O mercado da promessa: "trabalho, mérito e dinheiro fácil" - Revista Esquinas

O mercado da promessa: “trabalho, mérito e dinheiro fácil”

Por Ana Julia Galhardo, Maria Júlia Vieira de Oliveira e Nina Simonettii : abril 8, 2026

Mais do que uma promessa de lucro rápido, a promessa do dinheiro fácil revela a combinação de vulnerabilidade econômica, pressão social por sucesso e discursos meritocráticos simplificados. Foto: Tylijura/Pixabay

O universo das promessas se expande nas redes sociais, enquanto o mercado vende a ideia de lucro rápido e alimenta ilusões de sucesso fácil

Com a popularização das mídias sociais, o empreendedorismo digital tem conquistado espaço crescente. Por meio de discursos atrativos que prometem oportunidades de ascensão financeira, cursos, mentorias e métodos vendem uma solução aparentemente simples: a do “lucro rápido”. Ao viralizar nas redes, garantem novos consumidores. Assim, surge um mercado que transforma promessas de ascensão financeira em um produto ilusório. Sustentado por uma lógica de meritocracia individual, esse fenômeno coloca em questionamento a precarização do trabalho e o impacto dessas promessas nas finanças da sociedade.

Nas últimas décadas, com o avanço tecnológico, o empreendedorismo virtual ampliou significativamente seu público, sendo a maior parte composta por jovens adultos — entre eles, garotos que decidiram investir em cursos online após o contato com promessas de lucro rápido nas redes sociais.

Como os jovens estão sendo alvos de discursos prometedores de sucesso e dinheiro?

Foi navegando nas redes que um usuário, que preferiu manter-se em anonimato, encontrou uma possibilidade de garantir uma nova fonte de renda de maneira rápida. A proposta era simples: transformar alguns cliques em lucro.

Divulgado por meio de vídeos no Instagram, o curso prometia ensinar formas de crescer nas redes sociais e monetizar conteúdos, criando publicações virais a partir de novas estratégias. Ao comparar com cursos semelhantes, o que convenceu o jovem a comprá-lo foram os depoimentos de clientes satisfeitos e os resultados positivos apresentados pelo vendedor. Junto ao pagamento do curso, havia a exigência de investimento em plataformas de narração e inteligência artificial. “O valor do curso não pesou no meu orçamento, considerando o que ele poderia entregar em termos de resultado”, relatou.

Com o curso em mãos, para alcançar resultados, era essencial seguir as estratégias e configurações indicadas, além de manter frequência nas postagens. Assim, a renda dependeria do alcance de visualizações, com a promessa de um mínimo de R$ 500,00.

“Achei o curso bem parecido com o que foi prometido na divulgação. Após os três meses de duração, aprendi a editar, analisar e configurar alguns canais, além da importância da frequência nas postagens.” Mesmo conseguindo aplicar as estratégias ensinadas, como criação e publicação de conteúdo, o retorno financeiro foi pequeno:

“Apesar dos aprendizados, os resultados demoraram mais para aparecer do que a divulgação indicava. Não foram tão rápidos quanto eu imaginava.”

Quando questionado se, de fato, era uma forma rápida ou fácil de ganhar dinheiro, o jovem negou:

 “Exige trabalho, tempo e prática para chegar aos resultados, diferente do que a proposta prometia.”

Outro exemplo recorrente de promessas de dinheiro fácil são as chamadas casas de apostas. Com ampla divulgação, impulsionadas sobretudo por influenciadores digitais e celebridades, essas plataformas têm alcançado diferentes camadas da sociedade, associando as apostas à ideia de sucesso rápido e acessível.

Em entrevista, um jovem apostador relatou como se deu seu primeiro contato com esse universo: “Fiquei sabendo das casas de apostas por conta da minha aproximação com o futebol. Elas são patrocinadoras ‘master’ de muitos times, e muitos amigos meus já usavam as bets. A partir daí, tive vontade de usar.”

As expectativas aumentavam: “Quando apareciam todos aqueles números na tela, eu via potencial. Se conseguisse acertar o placar ou quantos gols aconteceriam em um jogo, meu dinheiro seria multiplicado.” Mesmo assim, parar se tornou uma tarefa difícil.

mercado

Por meio do algoritmo, a repetição constante compra a atenção do público de uma forma bem sútil, aumentando sua influência.
Foto: danieldantas/Pixabay

Por trás das campanhas publicitárias

Para que um discurso ou anúncio na internet alcance tantas pessoas de forma orgânica, é necessário estudo e análise do público-alvo. “Que comunidade é essa? Qual a tensão cultural que a atravessa? Como ela vive? É um processo tático, estratégico e replicável”, explica Guilherme Cedran, especialista em marketing digital.

