Torcer por time ou por jogador: o que mudou na nova geração? - Revista Esquinas

Torcer por time ou por jogador: o que mudou na nova geração?

Por Julia Barreto e Sophia Cavichioli : julho 8, 2026

A popularização das mídias digitais é o fator que mais aumentou o destaque individual por um atleta em específico. Foto: chiraphat/Pixabay

Redes sociais aproximam torcedores dos atletas e transformam a forma como a nova geração acompanha e se identifica com o futebol

As transformações tecnológicas e a popularização das redes sociais vêm alterando a dinâmica tradicional de torcer exclusivamente por um clube. A relação entre torcedor e time passa por mudanças impulsionadas pelo acesso constante à rotina dos atletas por meio das mídias digitais. Parte da nova geração tem desenvolvido uma conexão mais forte com jogadores específicos do que com as próprias equipes. O fenômeno reflete mudanças no consumo esportivo e na forma como o público se identifica com seus ídolos.

A identificação com os jogadores supera o vínculo com os clubes

Douglas Vinícius Teixeira, atleta do Guarulhos F.C., em entrevista à Revista Esquinas, afirma:

“Acompanho mais a rede social do jogador do que a do próprio time. Às vezes acompanho o jogador e nem acompanho o time dele.”

Vivenciando o cotidiano esportivo como atleta da nova geração e também como torcedor, Douglas conta que acompanha a maioria das partidas pelas redes sociais e costuma assistir na íntegra apenas aos jogos de maior destaque, principalmente de clubes europeus. Segundo ele, entre seus amigos esse comportamento também é comum, já que o interesse costuma estar concentrado nos principais momentos das partidas.

Como jogador, Douglas relata que ele e seus companheiros de equipe se inspiram mais na forma de jogar dos atletas do que na história ou no estilo de determinados clubes. Os dribles, a técnica e as habilidades dentro de campo funcionam como referência para muitos jovens esportistas. Como consequência, cresce o interesse em acompanhar e torcer por esses jogadores, diferentemente do padrão predominante em gerações anteriores, que priorizavam a identificação com os clubes.

Felipe Reis, também atleta do Guarulhos F.C., conta que sua relação com o futebol surgiu por meio da identificação com o Palmeiras, clube do qual é torcedor desde a infância. O sonho de um dia defender a equipe foi um dos fatores que o motivaram a seguir carreira no esporte. Atualmente, além de acompanhar o clube paulista, ele também assiste a partidas de equipes europeias e da UEFA Champions League.

Apesar da forte ligação com o Palmeiras, Felipe afirma que, em diversos momentos, passou a acompanhar determinados clubes por causa da presença de grandes jogadores.

“O Neymar, quando foi para o PSG e para o Barcelona, eu torcia. Eu gostava do Neymar, então torcia por ele e pelo time em que jogava.”

Segundo o atleta, a valorização do desempenho individual também fica evidente em competições como a Copa do Mundo. Nesses períodos, a atenção costuma se concentrar nos principais jogadores convocados, que frequentemente se tornam o centro das conversas entre os torcedores.

Influência das mídias digitais

A popularização das mídias digitais é um dos principais fatores para o aumento do protagonismo individual dos atletas. Embora o futebol seja um esporte coletivo, a expansão das plataformas digitais permite acompanhar diariamente a rotina dos jogadores, fortalecendo a identificação dos torcedores com o atleta, muitas vezes acima do próprio clube.

Vídeos de melhores momentos, edições de lances, fotografias marcantes e conteúdos publicados nas redes sociais contribuem para ampliar a visibilidade dos jogadores. Esse material viraliza com facilidade e faz com que muitos atletas passem a representar a principal imagem de suas equipes.

A produção de conteúdos digitais, como podcasts e programas esportivos, também contribui para esse processo, já que grande parte das discussões gira em torno das atuações individuais, dos principais destaques das partidas e dos jogadores em melhor fase.

Lorenzo de Andrade, âncora do programa esportivo Fala da Bola Cast, acredita que as redes sociais transformaram a forma como as pessoas acompanham o futebol.

“As gerações anteriores não tinham tanta informação quanto a geração nova. Para quem já acompanha os clubes pelas redes sociais ou vê notícias sobre eles, ficou muito mais fácil.”

