O uso da bicicleta cresce na capital, mas os ciclistas ainda enfrentam buracos, preconceito e longos deslocamentos entre periferia e centro
Márcio Evangelista, 47 anos, é morador da região do Grajaú, na Zona Sul de São Paulo, pai de dois filhos e trabalha na área de proteção executiva de uma multinacional. Ciclista há cerca de cinco anos, incorporou a bicicleta à rotina diária e utiliza o veículo como meio de transporte para o trabalho de três a quatro vezes por semana. O que começou como uma alternativa após uma lesão que o afastou das corridas tornou-se parte de seu cotidiano, unindo mobilidade, saúde e qualidade de vida.
“Teve um dia que eu peguei um trânsito para ir trabalhar e demorei quase duas horas para percorrer 21 quilômetros. Eu falei: por que não faço isso de bicicleta, sendo que eu já pedalava? Percebi que podia trocar o carro, economizar tempo, economizar dinheiro e ainda fazer o treino do dia”, relembra Márcio. Hoje, a escolha parece inevitável. “Quando estou de carro parado no trânsito, já penso: ‘Meu Deus, por que eu não vim de bicicleta hoje?’”.
A bicicleta como parte da rotina
O crescimento do uso da bicicleta no Brasil reflete uma mudança importante na forma como as pessoas se deslocam e se relacionam com a cidade. Em São Paulo, as viagens utilitárias feitas de bicicleta aumentaram cerca de 200% entre 1997 e 2007, consolidando o modal como uma alternativa ao trânsito intenso e aos altos custos do transporte motorizado. Segundo a Prefeitura de São Paulo, foram registrados 59,5 mil ciclistas e 220 mil viagens feitas por bicicleta em 2017, ampliando ainda mais o número de usuários entre 2007 e 2017. Mais do que uma escolha sustentável, a bicicleta passou a fazer parte da rotina de trabalhadores, estudantes e moradores que buscam agilidade nos deslocamentos diários, inclusive durante a noite.

Mapa da Infraestrutura Cicloviária implantada na cidade de São Paulo.A metrópole possui 789,9 km de vias com tratamento cicloviário permanente, sendo 755,2 km de Ciclovias/Ciclofaixas e 34,7 km de Ciclorrotas.
Mapa: CET
Além da sustentabilidade, a bicicleta oferece benefícios significativos para a saúde. Segundo a professora de Educação Física Carol Nascimbeni, pedalar estimula o sistema cardiovascular, melhora a circulação sanguínea e fortalece a musculatura, contribuindo para a manutenção da saúde de forma geral. A professora destaca ainda que a atividade favorece a liberação de substâncias associadas à sensação de bem-estar, ajudando a reduzir o estresse e a ansiedade.
“O ciclismo é uma atividade aeróbica que melhora o condicionamento físico, fortalece os músculos e ajuda na saúde cardiovascular. Além disso, também pode contribuir para o bem-estar e para a saúde mental por normalmente ser uma atividade prazerosa.”
Os benefícios aparecem tanto para quem utiliza a bicicleta como meio de transporte quanto para aqueles que a praticam como atividade física. A diferença, segundo Nascimbeni, está na intensidade. Enquanto os passeios de lazer costumam ocorrer em ritmo mais leve e estão associados ao relaxamento e ao bem-estar, os treinos envolvem maior controle de velocidade e esforço, contribuindo para o desenvolvimento da resistência muscular e do condicionamento cardiovascular.
Entretanto, o avanço do ciclismo nas cidades ainda convive com desafios estruturais importantes. Um estudo sobre a malha cicloviária paulistana apontou que apenas 28,95% dos trechos avaliados foram considerados plenamente adequados em termos de geometria e condições de uso. A falta de continuidade entre ciclovias, problemas de manutenção e a disputa por espaço com os automóveis tornam os deslocamentos mais arriscados, especialmente após o anoitecer.