O que se vende é a solução. No mercado do dinheiro fácil, a promessa é sair do aperto, realizar sonhos e melhorar de vida. A lógica apresentada é simples: do sofá de casa, seria possível atender desejos e necessidades. Ao enfatizar a praticidade, o cansaço e a falta de tempo são convertidos em motivação para o investimento.

Para alcançar consumidores, bets e cursos focam em populações vulneráveis, que buscam soluções rápidas, posicionando-se como resposta imediata. Nesse contexto, a frequência na mídia se torna uma aliada central.

As “bets” apresentam alto potencial de estimular comportamentos compulsivos. O acesso facilitado, aliado à dinâmica rápida das apostas e à constante exposição a propagandas, contribui para o desenvolvimento do vício. Há também relação com o agravamento de problemas financeiros, conflitos familiares e impactos na saúde mental, principalmente quando há ganhos pontuais que reforçam a prática.

A atividade deixa de ser entretenimento ocasional e passa a ocupar espaço central na rotina, comprometendo o equilíbrio pessoal e econômico. Quando um clique é apresentado como capaz de transformar uma vida, ele deixa de ser apenas um gesto simples e passa a representar uma decisão com consequências amplas e duradouras.

Para garantir a captação do público, as estratégias publicitárias mobilizam gatilhos emocionais. A necessidade de pertencimento é explorada para criar uma sensação de comunidade e acolhimento.

“Criam conexão com sentimentos e necessidades pessoais. Esse processo é central na estratégia de marketing”, analisa Cedran.

Segundo o especialista, a indústria vende não apenas uma promessa, mas um “lifestyle”, que molda o pensamento dos usuários. O marketing constrói um estilo de vida desejável, reforçando a ideia de pertencimento. A combinação entre necessidade financeira e busca por reconhecimento social cria um cenário sensível.

Para atingir emocionalmente o público, o marketing investe em influenciadores digitais, que simulam ganhos e ostentação, muitas vezes desvinculados da realidade dessas plataformas. “O público vê esse estilo de vida e quer também. Assim surge a ideia de que jogar é o caminho para esse sucesso”.

Por meio dos algoritmos, a repetição constante captura a atenção do público de forma sutil, aumentando sua influência. Os conteúdos são testados e direcionados, tornando-se parte do cotidiano e gerando adesão por insistência. Trata-se de um processo de convencimento indireto e eficaz.

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As consequências emocionais

Pouco se discute por que discursos prometedores são tão atraentes. Em entrevista, a psicóloga Catherine Leon aponta o imediatismo como fator central:

 “O nosso cérebro tende a buscar o que parece mais fácil. A ideia de que em uma semana a vida estará resolvida é muito atrativa, especialmente para quem está emocionalmente vulnerável.”

Com os avanços tecnológicos, a busca por sucesso profissional e produtividade intensificou a comparação entre indivíduos. As redes sociais amplificam esse processo.

“A internet vende recortes de sucesso. Isso gera comparação e frustração. Muitos passam a acreditar que, se não alcançam resultados rapidamente, há algo errado com eles, o que impacta a autoestima”, afirma.

A partir dessa comparação, outros danos emocionais surgem, tornando os indivíduos mais suscetíveis a novos discursos enganosos. “Com baixa autoestima, as pessoas ficam mais vulneráveis e acreditam que essas promessas são a única alternativa.”

Quando as expectativas não são atendidas, sentimentos como ansiedade e depressão podem aparecer, muitas vezes acompanhados da ideia de fracasso pessoal.

O mercado da promessa é estruturado para o lucro de quem vende. Os mecanismos utilizados demandam investimento constante e dificultam o retorno financeiro. “Existe um contexto em que o sofrimento nunca é apenas individual”, conclui a psicóloga.

O discurso meritocrático

A ideia de que o fracasso é responsabilidade exclusiva de quem consome esses produtos se relaciona à lógica meritocrática. Frases como “basta querer” reforçam a culpa individual, desconsiderando fatores estruturais.

Mais do que prometer lucro rápido, esse mercado revela a combinação de vulnerabilidade econômica, pressão social e discursos simplificados de mérito. Em um cenário de insegurança financeira e comparação constante, essas promessas encontram terreno fértil.

“Precisamos entender que o que é vendido, muitas vezes, é acessível apenas a pessoas privilegiadas, com tempo e recursos para investir”, afirma Catherine.

Assim, o que se comercializa não é apenas um método, mas a expectativa de ascensão social imediata. Quando ela não se concretiza, os impactos vão além do financeiro e atingem o emocional, aprofundando frustrações e desigualdades.

Editado por Enzo Cipriano

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