Nas arquibancadas, a comunidade LGBTQIA+ segue em busca de um espaço seguro e representativo. Coletivos de torcidas vem surgindo como meio de combate à homofobia nos ambientes esportivos.
O futebol é frequentemente chamado de paixão nacional, mas nem todos os torcedores se sentem igualmente acolhidos nas arquibancadas. Há décadas, pessoas LGBTQIA+ enfrentam preconceito, invisibilidade e episódios de discriminação dentro de um ambiente marcado por padrões tradicionais de masculinidade.
Nos últimos anos, porém, esse cenário começou a mudar. O surgimento de coletivos de torcedores LGBTQIA +, as chamadas “torcidas livres”, tem ampliado o debate sobre diversidade e inclusão no esporte, além de reivindicar o direito de ocupar os estádios sem abrir mão da própria identidade.
Em um país onde o futebol exerce forte influência cultural e social, a presença desses grupos levanta discussões importantes sobre representatividade, pertencimento e combate à LGBTfobia dentro e fora dos campos.
Por dentro dos coletivos
Inicialmente criado como um ambiente de socialização e trocas de experiências, o “Canarinhos LGBT+”, coletivo de torcidas LGBT+ brasileiro, transformou-se em um de ação. Segundo Onã Rudá, fundador e organizador do grupo, o Canarinhos surgiu por um entendimento de que a torcida não era suficiente e a rejeição ainda era forte:
“Não bastava a gente existir, precisávamos de condições para torcer. Foi assim que começamos a propor ações, medidas e protocolos. Fomos, de fato, estudar o ambiente do futebol”
“Ganhei Bola, chuteira, roupa de time e fui até matriculado em escolinha”. Como muitas crianças, Onã sempre teve uma proximidade com o futebol, sempre fez parte de sua vida. “Passei por todas essas fases, até a minha adolescência chegar e a minha sexualidade se aflorar”, foi então, que esse esporte tornou-se um ambiente cada vez mais difícil.
Conforme crescia, o espaço foi se tornando ainda mais hostil. Com as chacotas e, principalmente, a deslegitimação pelo restante da torcida, Onã foi se afastando do meio futebolístico.
O Esporte Clube Bahia foi confirmando e expandindo suas afirmativas. Foi, então, que Onã viu uma oportunidade para oficializar a torcida: “Era como um chamado para nossa galera fazer parte da torcida do clube”. Assim, em novembro de 2019, o Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+ foi criado.
Porém, mesmo com o grupo oficializado, o fundador da organização ainda tinha algumas preocupações. Um de seus grandes medos era de que o grupo acabasse se desfazendo, como ocorreu com tantas outras torcidas históricas. O seu diferencial era a internet: um espaço um pouco mais amplo e concreto, apropriado para trocar experiências, colaborando para a consolidação da Canarinhos.
A dificuldade em ser minoria
Por mais que batalhem muito para propor iniciativas presenciais, a principal barreira do coletivo é financeira. Em 2025, ocorreu o primeiro encontro presencial, contando com a presença de oito torcidas LGBT+. Apesar da conquista, Onã se mostra um pouco desapontado com a adesão, tendo em vista que há aproximadamente 20 dessas torcidas no país. Ou seja, a questão monetária dificulta, na prática, essa integração.
Segundo o entrevistado, hoje, o Canarinhos não tem nenhum apoio financeiro, e já contou com respaldo de uma casa de apostas. A parceira se dava pelo apoio da empresa com a causa, porém, hoje não há nenhum suporte, o que dificulta muito a forma como lidam com as situações que surgem: “Se tivéssemos mais apoio financeiro poderíamos ter acesso a advogados, podendo pressionar ainda mais os clubes e sem contar com a oportunidade de lançar linhas de produtos LGBTQIA+”.
A atuação do coletivo se dá principalmente no campo digital, a partir da mediação por meio de um grupo online com todas as torcidas. Cada uma delas cuida de seu cotidiano, e o Canarinhos é o principal suporte.
“Já tivemos até que fazer terapia em grupo, por conta da violência que estávamos sofrendo”, relata Onã.
Algumas das torcidas acabam sofrendo mais violência do que outras, mas, apesar de cada realidade, o futebol brasileiro é pouco acolhedor de modo geral. Porém, como observado pelo entrevistado, ainda é um cenário melhor do que muitos países da América Latina. Mesmo com muitas questões a serem pontuadas, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é a que mais se preocupa e se ocupa dessa temática.
Lucas Leite, membro da torcida LGBTQIAPN+ do Cruzeiro, relata a sua paixão pelo time: foi apresentado ao clube pelo seu padrinho e tem boas histórias como torcedor. Apesar disso, ele percebe que falta muito para o futebol se tornar um ambiente seguro para todos, sem julgamentos e preconceitos dentro e fora de campo. Essa, inclusive, foi a motivação de Lucas para fazer parte do coletivo “Marias de Minas”, organização que busca promover ações de conscientização e pressionar por políticas públicas relacionadas à população em questão.
