A nova geração se interessa por política ou apenas consome conteúdo? - Revista Esquinas

A nova geração se interessa por política ou apenas consome conteúdo?

Por Beatriz Egreja, Sophia Bellesso, Raffaela Menta e Julia Moura : junho 2, 2026

A geração Z vem apresentando e demonstrando cada vez mais seu interesse pela política de seu país, devido à sua atuação em coletivos e movimentos estudantis em redes sociais. Foto: Werner Pfennig/Pexels

Da participação eleitoral ao consumo de conteúdo nas redes sociais, especialistas analisam como os jovens se relacionam com a política

As redes sociais nasceram como espaços de entretenimento, mas, ao longo dos anos, elas foram se transformando em algo maior: um palco para debates políticos. Hoje, não se pensa em política sem lembrar do impacto que redes como TikTok, Instagram e X têm na forma como os jovens se informam e se posicionam.

Em uma realidade na qual as mídias digitais são o meio de transmissão mais utilizado, a nova geração mergulha em conteúdos políticos desses meios para se informar. Apesar do engajamento estimulado pelas redes, surgem impactos preocupantes, como a superficialidade e a aversão a opiniões opostas. Isso levanta questionamentos sobre a profundidade do interesse político observado entre os jovens.

A política nas redes

Agora, qualquer pessoa com um celular pode levantar uma causa, questionar autoridades ou mobilizar milhares de seguidores. O que antes era visto como distração virou ferramenta de engajamento e crítica para a nova geração. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2021, 78% dos jovens brasileiros entre 9 e 17 anos utilizam redes sociais diariamente, evidenciando a forte presença dessas plataformas no cotidiano juvenil. Os influenciadores conseguem alcançar esses jovens com mais facilidade, moldando percepções e até incentivando a participação política.

Essa influência mostra como a política deixou de ser tradicional e passou a ser também cultural, circulando em linguagem jovem e dinâmica, capaz de mobilizar milhões em poucos cliques. Jess Peixoto, comentarista política do programa Morning Show, da Jovem Pan, afirma que: “Houve uma modificação desse engajamento considerável atribuída principalmente às redes sociais, à linguagem, à dinâmica e à proximidade da rede.”

O mundo digital é muito presente na busca por conhecimento. Segundo pesquisa do DataSenado realizada neste ano, 54% dos brasileiros utilizam a internet como principal meio de informação. Entre os jovens, os números são maiores ainda, principalmente por conta do uso constante das plataformas midiáticas. Com isso, a política passou a fazer parte do cotidiano da geração Z por meio de vídeos curtos, debates online e conteúdos virais. Isso facilitou o acesso para que pautas políticas alcancem milhões de pessoas em poucos minutos nas redes sociais.

A rapidez das informações também gera consequências preocupantes. O excesso de conteúdos favorece opiniões superficiais sobre temas complexos da atualidade, como o debate entre direita e esquerda, que está tão presente no Brasil. Muitas publicações priorizam o engajamento e o impacto imediato nas plataformas digitais em vez de uma informação correta e aprofundada. Dessa maneira, a política passa também a ser consumida como entretenimento online. Nesse cenário, cresce o questionamento sobre até que ponto o interesse político dos jovens é realmente aprofundado.

A geração mais engajada

A geração Z vem apresentando e demonstrando cada vez mais seu interesse pela política de seu país devido à sua atuação em coletivos e movimentos estudantis nas redes sociais. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, houve um aumento da participação eleitoral de adolescentes e jovens adultos, que se enxergam como agentes da mudança do país. Pesquisas apontam que, em 2024, por exemplo, o número de eleitores de 16 e 17 anos cresceu 78% em relação ao pleito municipal de 2020, evidenciando um interesse real em participar das decisões políticas do país.

Diferentemente das gerações anteriores, esta se engaja por acreditar que tem protagonismo nas eleições, demonstrando atenção às transformações na política. Entretanto, esse engajamento deixa de acontecer principalmente pelos meios tradicionais. As redes sociais tornam-se o foco para propagar seus ideais e evidenciar sua força política. Para os jovens, essas mudanças afetam questões do cotidiano, e isso é percebido na opinião de Jess ao ser questionada sobre o que explica esse interesse pela política por parte dos jovens.

“Uma outra questão que eu acho que interage com a juventude é o fato de que parece que finalmente essas pautas estão interagindo com outros setores da vida.”

Os valores que orientam essa geração, como diversidade e justiça social, têm influenciado diretamente seu comportamento político. O público jovem busca participação efetiva, seja nas urnas, em coletivos sociais ou em debates digitais. Essa postura reforça a ideia de que não se trata apenas de consumo de conteúdo político, mas de um engajamento crescente, buscando expressar suas opiniões políticas, como relata Livia Ribeiro sobre esse aumento de interesse pela política:

“Acho que as redes sociais são um ponto de partida, mas tento não depender só delas. Quando um assunto me interessa mais, procuro pesquisar em outras fontes, ler notícias e entender melhor o contexto para não ficar apenas em opiniões alheias da internet.”

O efeito das redes na formação política

Em ano de eleição, é normal que haja um maior engajamento da juventude, o que é explicado pela polarização ideológica. O cientista político Aldo Fornazieri explica que o consumo superficial de política pelas redes sociais pode influenciar o posicionamento dos jovens, tanto positivamente quanto negativamente.

Os chamados “jovens conservadores” seguem os discursos egocêntricos adotados pela extrema direita, que, por sua vez, se mostra eficaz ao mobilizar afeto e emocionalidade. A preferência desse público por candidatos com posturas autoritárias comprova que a esquerda não consegue demonstrar as soluções coletivas necessárias para grandes problemas sociais.

“A democracia não consegue atender às expectativas sociais da juventude. Por um outro lado, a perspectiva de saídas individualistas foi favorecida também pela revolução digital”, disse o especialista.

Inicialmente, pensava-se que as redes seriam libertadoras, no sentido de ampliar a acessibilidade aos debates ideológicos. No geral, a tecnologia passou a atuar tanto como ferramenta de informação quanto de amplificação de conflitos e crises sociais, e agora a responsabilidade fundamental é a da juventude em dar significado à existência nessas condições adversas.

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Interesse real x consumo superficial

Em meio a tantos efeitos causados pela imersão dos jovens e das mídias no mundo político, o interesse e a superficialidade se misturam cada vez mais. Jess Peixoto, novamente, explica o assunto:

“Que bom que a nossa juventude está se interessando por política. Se eu acho que esse interesse é aprofundado, majoritariamente não. Ele é raso.”

Apesar da grande quantidade de informação que as redes proporcionam, o excesso leva ao supérfluo, e os eleitores jovens se limitam enquanto acreditam que entendem de tudo. De acordo com a Cross River Therapy, o tempo médio de atenção do ser humano é de apenas 8,25 segundos, um número que reflete na produção de conteúdo e dificulta a absorção necessária para compreender a política. Junto a isso, Jess explica como os mecanismos da própria internet restringem o conhecimento por meio da triagem do algoritmo. Com uma seleção específica, ele entende o que você quer consumir e envia apenas conteúdos do mesmo estilo.

Mas o consumo raso não se resume a isso. Ele envolve bolhas construídas pelos próprios consumidores, que estão acostumados a consumir aquilo de que gostam e a rejeitar qualquer visão contrária à sua. Ela ainda complementa que o ponto da mudança não é a bolha, e sim a forma como as pessoas consomem informação. A acomodação engana, e as informações políticas rasas propagadas pela internet atrapalham o interesse concreto da nova geração.

Editado por Enzo Cipriano

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