A vida fora do filtro: a pressão da mãe perfeita nas redes sociais - Revista Esquinas

A vida fora do filtro: a pressão da mãe perfeita nas redes sociais

Por Ana Costa, Maria Júlia Bidutte e João Pedro Brilha : junho 12, 2026

Exposição nas redes sociais amplia cobranças e distancia a maternidade da realidade cotidiana. Foto: shelleywiart/Pixabay

Conteúdos sobre maternidade nas redes sociais reforçam padrões idealizados e ampliam a pressão sobre as mães

Com a popularização das redes sociais como ambiente de compartilhamento de experiências, surgiu a categoria das “mommy influencers” (influenciadoras maternas), criadoras de conteúdo que compartilham rotinas, desafios, dicas e produtos voltados para a maternidade e a vida familiar.

A maternidade e a gestação são momentos amplamente reconhecidos como fases de alta carga emocional e física para as mães. Essa vulnerabilidade, em contato com o excesso de informações disponibilizadas na internet, pode desencadear tanto uma cobrança exagerada quanto uma identificação acolhedora com as experiências controversas do processo.

Os espaços construídos nas redes sociais tendem à idealização e à criação de vitrines virtuais que revelam apenas os melhores aspectos da experiência maternal. O processo de individualização e privatização das questões maternas envolve também a influência social da política neoliberal adotada em nossa sociedade recente, transformando experiências até então compartilhadas pela comunidade local em algo solitário e exaustivo.

Apesar disso, parte do conteúdo compartilhado busca inverter essa tendência, publicando dicas, desabafos e situações inusitadas decorrentes do papel de mãe. Esse nicho acaba promovendo um espaço de troca e identificação mútua, possibilitando a reflexão sobre as contradições, dificuldades e fardos da experiência materna.

O ponto de vista das criadoras de conteúdo

Do ponto de vista das influenciadoras, Izabella Nani, em entrevista, contou como criar conteúdo sobre a maternidade, desde a gestação, a ajudou a exercer a própria maternidade. “Eu fiquei abismada com o quanto havia histórias extremamente semelhantes à minha”, disse ela sobre os comentários que recebeu após contar um pouco da sua história no TikTok. “Foi algo bom no meu processo, porque me ajudou a olhar a gestação com mais leveza.”

Nani acredita que, ao abrir a sua história na internet, abre espaço para que outras mães contem as suas também e que, como estudante de psicologia, adora ouvir outras histórias. Nesse contexto, a influenciadora cria um ecossistema positivo para outras mães, pois elas se sentem confortáveis em expor suas histórias, gerando uma rede de apoio.

Ela também acrescentou que hoje posta o que considera necessário, de acordo com o momento que está vivendo. “E assim eu vou me respeitando.”

A criadora de conteúdo disse que ainda tem uma comunidade pequena, mas sente que seu conteúdo chega às pessoas certas. Porém, esse não é o caso da massa de usuárias que, muitas vezes, se deparam com conteúdos que não acrescentam à sua maternidade, apenas gerando um conflito interno na mãe, que passa a se questionar.

Às mães que pensam em criar conteúdo sobre maternidade, Nani aconselhou que saibam filtrar os comentários negativos, apesar de esse não ter sido o caso dela. “Eu diria: criem, porque acaba se tornando uma motivação para a gente em alguns pontos, se você tiver cabeça, claro”, disse, ainda, sobre as portas que se abrem ao criar conteúdo para a internet. Mas, ainda assim, esse nicho pode gerar gatilhos de comparação.

“Com certeza a comparação acontece. Às vezes me pego questionando se o que faço está certo ou como posso fazer melhor”, comentou Camila Lacorte, de 36 anos e mãe de três filhos.

O relato de Lacorte é uma prova dos impactos gerados pelas mães que influenciam nas mídias digitais. Ao mostrar a maternidade de forma idealizada, essas influenciadoras acabam levando outras mães a tentarem se encaixar em um padrão de cuidado, apresentação e estilo de vida.

A pressão imposta para que se alcance a perfeição materna afeta as mães ao exigir delas um comportamento ideal. “Como ela tem essa calma toda e eu não?”, destacou Lacorte como um dos pensamentos gerados ao acompanhar as mães da internet. As blogueiras padronizam como deve ser a vida das mães, mas nem toda mãe vive a mesma realidade. “Alguns conteúdos ajudam, mas cada pessoa tem uma rotina, uma maneira de se adaptar”, completou Lacorte.

O padrão imposto se torna um objetivo inalcançável, tendo em vista que cada família vive a própria realidade.

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E o que os psicólogos pensam disso?

Um estudo de psicologia realizado pela Universidade Estadual de Londrina mostrou que, para além da comparação no modo de ser mãe, um dos maiores desafios enfrentados no consumo desse conteúdo é lidar com a discrepância entre a vida financeira das blogueiras e a sua própria. Não se levam em conta as diferentes realidades ao exigir a mesma conduta de todas as mães.

Em entrevista, a psicóloga Fernanda Alves, que em dez anos de consultório já atendeu várias mães, explicou como a internet romantiza a maternidade e, assim, gera esse sentimento de insuficiência sentido por muitas mulheres. “Eu recebo muitas mães se queixando da sua maternidade desde a gestação, muitas vezes por ouvirem ou verem na internet que a gestação de determinada mãe é ou foi perfeita.”

A psicóloga disse que as mães muitas vezes veem na internet uma experiência de maternar que não corresponde à realidade delas, o que gera frustração. Desde uma gestação sem intercorrências até uma rede de apoio que, na grande maioria das vezes, essas mães não possuem.

“Muitas mães que eu atendo não têm uma rede de apoio ou condição financeira ideal para criar seus filhos… isso também gera um sentimento de incapacidade nelas.”

Nesse sentido, essas blogueiras com ótimas condições financeiras, capazes de pagar babás para seus filhos, também inquietam muitas mães que não têm com quem deixá-los.

Em um breve relato, Janna, mãe que aos 49 anos está se formando em enfermagem, disse que, como passou boa parte da vida em casa cuidando dos filhos, se sente culpada por não estar com eles em todos os momentos.

“Agora, com o estágio e a faculdade, eu não consigo mais ficar com eles o tempo todo como era antes… às vezes me sinto até menos mãe.”

É nesse contexto que a rede de apoio se mostra importante. Janna precisa sair para trabalhar e estudar e não consegue mais acompanhar a vida dos filhos tão assiduamente quanto antes. E, quando a realidade dessa mãe se encontra com a de outra que tem condições de ficar em casa com os filhos, cria-se uma atmosfera de “deficiência maternal”.

Quando questionada sobre como conduz as consultas dessas mães, Alves disse: “Eu procuro sempre desconstruir essa ideia romantizada de maternidade, encontrando a raiz dessa idealização em cada mãe.” Ela analisa as influências que essa mulher teve ao longo da vida e busca, então, mudar a forma como ela enxerga a maternidade.

Cada maternar é de um jeito e é preciso, portanto, tomar cuidado para não se deixar contaminar pelo sentimento de culpa e insatisfação com a própria experiência, entendendo que existem muitos contextos maternos diferentes e que isso influencia, sim, a experiência da mãe no processo de criação dos filhos. “É um processo de ressignificar sempre.”

Editado por Enzo Cipriano

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