O coletivo e torcida LGBTQIAPN+ do Cruzeiro Esporte Clube criam campanhas específicas, bem como constroem parcerias, como a firmada com o Mineirão, estádio de futebol localizado em Belo Horizonte, no Seminário de Combate à LGBTQIAPNfobia. Dessa forma, os participantes do grupo criam meios para que torcedores do Cruzeiro possam se relacionar e construir um ambiente livre e seguro. No entanto, Lucas relata que, apesar do coletivo já notar mudanças nesse cenário preconceituoso no futebol, essas mudanças ainda são pequenas.
O coletivo ainda sofre críticas na internet, além de ter suas campanhas relacionadas à população LGBTQIAPN+, frequentemente canceladas ou sem o devido apoio dos times. Ou seja, ainda há um longo caminho a ser percorrido no enfrentamento da homofobia em um esporte que carrega o ideário da masculinidade tóxica, caminho esse ainda mais dificultado pela falta de um diálogo mais intenso e coparticipativo com os clubes.
Nesse sentido, Lucas acredita que, para tornar o futebol um esporte mais inclusivo e seguro, é necessário criar novas políticas públicas, ampliar parcerias e investir em conscientização. Além disso, a CBF precisa, de fato, punir torcedores que promovem atos de ódio e violência contra minorias e, inclusive, punir os próprios clubes omissos.
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Bruno Kawagoe é ativista em causas LGBTQIA+ desde 2015, fundador de projetos de inclusão, além de criador do time Tamanduás-Bandeira – primeiro coletivo de Rugby LGBT+ no Brasil – e principal organizador da GaymadaSP, jogos de queimada para pessoas da comunidade.
Após deixar o esporte universitário quando graduado, Bruno tinha interesse em seguir praticando Rugby, mas encontrou dificuldades em achar um ambiente em que se sentisse acolhido. A partir do entendimento de que existiam outras pessoas LGBT+ que também gostariam de praticar esse esporte coletivo, mas que sentiam medo de entrar em determinados espaços, surgiu o Tamanduás.
“No nosso mundo ideal o Tamanduás não precisaria existir, porque todos os times, todos os espaços seriam realmente receptivos e seguros para pessoas LGBT+”, menciona Bruno em entrevista concedida para a Revista Esquinas.
A vivência de Bruno, ainda que relacione-se com outro esporte, engloba as mesmas dificuldades de diversos torcedores e coletivos: a negligência e a negação. Ele ressalta que a vontade de realmente ocupar esses espaços é o que faz com que exista visibilidade, ainda que menor do que desejada, tanto para coletivos LGBTQIA+, quanto para times com apenas pessoas da comunidade.
A ação de gerar destaque garante o encorajamento de outras pessoas que estão neste grupo minoritário. O ganho social de sentir-se mais confortável, mais confiante e melhor recebido gera uma adesão e tranquilidade de um público que anteriormente era somente reprimido. A aparição de coletivos de torcidas, como o Canarinhos LGBT+ e a criação de times, como Tamanduás-Bandeira, mostra um ganho de espaço e representatividade.
Diversidade e inclusão
Além da luta unicamente de coletivos e times, o apoio de federações e clubes torna-se extremamente importante no ganho de espaço. Bruno relata que o suporte fornecido por esses segue imaterial:
“Tanto nos últimos 10 anos, como agora, a gente vê um certo tipo de apoio que acaba sendo imaterial. Quer dizer, eles dizem que apoiam as causas mas não destinam verba específica para o fomento desse tipo de iniciativa. Não vemos a aplicação de regras e punições”
O amparo de grandes instituições em lutas de causas com pouca visibilidade, e ainda em grupos que são martirizados em diversos ambientes e períodos, auxiliaria para um ganho de atenção e representatividade. Além da necessidade de um auxílio com verba, para Bruno, uma forma de manter esses ambientes mais seguros seriam medidas punitivas a quem age de maneira homofóbica, e um canal de diálogo claro entre a liderança dessas torcidas como um todo.
O ato de agir efetivamente, sem o envolvimento político mas com o intuito de amparar minorias, é um dos meios de auxiliar torcedoras e atletas LGBT+. Bruno Kawagoe conta também sobre a diferença clara entre pertencer e ser aceito durante essa jornada: “Diversidade é convidar para a festa, e inclusão é chamar para dançar”.
O fato de diversas pessoas homossexuais estarem dentro de um estádio, seja torcendo ou jogando, não significa que elas estão sendo incluídas e respeitadas. a luta vai além de simplesmente ter acesso a esses ambientes, mas sentir que ali cada indivíduo pode ser aceito e que há espaço para liberdade de expressão.