“Desligar a cabeça”: como os fones de ouvido viraram refúgio urbano - Revista Esquinas

“Desligar a cabeça”: como os fones de ouvido viraram refúgio urbano

Por Sophia Petercem e Julia Pimentel : maio 29, 2026

Diante de uma cidade como São Paulo, usamos o som como um escudo biológico para organizar o ambiente. Foto de Andrea de Santis/Unsplash

Entre músicas e ruídos urbanos, passageiros usam os fones de ouvido como refúgio emocional na rotina das metrópoles

Filas longas, plataformas lotadas e passageiros tentando acompanhar o ritmo acelerado da cidade. Eles lidam diariamente com transporte público e suas complicações rotineiras, visivelmente um ambiente sonoro intenso e quase ininterrupto. O excesso de pessoas, o ruído constante e a falta de espaço intensificam a sensação de caos e desgaste. No horário de pico, metrôs e terminais de ônibus se tornam espaços tomados pela pressa, indiferença e barulho.

Nesse contexto, colocar os fones de ouvido se tornou uma ação quase automática e ao mesmo tempo simbólica. Mais do que ouvir música, demonstra um desligamento da realidade e o início de uma experiência mais individual e íntima. Mesmo diante de desconhecidos, cada pessoa se fecha para criar um espaço privado. Mediado por telas, músicas, vídeos e redes sociais, transforma aquele caminho diário em uma cena tipo protagonista de cinema- jornada interna e pessoal.

Para muitos, o fone de ouvido deixou de ser apenas um acessório casual. Em relatos publicados nas redes sociais, usuários descrevem o objeto como uma forma de “desligar a cabeça”, suportar o excesso de estímulos do transporte e transformar horas de deslocamento no único momento de privacidade do dia. Ouvir uma batida com o seu próprio ritmo específico te faz performar e ditar sua forma de se deslocar independente da aceleração e desordem urbana. Entre músicas, podcasts e vídeos, o trajeto passa a funcionar como um espaço dedicado para si dentro do descontrole coletivo.

“[…] Hoje em dia o meu tempo no metrô e no busão é um tempo em que eu simplesmente desligo a cabeça, deixo os pensamentos correrem soltos, tento me acalmar (mesmo estando numa lata de sardinha). Me ajuda muito, principalmente no final do dia. [..]” – disse um internauta em uma discussão da rede social Reddit

Silêncio não é sinônimo de solidão

Caminhar pelas calçadas de uma cidade grande com fones de ouvido tornou-se um ato simbólico de privacidade em um espaço público. Ao criar o que pesquisadores chamam de “isolamento auditivo”, o indivíduo se isola do ruído externo para habitar o próprio mundo de memórias e desejos, transformando a rotina monótona em um cenário onde assume o protagonismo de sua história.

No entanto, essa busca por uma trilha sonora contínua esconde um sintoma complexo: nas grandes metrópoles, o silêncio passou a ser confundido com a solidão. O desconforto que o ser humano sente ao desligar os fones revela, na verdade, uma intolerância ao vazio e o medo de encarar o caos de seus próprios pensamentos, o medo de estar no tédio .

Romper essa associação é fundamental, pois o sossego não é sinônimo de abandono. As teses da psicologia cognitiva, como as defendidas por Jordan Peterson ao analisar os padrões da mente, em sua conferência chamada “Music and the Patterns of Mind and World“, nos ajudam a compreender esse comportamento.

Diante de uma cidade como São Paulo, usamos o som como um escudo biológico para organizar o ambiente. Porém, quando evitamos a tranquilidade a qualquer custo, transformamos o aparelho em uma fuga: quanto mais nos fechamos no mundo individualmente, por medo da solidão, mais o mundo real se torna distante e indiferente, alimentando o vazio que tentamos combater.

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O efeito avassalador da música no cérebro humano:

Em algum momento, quando você ouviu uma música agitada e mais feliz, se sentiu da mesma forma pelo resto do dia? Ou quando ouve te recorda de um momento específico da sua vida? Isso a ciência explica!

Quando escutamos conjuntos de sons e melodias, acessamos praticamente quase todas regiões do cérebro: desde o tronco cerebral até áreas mais evoluídas do neocórtex. Na qual, somente a fala, não consegue. Regiões que estão ligadas a questões comportamentais, psicofisiológicas e funcionais em todo Sistema Nervoso.

A música intensifica o sistema de recompensa do ser humano- a famosa Dopamina. Responsável em modular nosso humor e prazer, administrando a intensidade das nossas respostas ao emocional. Literalmente, muda a química cerebral, liberando neurotransmissores bons para o bem-estar.

Muito além do que conhecemos, a música surge como uma construção de identidade e formação do “EU”. Visto que, ela é uma das formas mais potentes de acessar nossas memórias, reconstruindo a percepção sobre a própria vida e jornada e as emoções vivenciadas em cada etapa. Desse modo, a série “Stranger Things” , televisionada pelo streaming Netflix, retrata justamente como a música pode ser uma ferramenta poderosa para se conectar com o inconsciente e trazer de volta a sua verdadeira essência e identidade, no caso da série (de forma simbólica) à realidade.

Fones

Cena da série: Stranger Things / Netflix
Foto: Divulgação

O Encontro com o “Novo”: Quando a Bolha é Furada

O encontro com o “novo” no espaço público representa o momento em que a arte viva desafia a rotina e consegue atravessar o escudo biológico que os fones de ouvido proporcionam. Para os artistas que ocupam as ruas e metrôs, a sensação é a de enfrentar uma multidão em movimento, onde muitos parecem fechados e cercados por seus problemas e obrigações.

Bianca Miguel, cantora de rua, descreve que, embora as interações sejam rápidas, o que realmente possui o poder de “furar a bolha” é a introdução de algo inesperado; o som de uma caixa de som pode atravessar o isolamento dos fones, despertando um interesse genuíno que leva o indivíduo a interromper sua realidade interna.

John, que canta e toca violino no metrô, acredita que a arte não é apenas entretenimento, mas um trabalho que carrega uma história e busca levar harmonia a vida das pessoas.

“Nos trens e metros existem realidades que não são ditas mas nós artistas independentes que tocam ali e maquinistas sabem que  infelizmente todos meses uma ou mais pessoas tentam suicidio, episódios de suicídio são frequentes.”

A música ao vivo atua como um convite para desarmar-se, o qual permite que a solidão urbana seja combatida, mesmo que por poucos minutos, transformando a “lata de sardinha” do transporte público em uma experiência compartilhada por estranhos.

Bianca relata que, ao pararem para ouvir, as pessoas conseguem “respirar um pouco” e voltar a observar a paisagem e os detalhes da vida que a pressa costuma esconder. Especialmente nos finais de semana, quando o ritmo da cidade desacelera, as pessoas mostram-se mais abertas a ouvirem a voz do artista.

Editado por Enzo Cipriano

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