A nova corrida lunar: a exploração espacial da china e o equilíbrio de forças com os EUA

A nova corrida lunar: a exploração espacial da china e o equilíbrio de forças com os EUA

Por Nina Simonetti e Júlia Pádua : julho 15, 2026

(Imagem: Pixabay/Pixels)

Com a missão Shenzhou-23, a China acelera seus planos de chegar à Lua até 2030 e reforça sua estratégia de disputar o protagonismo tecnológico, científico e geopolítico com os Estados Unidos.

Atualmente, na nova corrida espacial global, a China compete com os EUA de igual para igual. No dia 24 de maio de 2026, a Agência Espacial Tripulada da China (CMSA) lançou três astronautas ao espaço por meio da Shenzhou-23, no plano de levá-los à Lua até 2030. Ao alcançar o marco de menor tempo de deslocamento, a missão demonstra o avanço tecnológico chinês e as estratégias adotadas para reduzir o predomínio norte-americano.

Partindo diretamente do Centro de Lançamento de Satélites de Jiuquan, no deserto de Gobi (noroeste da China), a nave levou apenas três horas para chegar à estação espacial chinesa Tiangong, um tempo consideravelmente menor do que o normalmente registrado nas missões estadunidenses. Além dos três astronautas, a acoplagem na estação foi feita sem piloto no controle, por meio do sistema Beidou, o serviço de navegação por satélite desenvolvido pelo próprio país.

A nova aposta chinesa

A Shenzhou-23 representa uma nova fase do programa espacial chinês, que vem aumentando a complexidade e a duração de suas atividades. Entre os principais objetivos estão o desenvolvimento tecnológico da Tiangong e experimentos científicos, incluindo pesquisas sobre a saúde humana e o cultivo de plantas no espaço, passos importantes para que a China estabeleça sua futura base lunar.

Vídeos da missão espacial chinesa (Post: reprodução/Youtube: South China Morning Post)

Quando os EUA pousaram na Lua pela primeira vez, em 1969, os chineses ainda não tinham um programa espacial estruturado. Porém, dessa vez, a equipe chinesa chegou para substituir os astronautas da missão anterior, Shenzhou-21, que completou mais de 200 dias em órbita. Além dos principais objetivos da missão,  a tripulação atual tentará cultivar arroz no espaço, um esforço para levar um dos elementos mais tradicionais da cultura nacional para futuras missões espaciais de longa duração.

Ainda em 2026, o país asiático pretende lançar a sonda Chang’e 7 rumo ao polo sul da Lua para mapear possíveis áreas de instalação de uma futura base lunar. Esse movimento coloca a nação em disputa direta com os norte-americanos, que também planejam levar astronautas de volta à Lua com o programa Artemis. O astro natural voltou ao centro do interesse mundial porque o plano de ambas as potências é utilizá-la como base de testes e ponto de parada para futuras viagens tripuladas a Marte.

Da conquista tecnológica à ambição lunar

Nos últimos anos, a República Popular da China consolidou seu projeto espacial: em 2020, o programa passou por uma fase de maturidade operacional e, por volta de 2022, passou pela etapa demonstrativa.

Entendendo como um ponto de mudança no programa espacial chinês, Diogo Ribeiro Cardoso— professor auxiliar convidado no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP-ULisboa) — destaca, em entrevista exclusiva para a revista Esquinas, que a transição tem um peso histórico:

 “Enxergo o significado geopolítico desta transição como sendo mais relevante do que a própria missão.”

Atualmente, Pequim mantém, de forma simultânea, uma estação espacial permanente, um programa lunar robótico, um projeto lunar de aterragem tripulada em desenvolvimento e uma alta capacidade de resposta rápida a imprevistos. Somado a isso, como um preparatório para futuras missões lunares tripuladas, o programa chinês planeja manter um astronauta por um ano contínuo em órbita, um feito que, até agora, foi alcançado somente pelos EUA e pela Rússia. Para Diogo, preservar essa simultaneidade é o ponto principal do feito chinês:

“A China deixou de ser um ator que persegue marcos para se afirmar e passou a ser um ator que define a sua própria cadência. A Shenzhou-23 é um exemplo desta lógica”, observa o especialista.

O programa chinês alcançou tal posição em que o prestígio simbólico e a capacidade tecnológica passaram de dimensões alternativas à reforços mutuais.

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Fusão civil-militar e a geopolítica do espaço

Ao contrário do que muitos pensam, no sistema aeroespacial chinês, “missão científica” e “missão de segurança nacional” não são classificações opostas; ambas integram um mesmo circuito que leva e eleva o ritmo chinês na disputa espacial. Assim, a Shenzhou-23 se caracteriza como uma missão científica com profundas implicações de segurança nacional.

Como analisado pelo professor, o conceito de “fusão civil-militar” foi impulsionado sob a presidência de Xi Jinping, a partir de 2015,  junto à Lei de Segurança Nacional. Para além da estrutura legislativa, em abril de 2024, a criação da Força Aeroespacial do Exército de Libertação Popular (ELP), formalizou essa integração. Enquanto nos Estados Unidos a NASA, o Department of Defense, a Space Force e o setor comercial delimitam bem os limites entre a fronteira civil e a militar, na China essa linha é mais flexível.

