Plano Real e diplomacia: a trajetória de Rubens Ricupero - Revista Esquinas

Plano Real e diplomacia: a trajetória de Rubens Ricupero

Por Gustavo Lillis : maio 5, 2026

Rubens Ricupero. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Ricupero relembra os bastidores do Plano Real e analisa o cenário político e econômico atual do Brasil e seus desafios

Todos os dias acordamos com notícias sobre guerras, ataques, enfraquecimento de governos democráticos e o pouco diálogo entre países, que resultam em ações que beiram o absurdo. No nosso país não é diferente: desde as crises econômicas da última década e um regime democrático recente e abalado, figuras que representam soluções extremas fizeram sucesso nos últimos anos eleitorais. O ano de 2026 promete mais uma eleição polêmica, que nos faz pensar onde estão os políticos moderados no Brasil.

Com essa missão, ESQUINAS entrevista, na íntegra, um dos maiores nomes da história da diplomacia e da política brasileira, Rubens Ricupero.

Da formação à diplomacia

Descrever a trajetória de vida de Ricupero é uma tarefa árdua, pois há diversas fases de atuação política ao longo de sua carreira. O menino descendente de uma família italiana de classe média baixa do Brás entendeu desde cedo que a educação seria seu maior aliado na vida. Todavia, teve dificuldade na hora de escolher uma carreira acadêmica, formando-se em Direito no Largo de São Francisco, pressionado a terminar rapidamente o curso. Encontraria o caminho da diplomacia por meio de um amigo na universidade, que enviava exames antigos do Itamaraty por cartas, ajudando o jovem formado e sem muitas pretensões na vida adulta a ingressar no que seria sua maior dedicação: a vida pública.

Rubens foi um dos primeiros diplomatas a viver em Brasília, cidade que ainda gerava dúvidas e preconceitos pela promessa de representar o futuro. Trabalhou no gabinete de alguns ministros das Relações Exteriores, na época do caos político dos governos Jânio Quadros e João Goulart. Sua carreira internacional teve início em Viena, que, mesmo distante do Brasil, não escapou da repressão do recém-formado governo militar brasileiro.

“Eu figurava na lista (de cassações políticas), embora fosse muito jovem. Não que eu tivesse alguma ação política que chamasse atenção, mas é que eu tinha trabalhado no gabinete do ministro (das Relações Exteriores). O ministro, na época do Jânio Quadros, era o Afonso Arinos, depois San Tiago Dantas, depois Hermes Lima. E esses períodos foram considerados pelos militares como períodos de esquerda da política externa. Mesmo em Viena, tive que responder ao inquérito. Eles viram que eu não tinha nada e logo fui retirado da lista.”

Plano Real e projeção nacional

Rubens prosseguiu na carreira diplomática, tanto no Brasil quanto no exterior. Atuou em missões nos Estados Unidos, foi presidente da comissão do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) e teve atuação relevante em questões ambientais como articulador no Tratado de Cooperação Amazônica, na Rio-92 e como ministro do Meio Ambiente e da Amazônia Legal. Em entrevista e em seu livro de memórias, relatou as dificuldades de negociações diplomáticas e econômicas com vários países, inclusive os Estados Unidos.

“Eu tive que enfrentar muitos ataques pesados dos embaixadores americanos. No conselho de representantes do GATT, sobre concessão de patentes, debati a taxação dos americanos sobre produtos brasileiros por conta das patentes. O representante norte-americano, em tom troglodita, disse: ‘não se deveria dar ouvidos a proclamações altissonantes de multilateralismo pronunciadas por piratas’. Segundo ele, a pirataria brasileira vinha do desrespeito às patentes americanas.

A minha resposta foi: ‘Gostaria de lembrar ao meu colega dos Estados Unidos que a única experiência que o Brasil e seus vizinhos tiveram com a pirataria foi como vítimas. E os perpetradores foram gente que atendia pelos nomes de Drake, Cavendish, Kidd, Morgan e outros do mesmo naipe.’”

Ricupero

Ricupero discursando na comemoração do Tratado de Cooperação Amazônica (TCA) onde representou o Brasil nas negociações. Foto: José Cruz/Agência Brasil

Também falou sobre a diferença dos Estados Unidos dos anos 80 e 90 em relação ao cenário atual, principalmente pela abordagem mais protecionista e anti-multilateralismo promovida por Donald Trump.

“É curioso quando a gente pensa hoje, porque posições que o Brasil defendia eram muito criticadas pelos americanos, mas hoje são defendidas por eles. O Brasil buscava proteger, até certo ponto, a indústria nacional com tarifas. Os americanos criticavam muito, diziam que o Brasil atuava contra a teoria econômica. Você sabe que agora o Trump não faz outra coisa, né? O presidente dos Estados Unidos não respeita mais nem a OMC. Um dos pontos fundamentais do acordo geral de tarifas é que nenhum país pode aumentar unilateralmente suas tarifas. Mas ele faz o oposto do que os próprios americanos criaram.

Hoje os americanos não defendem mais as posições que tinham devido à competição com a China, o que os obriga a serem cada vez mais protecionistas. A China respeita mais a OMC do que os Estados Unidos.”

Ricupero ganhou cada vez mais destaque devido às suas atividades como embaixador e negociador. Os tratados dos quais participou foram vistos como benéficos para as relações brasileiras internas e externas. Seu nome passou a ser respeitado e, por isso, foi chamado para a tarefa mais importante de sua carreira: o Plano Real.

