Do baile ao teatro: MC Hariel leva batidas do funk às salas de concerto - Revista Esquinas

Do baile ao teatro: MC Hariel leva batidas do funk às salas de concerto

Por Enzo Cipriano : maio 26, 2026

Ao longo da coletiva, Hariel relembrou ainda como o gênero ultrapassou fronteiras brasileiras nos últimos anos. Foto: Enzo Cipriano

Em coletiva de lançamento do espetáculo, MC Hariel, Xuxa Levy e Nave Beatz discutiram o funk como expressão cultural e ferramenta de ocupação de espaços

Durante décadas, o funk foi tratado como um gênero restrito às periferias brasileiras. Criminalizado, associado à violência e frequentemente excluído de espaços culturais considerados “nobres”, o movimento cresceu à margem da legitimidade dada a outros estilos musicais no país. Hoje, porém, o gênero ocupa festivais internacionais, domina plataformas de streaming e se consolida como uma das principais expressões da música brasileira contemporânea. Ainda assim, o preconceito permanece como uma marca constante na trajetória de muitos artistas da cena.

Foi justamente sobre essa tentativa de romper barreiras — culturais, sociais e simbólicas — que girou a coletiva realizada nesta terça-feira (26), em São Paulo, para anunciar o Red Bull Symphonic, projeto que vai unir o funk de MC Hariel a uma formação orquestral conduzida pelo maestro Xuxa Levy e com direção musical de Nave Beatz. Mais do que divulgar o espetáculo marcado para agosto, os participantes discutiram o espaço que o funk ocupa — e ainda tenta ocupar — dentro da cultura brasileira.

Ao longo da conversa, o encontro entre o funk e a música clássica deixou de ser tratado apenas como uma mistura estética. O evento foi apresentado como um símbolo de aproximação entre universos historicamente separados no Brasil: o da periferia e o dos espaços tradicionalmente ligados à elite cultural.

Para Hariel, iniciativas desse tipo ajudam a combater a visão estigmatizada construída em torno do gênero ao longo dos anos.

“Se juntar com uma marca grande ajuda a combater o preconceito. Ajuda as pessoas a entenderem que, se uma empresa desse tamanho está olhando para o universo do funk, é porque tem valor.”

O cantor também destacou a importância simbólica de levar o funk para teatros e salas de concerto, espaços que, historicamente, nunca foram pensados para a população periférica.

“A gente faz parte de tudo isso. Não é porque a gente mora longe, não tem acesso, que a gente não pode frequentar esse tipo de lugar. Eu quero ver a periferia ocupando teatros, salas de orquestra.”

Hariel

Mais do que um espetáculo musical, o projeto foi apresentado pelos participantes como uma tentativa de reposicionar o funk dentro da cultura brasileira.
Foto: Enzo Cipriano

Entre a juliet e o terno

A ideia de ocupação apareceu diversas vezes durante a coletiva. Mais do que adaptar batidas para instrumentos clássicos, os envolvidos na montagem falaram sobre criar uma conexão entre diferentes experiências sociais. Nave Beatz definiu esse processo como uma tentativa de “horizontalizar” dois mundos distintos.

“O grande desafio desse espetáculo é construir essa ponte entre dois universos que são diferentes. Um está de juliet e o outro está de terno. Conseguir conectar esses dois mundos, horizontalizar essa conversa”, afirmou o produtor.

A fala resume um movimento que tem se tornado cada vez mais frequente na música brasileira. Nos últimos anos, gêneros periféricos como o funk e o trap passaram a ocupar espaços antes dominados por estilos considerados mais “aceitáveis” pelas elites culturais. O próprio ambiente da música clássica, frequentemente associado a um público restrito e elitizado, começou a abrir espaço para novas sonoridades e artistas populares.

Ainda assim, os participantes da coletiva defenderam que essa aproximação não deve acontecer apagando a identidade do funk, mas justamente valorizando suas origens.

Xuxa Levy afirmou que a seleção dos músicos da orquestra tem levado em consideração não apenas a capacidade técnica, mas também o entendimento sobre a importância cultural do gênero.

“Estou selecionando os músicos um a um. Estou procurando pessoas que saibam a importância do funk, não apenas tocar bem”, explicou.

Segundo o maestro, o principal desafio do espetáculo não está apenas na execução musical, mas em criar algo que ultrapasse a ideia de uma simples fusão entre estilos.

“O mais difícil é escolher o repertório e combinar as duas linguagens. Na verdade, se tornar uma terceira linguagem.

O funk como patrimônio cultural

Ao comentar a forma como a música é valorizada no Brasil, Levy também criticou a predominância histórica da música erudita europeia como principal referência de legitimidade cultural.

“A gente valoriza normalmente só a música branca europeia. Temos que valorizar o funkeiro. Ele tem repertório e entende muito das produções.”

A discussão também passou pelas origens do funk brasileiro e sua relação com a cultura negra. Para Xuxa Levy, o gênero carrega elementos históricos que muitas vezes são ignorados quando o debate sobre funk se resume apenas às letras ou ao ambiente dos bailes.

“O funk nasce dessas batidas que vieram da cultura negra, do candomblé, misturadas com tecnologia”, afirmou o maestro.

Na tentativa de explicar como o funk carrega referências históricas enquanto continua se transformando, Levy comparou o gênero a um estilingue. Para o maestro, a força do movimento vem justamente de suas raízes culturais e periféricas, que impulsionam o gênero para novos espaços e possibilidades.

“Se você pegar um estilingue, você pega força do passado, durante o presente, e projeta essa força para o futuro, com um objetivo. É isso que eu vejo no funk: uma raiz brasileira muito potente e a força da periferia sendo projetada para frente.”

A ideia também aparece na construção do espetáculo de Hariel. Segundo o cantor, a apresentação pretende revisitar diferentes fases do funk paulista, reunindo referências históricas, artistas contemporâneos e nomes da nova geração.

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Reconhecimento além das periferias

Ao longo da coletiva, Hariel relembrou ainda como o gênero ultrapassou fronteiras brasileiras nos últimos anos. Segundo ele, o reconhecimento internacional do funk muitas vezes acontece antes do próprio reconhecimento dentro do Brasil.

“Às vezes, as pessoas lá fora dão mais valor. O brasileiro ainda coloca muito estigma. Já aconteceu de amigos me mostrarem DJs do Iraque e do Cazaquistão fazendo beat de funk”, contou.

Mais do que um espetáculo musical, o projeto foi apresentado pelos participantes como uma tentativa de reposicionar o funk dentro da cultura brasileira — não como um gênero marginalizado ou passageiro, mas como uma manifestação artística capaz de dialogar com diferentes espaços, públicos e linguagens.

“Esse projeto pode mostrar como o funk pode estar em diversos lugares”, afirmou Hariel. “O funk muda vidas, como mudou a minha e vai mudar a vida de muitos meninos por aí.”

Hariel

Nos últimos anos, gêneros periféricos como o funk e o trap passaram a ocupar espaços antes dominados por estilos considerados mais “aceitáveis” pelas elites culturais.
Foto: Enzo Cipriano

Editado por Enzo Cipriano

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