O teatro como ferramenta: Como a construção narrativa molda o romance contemporâneo

O teatro como ferramenta: Como a construção narrativa molda o romance contemporâneo

Por Mariana Lima : junho 15, 2026

Painel principal " A Feira do Livro". Foto: Mariana Lima

Os debates contemporâneos sobre a literatura têm colocado em foco pautas atuais e relevantes, ressaltando como a arte literária mantém sua importância ao abranger todos os públicos e assuntos. Encontros entre autores e rodas de conversa revelam que o fazer literário não se limita apenas à escrita tradicional, assim como os leitores não se resumem a um único olhar crítico.

Como os diferentes estilos de arte se conectam

A experiência da leitura não é composta apenas pela narrativa, mas sim pela forma como ela é estruturada. Diversos elementos, além da história contada, colaboram para moldar e alterar toda a identidade de um livro, independentemente do seu gênero ou autor.

No quinto dia de A Feira do Livro, realizada pela associação Quatro Cinco Um, o “jogo de escrita” dentro do romance contemporâneo foi colocado em pauta. O debate foi composto por dois autores da atualidade: Teresa Arijón, escritora, poeta e tradutora, e Jonas Lomazini, ator e professor que iniciou recentemente sua trajetória na literatura. Mesmo com abordagens e temas centrais bem diferentes, ambos os autores evidenciaram as múltiplas faces da arte dentro de suas respectivas produções.

Entre as muitas semelhanças em suas escritas, eles destacaram a superação da narrativa como uma experiência puramente textual, transformando-a em algo sensorial e corporal. Essa iniciativa tem origem na experiência de ambos no teatro, o que traz a presença e a complementação de diferentes campos da arte.

“Ao decorrer da leitura, você vai entendendo que uma história é contada também pela forma como ela se apresenta nas páginas, e que podemos navegar a partir não só do tom, mas também dos espaçamentos, e de tudo que preenche o corpo do livro”, diz Teresa.

A colaboração do teatro e as especificidades da atuação trazem aprendizados únicos, que desenvolvem habilidades e visões diferenciadas no campo da escrita. Isso mostra como a linguagem é um campo que possibilita a quebra de limites, indo além do alcance narrativo tradicional.

“O teatro foi a abertura na possibilidade de enxergar que para contar uma boa história, é preciso encontrar o tom dela, que caminho está sendo percorrido dentro dessa escrita, e de como tudo vai se dialogar”, afirmou o Jonas, um dos convidados do debate.

A experiência corporal dentro da literatura

No campo da leitura, não é apenas o imaginário que se destrincha ao decorrer da narrativa: o processo vai muito além. Alcança reflexos corporais onde a mente e o físico estão interligados, seja para o leitor ou para o escritor durante a produção da obra.

A escritora presente na mesa de debate possui a experiência de ter trabalhado como modelo vivo de pintura por anos. Tal bagagem desencadeou uma maneira muito particular de desenvolver o corpo do romance, usando a linguagem além de sua função inicial:

“Um recurso muito primitivo da nossa vida, depois do corpo, é a comunicação gestual, que gera essa comunicação entre linguagens, aquilo que transmitimos para o outro”.

Ainda sobre os reflexos que o uso do corpo traz como forma de expressão, a autora aprofunda como sua experiência totalmente sensorial está presente na linguagem utilizada em seu romance, sendo transmitida diretamente em sua escrita.

“O conceito de ‘escrevivência’, onde é a autofusão, parte da experiência, que está no próprio corpo, e vai para a escrita. E o corpo, não é o mesmo do outro, então quando a escrita sai do corpo, ela é diferente, e recepcionada diferente”, responde Teresa, para entrevista a Revista Esquinas.

Ela evidencia como os escritores fazem uso de suas vivências e bagagens para emergir nas histórias, mesmo que fictícias, disponibilizando profundidade e realismo através da linguagem para os receptores da narrativa.

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A importância das escritoras mulheres

Em um evento feito para relembrar e trazer em foco à importância e necessidade da leitura, das narrativas e da exploração da linguagem em todas as formas possíveis, a singularidade da escrita feminina ganhou destaque. Com o aumento da valorização dessa produção e a relevância de promover uma visão única colocada em palavras, debateu-se como esse movimento representa um marco de mudança na história da literatura.

“Houve um tempo em que era necessário o uso de pseudônimo masculino, se não as mulheres não conseguiam escrever. Hoje, as pessoas e editoras confiam neste gesto. As mulheres estão se colocando mais nesta função, permitindo que os outros vejam histórias de formas diferentes”, diz a escritora.

Ter narrativas construídas por figuras femininas não gera impacto apenas nas visões do leitor, mas traz uma experiência rica em retratos de locais e vivências cotidianas, seja pela linguagem ou pela expressão corporal, que carregam uma singularidade e um peso especial.

Teresa, junto de seu livro, consegue verbalizar e demonstrar esses fatores, ressaltando como o avanço literário feminino é sinal de representatividade e exemplo.

“O tempo todo nós, mulheres, somos faladas, escritas, retratadas pelos homens. Mas, com mais escritoras, poetas, com o passar dos séculos, dá cada vez mais liberdade e acolhimento para outras mulheres”.

A complexidade dos leitores

A literatura é composta por sua linguagem e por todos os seus efeitos narrativos, seja no campo linguístico ou alcançando o sensorial, mas também se constrói em conjunto com os leitores e os reflexos gerados neles, aprofundando-se em como o público possui suas particularidades e se molda com o tempo.

“O outro lê a partir das suas próprias histórias, da sua perspectiva. Cada um tem seu trecho favorito e alguns que gostam mais do projeto gráfico. O livro é um acontecimento na vida do leitor, cada um coloca seu gesto dentro da literatura”, afirma o escritor Jonas, presente no debate.

As narrativas sempre vão causar impacto em quem as lê, por se tratarem de um campo de complexidade que ultrapassa o ato mecânico da leitura. O livro sofre influência direta do lado pessoal de cada indivíduo e de como ele se posiciona diante da literatura.

Cada discussão que envolva as diferentes expressões artísticas cumprem o papel de expandir os horizontes da produção contemporânea. A literatura, aprimorada pela pluralidade de vozes femininas e pela bagagem artística de seus criadores, consolida-se, como um conjunto que nasce do corpo do autor, ganha forma no papel e, se completa, de maneira única.

Editado por Mariana Lima

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