Os dados de segurança reforçam essa preocupação. Pesquisas nacionais mostram que a maioria dos acidentes envolvendo ciclistas ocorre em áreas urbanas e afeta principalmente homens em idade produtiva. Em capitais brasileiras, mais de 90% dos ciclistas atendidos após colisões não utilizavam equipamentos de proteção no momento do acidente. A combinação entre infraestrutura insuficiente, baixa visibilidade e compartilhamento das vias com veículos motorizados ajuda a explicar por que, apesar dos benefícios à saúde e à mobilidade, pedalar pela cidade ainda exige atenção constante de quem escolhe a bicicleta como companheira de rotina.
Mas a experiência de quem pedala em São Paulo está longe de ser a mesma para todos. Segundo dados do Percentual de Pessoas Próximas a Ciclovias (PNB) de 2021, bairros como Pinheiros apresentam índices de cobertura cicloviária superiores aos registrados em regiões periféricas da cidade. Enquanto alguns ciclistas contam com trajetos mais estruturados, outros enfrentam longas distâncias e infraestrutura insuficiente para se deslocar diariamente.
Quando pedalar também é resistência
É do extremo sul da cidade que parte Rosângela, de 40 anos, mãe de três filhos e protagonista de uma rotina que desafia a logística de qualquer cidadão comum. Sua jornada diária é um exercício de resistência: são 30 quilômetros para chegar ao trabalho, no Cambuci, e outros 30 para retornar ao Grajaú durante a noite. O que começou como uma estratégia para fugir dos ônibus superlotados da Avenida Belmira Marin transformou-se em um percurso diário de 60 quilômetros.
Como grande parte dos empregos está concentrada nas áreas centrais da capital paulista e em seus arredores, moradores das periferias enfrentam dificuldades diárias para se deslocar entre casa e trabalho. A desigualdade não é apenas geográfica, mas também socioeconômica e racial. Em São Paulo, pessoas negras têm 23% menos acesso à rede cicloviária do que pessoas brancas. Enquanto os empregos formais se concentram no centro expandido, a infraestrutura para chegar até eles de forma segura ainda é um privilégio de poucos.
Foi analisando os obstáculos do transporte público que Rosângela percebeu que ir ao trabalho de bicicleta seria mais viável do que enfrentar um ônibus lotado.
“Muitas vezes eu ficava no ponto por 20 ou 25 minutos e não conseguia entrar em nenhum ônibus. Muitas vezes eles nem paravam de tão cheios que estavam.”
Foi quando a ideia de pedalar começou a deixar de parecer tão absurda. Ela passou a sair de casa de bicicleta, deixá-la no terminal Grajaú e seguir de trem até o trabalho.
Mas foi justamente no caminho de volta que os obstáculos se tornaram mais evidentes. Durante boa parte do ano, Rosângela percorre os últimos quilômetros do dia no escuro. Os buracos ficam mais difíceis de enxergar, a iluminação é irregular e o fluxo de veículos segue intenso nas principais avenidas da Zona Sul. O trajeto que começou como uma alternativa aos ônibus lotados também se transformou em uma tarefa diária de atenção constante.
Percorrendo o trajeto diariamente, Rosângela passou a enfrentar problemas de infraestrutura.
“A ciclovia é cheia de buracos, raízes… acaba estragando a bicicleta”, relata.
Segundo ela, as condições da via ajudam a explicar por que muitas vezes prefere disputar espaço com os carros. A ciclista afirma ainda que costuma manter velocidades superiores a 20 km/h durante o percurso, o que nem sempre se adapta ao fluxo encontrado nas ciclovias.
Mas os buracos são apenas parte do desafio. Para a moradora do Grajaú, o momento mais delicado do dia começa justamente quando o expediente termina. Se a ida ao trabalho acontece ainda de madrugada, com as ruas relativamente vazias, a volta para casa coincide com o horário de pico. É nesse momento que a cidade parece menos preparada para quem pedala.
“As luzes dos carros acabam atrapalhando a visão.”
Mesmo utilizando faróis e sinalizadores, ela diz que o fluxo intenso de veículos torna mais difícil enxergar obstáculos e antecipar movimentos.