Ao analisar essa mudança, Lorenzo acrescenta:

“O futebol ficou mais individualizado nos tempos atuais, com certeza, principalmente pela ascensão das redes sociais e pelas marcas que os jogadores representam. A nova geração que acompanha futebol de forma mais superficial sabe, muitas vezes, mais sobre o jogador do que sobre o próprio clube em que ele atua.”

Essa influência das mídias digitais também foi percebida pelo jornalista e escritor esportivo Plácido Berci. Segundo ele, a mudança se intensificou após a Copa do Mundo de 2014, quando os perfis dos atletas nas redes sociais ganharam ainda mais projeção. Paralelamente, os clubes passaram a investir em TVs próprias e canais no YouTube, produzindo conteúdos personalizados.

No Brasil, esse movimento se fortaleceu durante a pandemia, período em que muitos clubes restringiram o acesso da imprensa aos bastidores e passaram a produzir seus próprios conteúdos. Mesmo após o fim das restrições sanitárias, essa estratégia foi mantida.

“Foi um momento histórico que permitiu essa mudança no consumo de informação”, afirma o jornalista.

Segundo Plácido, esse novo cenário também alterou o comportamento do público.

“Os torcedores passaram a consumir conteúdo produzido por quem fala diretamente daquele clube específico. Isso torna o conteúdo muito mais passional e direcionado do que a mídia tradicional, ficando até mais nichado que o próprio jornalismo esportivo.”

O jornalista destaca que esse fenômeno já era observado em países europeus. Durante o período em que morou na Inglaterra, entre 2014 e 2015, percebeu que acompanhar atletas específicos era um hábito bastante consolidado. Segundo ele, jogadores europeus costumam ter mais seguidores que atletas sul-americanos, com exceção de Lionel Messi e Neymar.

Para Plácido, a Europa está alguns anos à frente do Brasil nesse processo de transformação do consumo esportivo.

“Eu sinto que estamos alguns anos atrasados. Na Inglaterra, em 2015, os canais dos clubes já eram muito fortes, já existiam transmissões de jogos pelo YouTube. Esse atraso influencia desde a forma de assistir a uma partida até a maneira como os torcedores acompanham os perfis dos jogadores.”

VEJA MAIS EM ESQUINAS

Calor em campo: o novo desafio do futebol

J.League: da era dos clubes corporativos ao futebol comunitário no Japão

Interlagos: 85 anos de velocidade, cultura e memória em um único circuito

Como fica a relação do jogador com o clube?

Em um cenário em que a imagem do jogador possui enorme impacto midiático, os clubes também passaram a utilizar essa popularidade como estratégia de fortalecimento de marca. Embora essa lógica não seja inédita, o marketing esportivo passou por profundas transformações com a expansão das plataformas digitais, onde a principal disputa acontece pela atenção do público.

Segundo Plácido Berci, muitos clubes já perceberam que podem ampliar sua própria visibilidade utilizando a popularidade de determinados atletas.

“Atualmente isso acontece no Corinthians com o Memphis Depay. Ele tem um número de seguidores muito acima da média dos jogadores brasileiros e, por meio dele, pessoas até de outros países passam a conhecer o clube. É possível utilizar a imagem do jogador para fortalecer a própria marca.”

O jornalista cita ainda o caso de Pelé. Para ele, o ex-jogador sempre teve uma marca pessoal maior do que a do Santos, mas o clube poderia ter aproveitado melhor essa associação.

“O Pelé sempre foi maior que o Santos. Acho que o clube não potencializou da melhor forma a imagem dele para fortalecer sua própria marca. A marca individual do atleta sempre existiu.”

Embora a construção da marca pessoal não seja um fenômeno recente, as mídias digitais ampliaram significativamente esse processo. Hoje, o esporte também funciona como ferramenta estratégica para gerar visibilidade, construir narrativas e fortalecer a imagem dos atletas, especialmente diante de um público cada vez mais jovem e conectado.

No futebol profissional, torna-se cada vez mais difícil que um jogador interessado em ampliar ganhos financeiros e projeção internacional ignore o marketing pessoal. Para Plácido Berci, estar presente no ambiente digital fortalece a carreira e permite construir uma imagem sólida. Com um bom trabalho de comunicação e storytelling, o atleta consegue preservar sua reputação mesmo em momentos de queda de desempenho, além de ampliar as oportunidades comerciais e conquistar contratos mais vantajosos.

Editado por Enzo Cipriano

Encontrou algum erro? Avise-nos.