Com a crise enfrentada pelo governo Itamar Franco após o impeachment de Fernando Collor de Mello — principalmente pela alta inflação e pelos fracassos dos planos monetários anteriores —, o presidente conseguiu convencer Ricupero a substituir Fernando Henrique Cardoso no Ministério da Fazenda, que deixaria o cargo para disputar a eleição presidencial, e pôr em prática a transição do Cruzeiro para o Real.

Ricupero

Extinta cédula de 1 real. Foto de Wikimedia Commons.

Pela primeira vez em décadas, o Brasil passou a viver estabilidade econômica causada pelo sucesso imediato da nova moeda. Ricupero demonstra orgulho ao relatar como o Plano Real foi fundamental para que o país retomasse os rumos após a chamada década perdida dos anos 80.

“Havia muita gente que pensava que o Brasil era uma espécie de povo geneticamente incompatível com a estabilidade de preços. A inflação era tão alta que o José Sarney quase não consegue terminar o mandato, quase o mesmo que Alfonsín na Argentina. O real teve esse efeito fabuloso: acabou com a inflação brasileira de um momento para o outro praticamente. A inflação antes do real era de 2% ao dia! Hoje é cerca de 4% ao ano. Felizmente, a hiperinflação nunca mais aconteceu.

Naquela época havia muito descrédito sobre o real. Seis, sete ou oito planos já tinham fracassado, vários com mudança de moeda. Felizmente, as eleições não giram mais em torno da hiperinflação e de uma moeda nova.”

Esse sucesso elevou sua projeção no Brasil, tanto politicamente quanto midiaticamente. Entretanto, essa trajetória teve uma reviravolta polêmica e traumática. Antes de uma entrevista para o Jornal da Globo, Ricupero conversava com seu cunhado de forma informal sobre ações do governo. Admitiu ter dito “bobagens”, como afirmar que o plano foi acelerado para ajudar a imagem de FHC nas eleições de 1994. A frase mais controversa foi: “Eu não tenho escrúpulos; o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. As antenas captaram a conversa, dando origem ao “Escândalo da Parabólica”, que levou à sua renúncia. Em sua autobiografia, afirma que não escondeu informações da população, mas reconhece que não deveria ter feito aquelas declarações.

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Visão política e legado

Sua carreira seguiu como embaixador em Roma e secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). Após se aposentar, escreveu livros como “A diplomacia na construção do Brasil” (2017) e “Memórias” (2024), sua autobiografia.

Nos últimos anos, voltou a se posicionar politicamente. Ligado a políticas sociais-democratas e ao PSDB, principalmente por conta do Plano Real, Ricupero nunca foi muito próximo de Luiz Inácio Lula da Silva, sobretudo no início da transição monetária. Ainda assim, apoiou o presidente na campanha de 2022 e fez críticas ao governo Jair Bolsonaro e à ditadura militar.

Perguntado sobre o cenário político ideal, defendeu um país menos polarizado, com maior presença de políticos moderados de centro-esquerda e centro-direita.

“Eu espero que o Brasil supere finalmente este clima de polarização. Ainda não superou inteiramente. Tanto assim que vemos candidaturas como a de Flávio Bolsonaro. Mas espero que, nas próximas eleições, já haja uma disputa mais normal, com nomes como João Campos, Raquel Lyra, Eduardo Leite, Ratinho Jr. Não que eu tenha preferência por nenhum deles, mas não pertencem a esta geração mais polarizada. Espero um futuro de centro-direita e centro-esquerda.”

Em um trecho de seu livro, ao tratar da crise que antecedeu o golpe militar, Ricupero retoma uma frase de Simón Bolívar sobre a América Latina. Questionado sobre sua validade hoje, respondeu de forma mais otimista:

“Essa frase Bolívar escreveu quando estava perto de morrer, desesperançoso com o fracasso da Gran-Colômbia. Não acho que seja a realidade atual. Países como México, Brasil e Colômbia seguem trajetórias mais estáveis. Ainda há oscilações, como na Argentina, mas isso vem de muito tempo. A maioria dos países atingiu um nível razoável de amadurecimento político. Essa visão não se justifica mais.”

Ricupero viveu diferentes momentos e ocupou diversos cargos. Mas o que permaneceu foi a relação com a esposa Marisa, por mais de 60 anos, o amor pelo Brasil e pela literatura, a atividade política e a experiência de vida compartilhada nesta entrevista ao ESQUINAS.

BATE-VOLTA com Rubens Ricupero

Melhor cidade em que viveu como diplomata? Roma
Melhor diplomata da história do Brasil? Barão do Rio Branco; em segundo, Joaquim Nabuco
Nova Iorque ou Bruxelas? Bruxelas
País com que mais teve dificuldade em negociar um tratado? Peru
Macarrão mais gostoso: do Brás ou de Roma? Eu acho que o de Roma, Itália, sem dúvida, é o melhor.
Melhor presidente ou líder que o Brasil teve? Rodrigues Alves (1902–1906); menção para Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva
Melhor presidente ou líder que o Brasil não teve? Tancredo Neves
Pior presidente ou líder que o Brasil já teve? Jair Bolsonaro
Se fosse descrever o Plano Real em uma palavra, seria: equilíbrio
Se fosse descrever diplomacia em uma palavra, seria: equilíbrio também
Se fosse descrever Rubens Ricupero em uma palavra, seria: Eu gosto muito, como escrevi em minhas memórias, de uma epígrafe que encontrei no livro de memórias de Bertrand Russell, em que ele diz que três paixões dominaram a vida dele: o desejo do conhecimento, o desejo do amor e uma grande compaixão pelo sofrimento dos seres humanos.

Editado por Enzo Cipriano

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