O risco não vem apenas do asfalto irregular, mas da convivência diária com motoristas e motociclistas que nem sempre reconhecem a bicicleta como parte legítima do trânsito. Alguns mandam que ela vá para a calçada. Outros passam tão perto que chegam a causar desequilíbrio.
“Susto a gente leva quase todo dia.”
Em uma ocasião, chegou a bater sem querer no retrovisor de um carro que trafegava próximo demais. Ainda assim, conseguiu recuperar o equilíbrio e evitar a queda.
“Tem dia que eu falo: meu Deus, meu coração está palpitando.”
Ainda assim, o medo não é o sentimento que define a experiência. Quando questionada sobre o que pensa durante os quilômetros percorridos no escuro, a resposta surge sem hesitação: liberdade.
“É cansativo, mas é uma liberdade muito gostosa.”
Para ela, o pedal funciona como uma espécie de transição entre o trabalho e a casa. O estresse acumulado ao longo do dia vai ficando para trás a cada quilômetro percorrido. Ao chegar ao Grajaú, sua jornada está longe de terminar. Depois dos 30 quilômetros de volta, ainda a esperam as tarefas domésticas, o jantar e os cuidados com os filhos. O que para muitos seria um desafio esportivo tornou-se apenas mais um elemento de sua rotina.
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O desafio de pedalar na periferia
Para a cicloativista e vereadora Renata Falzoni, a expansão da malha cicloviária para as periferias precisa considerar a própria geografia dessas regiões, frequentemente marcadas por relevos acidentados e ladeiras íngremes que dificultam o deslocamento diário.
Além do desafio físico do relevo, Falzoni avalia que há uma barreira cultural e de prioridades a ser superada.
“Normalmente, em bairros onde faltam saneamento básico, saúde e segurança, a pauta da mobilidade por bicicletas muitas vezes não é vista como prioritária pela própria população local.”
Para a vereadora, é fundamental um trabalho de conscientização para que os moradores identifiquem a importância da bicicleta como um direito à cidade, um meio de transporte viável e um motor de transformação social, integrando-a às necessidades reais da periferia.
A discussão sobre infraestrutura cicloviária em São Paulo também carrega disputas históricas. Durante a gestão de Fernando Haddad, a meta era ampliar a malha cicloviária, chegando à entrega de até 10 quilômetros por semana. Embora a expansão tenha aumentado significativamente a rede para ciclistas, parte dos projetos passou a ser alvo de críticas relacionadas ao planejamento e à execução das obras.
“Havia uma necessidade real de agir, mas algumas estruturas foram implantadas sem o refinamento técnico que a cidade exigia.”
Para a cicloativista, as falhas de execução não anulam a importância da política pública. O desafio, afirma, é qualificar a infraestrutura já existente e expandi-la para regiões historicamente excluídas do planejamento cicloviário.
A bicicleta ocupa um lugar que muitas vezes é esquecido no debate público. Antes de ser associada à sustentabilidade ou ao lazer, ela já fazia parte da rotina de trabalhadores que dependiam dela para atravessar a cidade. Padeiros, jornaleiros, carteiros e entregadores utilizavam a bicicleta como ferramenta de trabalho e transporte.
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Ciclovia do Rio Pinheiros, uma das mais importantes vias da capital paulista (Post: reprodução/Instagram/@cicloriopinheiros)
Hoje, segundo Renata, essa lógica permanece. Enquanto parte da população enxerga a bicicleta como uma alternativa ambientalmente responsável, milhares de pessoas continuam utilizando as duas rodas por necessidade, seja para trabalhar, estudar ou enfrentar deslocamentos que o transporte público não consegue atender com eficiência.
Ao final da noite, depois dos buracos, das luzes dos carros, dos congestionamentos e dos sustos do trânsito, a bicicleta continua cumprindo um papel que vai muito além da sustentabilidade.
“Ali não vai só uma pessoa em cima da bicicleta. Ali vai um pai de família, vai uma mãe de família, ali vai um ser humano”, resume Márcio Evangelista.