Da infância à vida adulta, padrões culturais reforçam a ideia de que ser homem está ligado ao domínio, à força e à violência
A construção da masculinidade desde a infância
A ideia do que é preciso para “ser homem” é construída desde a infância e reforçada por padrões sociais e culturais que se repetem quase automaticamente, muitas vezes sem consciência de seus impactos. Naturalizados no cotidiano, esses discursos ajudam a sustentar comportamentos marcados pela violência e pela repressão emocional.
Desde cedo, os meninos são expostos a referências que desvalorizam a expressão das emoções e associam virilidade, dureza e agressividade a ideais de masculinidade. Essas mensagens, presentes em diferentes espaços de convívio social, influenciam diretamente a forma como esses indivíduos aprendem a lidar com sentimentos e relações.
De acordo com o psicólogo e mentor Lucas Deotti, “o menino é estimulado desde cedo à negação da vulnerabilidade. Ele aprende que não pode chorar, não pode ser sensível. É uma educação pelo corte, não pelo acolhimento.”
Esse modelo de masculinidade não se limita apenas ao meio familiar, mas também a diversas esferas sociais, reforçando cada vez mais esses ideais na formação do indivíduo. A partir disso, os padrões se tornam externalizados e interferem diretamente na forma de agir desse homem.
Segundo Lucas Deotti, essa construção influencia diretamente a maneira como muitos homens lidam com conflitos.
“A cultura ensina que a raiva é a única emoção legítima para o homem. O indivíduo absorve isso e transforma em comportamento.”
A violência como mecanismo de afirmação
Nesse contexto, a violência e a agressividade podem surgir como respostas à indignação ou ao descontentamento. “Ela pode funcionar como um mecanismo de defesa. É o medo fantasiado de coragem, uma tentativa de recuperar um controle que o homem sente que está perdendo”, afirma o psicólogo.
Hoje, é comum ver, nas redes sociais, influenciadores utilizando esses discursos para fomentar ainda mais a violência. O livre acesso e a banalização desses conteúdos contribuem para o surgimento de comunidades violentas, principalmente quando a violência está relacionada às mulheres.
Um exemplo disso é a chamada “cultura incel”, termo derivado da expressão em inglês involuntary celibates, ou “celibatários involuntários”. São comunidades em que homens sexualmente frustrados culpabilizam as mulheres por essa frustração e disseminam, por meio de manifestos, discursos de ódio e violência contra elas.
A partir disso, surgem ideais de supremacia masculina em relação às mulheres. Segundo Antônia Jane Araújo Santos, delegada de uma unidade da DEAM (Delegacia de Atendimento à Mulher), a violência é frequentemente associada à necessidade de poder e dominação.
“Em muitos casos, a parceira é tratada como alguém sobre quem o agressor acredita ter direitos.”
A naturalização da violência contra a mulher
Para além disso, a delegada destaca a recorrente tentativa de isenção de responsabilidade por parte dos agressores.
“Frases como ‘ela me provocou’ ou ‘eu perdi o controle’ aparecem com frequência, deslocando a responsabilidade e relativizando a violência.”
A profissional de segurança também aponta os conteúdos midiáticos como possíveis impulsionadores desse comportamento. “Alguns conteúdos digitais e comunidades online acabam reforçando discursos misóginos e normalizando o controle nas relações”, explica.
Os impactos emocionais nos próprios homens
Esse modelo de masculinidade não é prejudicial apenas para as vítimas, mas também para os próprios homens, principalmente no âmbito emocional. A repressão constante dos sentimentos pode acarretar consequências sérias.
Segundo dados do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, a taxa de suicídio entre homens é 113% maior do que entre mulheres.
“Existe um deserto emocional enorme. Quando o homem não consegue nomear o que sente, ele acumula tensões que explodem em raiva ou implodem em depressão”, afirma Deotti.
Esse bloqueio emocional impacta também os relacionamentos afetivos. “Muitos homens são bons provedores, mas analfabetos emocionais. Isso gera distanciamento e relações superficiais”, explica o psicólogo.
VEJA MAIS EM ESQUINAS
A vida em assinaturas: por que tudo virou mensalidade?
Do baile ao teatro: MC Hariel leva batidas do funk às salas de concerto
“Eu vivo por eles” – O desafio de ser mãe e filha na atualidade
O rompimento do ciclo
Apesar da força desses padrões, o rompimento desse ciclo é necessário, e a mudança começa pelo autoconhecimento.
“A mudança começa quando o agressor reconhece a violência e assume responsabilidade pelos próprios atos”, destaca a delegada.
Para Lucas Deotti, porém, a transformação deve começar ainda na forma como os meninos são educados. “O futuro do homem começa na permissão de ser humano. Ensinar que ele pode sentir, expressar emoções e ser vulnerável é fundamental.”
Romper com esses modelos não significa perder a masculinidade, mas reconstruir esse conceito de forma mais saudável e emocionalmente segura. Mais do que um ato humanitário, essa mudança também é um exercício de amor próprio.