo. Pelo lado abrasileirado, Agente Secreto se diferencia de tudo já produzido pelo cinema nacional, e o selo do Oscar iria alavancar mais ainda a produção de filmes brasileiros e o seu poder político no mundo. Para a produtora e coordenadora de produção do longa, Fernanda Cordel, o diferencial do filme é a sua singularidade e o seu local de produção.

“Eu acho que o grande diferencial é conseguir unir duas coisas que nem sempre estão juntas no cinema brasileiro, que seria uma grande produção em um cinema muito autoral, mas ao mesmo tempo, sempre mantendo o olhar de Kleber (Mendonça Filho). Outro diferencial do filme seria o fato dele ser feito no Nordeste, no Recife. Recife não aparece só como cenário, ele também é um personagem na história”.

O desvio de foco da produção cinematográfica do raio sudeste (Rio de Janeiro e São Paulo) para o nordeste pluraliza ainda mais a capacidade do cinema de representar a diversidade cultural brasileira, além de abrir o leque de possibilidades para que produtoras de diversas regiões sejam reconhecidas na indústria.

 

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O recente sucesso de Ainda Estou Aqui e Agente Secreto traduz no imaginário brasileiro que um filme só é bom se for reconhecido internacionalmente.
Foto: Agente Secreto/ Divulgação

A montanha russa do cinema brasileiro

Durante o governo ditatorial de Fernando Collor, foram extintos a Embrafilmes e a Concine. O fechamento desses fundos estatais direcionados a produção de cinema nacional tinha como intuito a abertura do mercado brasileiro para a sétima arte norte-americana. Até hoje, percebe-se a falta de exibições de filmes brasileiros nas salas de cinema em detrimento de filmes estadunidenses. Como resultado, sem o apoio do Estado no financiamento de editais para produção, fazer filmes no Brasil tornou-se uma força tarefa. Para Lordello, o ciclo da produção do cinema brasileiro é inconstante e não linear por conta de questões governamentais que restringem o fazer cultural. Como primeira dificuldade para realizadores de cinema, o diretor aponta o financiamento.

“O cinema, por mais que o digital auxiliou muito em termos de questões técnicas, ele é uma arte cara. É uma arte coletiva, de uma equipe técnica muito grande, é um preço que se paga por uma arte que se eterniza.”

Outra dificuldade apontada é a exibição. Em 2024 foi sancionada a Lei Cota de Tela, que estabelece que entre 7,5% e 16% das sessões anuais de redes de cinema comercial sejam de filmes brasileiros

“Mas estamos falando também, para além de um sistema de exibição, um processo de educação de um público que durante muito tempo se afastou do cinema nacional. Durante as décadas de 50, 60, 70 e 80, a gente tinha filmes que faziam muito público. Mas aí surge a televisão, os Estados Unidos com uma lógica de cinema blockbuster, os cinemas de shopping, tv por assinatura, as coisas foram mudando e o público foi ficando cada vez mais afastado do cinema nacional.” diz Lordello

O recente sucesso de Ainda Estou Aqui e Agente Secreto traduz no imaginário brasileiro que um filme só é bom se for reconhecido internacionalmente. Tal ideia surge quando os brasileiros preferem ver o mais do mesmo de filmes norte-americanos, que atrela os seus ideais a maioria dos filmes, do que os nacionais, que revelam a história e a pluralidade brasileira, como se a qualidade do cinema estivesse atrelado a uma aprovação do ocidente.

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Esse ano, recebemos indicações para Melhor Filme, Melhor Elenco, Melhor Filme Internacional e Melhor Ator para Wagner Moura.
Foto: Victor Kayke/ Pexels.

Mas o que faz um filme ser reconhecido internacionalmente?

Para Fernanda Cordel, quando um filme conta uma história universal e tem uma identidade forte ele acaba despertando curiosidade e interesse de fora do país.

“Festivais internacionais normalmente valorizam esse tipo de cinema autoral, que tem uma visão de mundo e linguagem própria.”

Um fator que favoreceu o sucesso de Agente Secreto, foi o próprio diretor. Kleber Mendonça Filho, pernambucano, formado em jornalismo, tem uma trajetória registrada em festivais fora do Brasil. Outros filmes do diretor como “O Som Ao Redor”, “Aquarius”, “Bacurau” e “Retratos Fantasmas” traçaram o caminho e criaram expectativa para que o “Agente Secreto” fizesse sucesso. Já pelo lado da produção, todo o resultado vem de um esforço coletivo, mas a magnitude do impacto do filme dificilmente era esperada. “Dentro da produção, acabamos nos concentrando em fazer um filme da melhor forma possível. Cuidando de cada detalhe, locação, equipe e logística. A gente já começou sabendo que seria um projeto forte e com potencial. Mas essa repercussão nunca é previsível até onde o filme iria chegar.”

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E o futuro?

Apesar de termos saído sem estatuetas neste último Oscar, apenas a presença do Brasil na premiação, somente um ano após o fenômeno “Ainda Estou Aqui”, já foi impressionante. Desde então, muito tem sido questionado sobre o futuro do cinema brasileiro. Se finalmente chegamos em um momento de grande reconhecimento do nosso cinema, se haverá uma maior facilitação do financiamento de filmes e se o Brasil continuará presente nas próximas temporadas de premiações.

Assim como citado anteriormente, o Brasil não vive um sistema linear em relação ao cinema, mudando a cada governo, mas, segundo Fernanda, estamos vivendo um período muito positivo de retomada de investimento no audiovisual brasileiro, principalmente por meio de políticas públicas, facilitando e aumentando a quantidade de produções realizadas. No entanto, todo esse processo ainda é complicado e exige muita articulação dos produtores, já que viabilizar e manter projetos ainda é um grande desafio, de acordo com a profissional.

Ainda de acordo com a produtora, o cinema brasileiro mostrou a sua capacidade de dialogar com o mundo sem perder sua identidade por meio do sucesso de O Agente Secreto. Ela acredita que sua visibilidade abrirá portas para novos projetos serem vistos e financiados e deseja que esse momento fortaleça o cinema nacional, ampliando a diversidade de vozes e oportunidades.

Editado por Enzo Cipriano

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