Para além de uma decisão conveniente, a integração foi uma atitude política. Após os Estados Unidos proibirem a participação de astronautas chineses na Estação Espacial Internacional (ISS) e restringirem a cooperação bilateral direta entre a NASA e agências de Pequim, como observado por Cardoso, os chineses acabaram construindo sua própria estrutura institucional:

“A Tiangong não é apenas uma alternativa técnica à ISS – Estação Espacial Internacional, é também uma alternativa institucional ao modo como o Ocidente organiza a relação entre ciência, defesa e exploração espacial.”

Por meio do programa espacial, o Partido Comunista Chinês(PCC) consegue mobilizar legitimação interna, projeção externa e construção identitária, principalmente por se apresentar como um renascimento da nação chinesa após o chamado século de humilhação histórica. “O programa permite que o PCC apresente resultados materiais visíveis, em vez de promessas abstratas”, constata o especialista.

No cenário externo, a disputa por alianças também avança: cerca de 50 instituições globais de investigação aderiram à ILRS chinesa (Estação Internacional de Pesquisa Lunar), enquanto o programa norte-americano Artemis conta com 68 signatários.

A disputa pelo sul da Lua é estratégica porque a água congelada presente na região pode ser convertida em propelente(combustível), o que abre o caminho para missões mais ambiciosas, incluindo Marte. Porém, para o professor entrevistado, o ponto principal que está em jogo agora é o poder de definir as regras que irão governar a exploração lunar:“quem chegar primeiro, quem demonstrar utilização de recursos in situ (no local) primeiro, quem estabelecer presença sustentada primeiro, terá um peso desproporcional na definição das regras de facto.”

“Quem controla os pontos críticos desta infraestrutura controla, também, pontos de pressão sobre a economia e a segurança internacional.” Afirma Diogo.

Dessa forma, a China tem se encaminhado para deixar de ser apenas utilizadora dessa infraestrutura e passar a ser um dos seus principais operadores, o que altera significativamente os termos da interdependência global. Podendo-se entender que é uma reconfiguração progressiva.

China e Estados Unidos: rivalidade, interdependência e poder global

Também em entrevista exclusiva à revista Esquinas, o sociólogo Alexandre Bidal, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pesquisador das relações entre China e Estados Unidos no contexto da chamada “crise da globalização”, dissertou sobre a missão espacial chinesa Shenzhou-23 e o que ela revela sobre o atual estágio da disputa entre as duas potências.

Autor do artigo As relações diplomáticas e comerciais entre a China e os EUA no século XXI e a falácia da Guerra Fria 2.0, Bidal defende que a narrativa amplamente difundida de uma “nova Guerra Fria” entre os dois países simplifica e distorce uma relação que é, na verdade, marcada por décadas de profunda interdependência econômica e tecnológica. Ele explica que a Guerra Fria tinha dois blocos “apartados em praticamente tudo”, inclusive em sistemas produtivos que não conversavam entre si, e que não faziam comércio entre si. Porém, com os anos, China e EUA construíram uma integração mútua, mesmo em meio à crescente rivalidade entre as potências desde o governo Obama.  Por isso o possível cenário de uma Guerra Fria 2.0 é irreal.

Para ele, a corrida espacial não deve ser vista como um campo isolado, mas sim como parte de uma disputa multidimensional por superioridade tecnológica: “Eu não acho que essa questão se decide na corrida espacial, assim como acho que a Guerra Fria não se decidiu na corrida espacial”, pontua.

O nó central entre essas duas superpotências se configura pelo fato de que os Estados Unidos têm o “poder de veto” sobre instituições internacionais como ONU e OMC, mas não possui a capacidade de reconfigurar essas instituições ou de criar novas. Enquanto isso, a China tem tateado novas instituições, como o Banco dos BRICS e tem defendido reforma nas instituições multilaterais sem romper com o multilateralismo do pós-guerra.Trata-se da diferença crucial entre o poder de paralisar e o poder de construir.

Para o sociólogo, para que o mundo compreenda a China, é necessário, antes de tudo, abandonar o conforto das categorias conhecidas: “Talvez buscar categorias mais adaptadas, mais locais para pensar a China, seja mais interessante do que tentar aplicar de forma chapada as categorias com as quais nós estamos acostumados a analisar o mundo”, afirma.

Enquanto um foguete chinês orbita a Terra e um astronauta de Hong Kong flutua na estação Tiangong, o verdadeiro desafio pode não ser tecnológico, mas intelectual.

À medida que a Shenzhou-23 completa mais uma etapa do ambicioso programa espacial chinês, a disputa entre Pequim e Washington deixa evidente que a nova corrida espacial vai muito além da exploração científica. Em jogo estão tecnologia, influência diplomática, segurança e a capacidade de definir as regras da próxima era da presença humana no espaço. Se a Lua volta a ser destino das grandes potências, ela também se transforma em símbolo de uma nova configuração do poder global.

Editado por Mariana Lima

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