Como podemos nos preparar para os desastres ambientais iminentes?

Como podemos nos preparar para os desastres ambientais iminentes?

Por Ana Karla dos Santos, Elisa Nuñez, Maitê Olyntho, Valentina Neumann : setembro 18, 2026

Imagem:Pexels

Do plano de emergência doméstico aos canais oficiais de alerta, entenda de forma aprofundada a seriedade por trás dos desastres ambientais.

Enchentes que cobrem casas, ventos que levam telhados e temperaturas elevadas durante o inverno são mudanças que deixaram de ser novidades há anos, e viraram o “novo normal”, segundo o climatologista Dr. Kevin Trenberth, pesquisador do National Center for Atmospheric Research (NCAR). Ou seja, desastres ambientais tendem a se tornar cada vez mais frequentes e mais intensos nos próximos anos, e a pergunta não é mais se vão acontecer, mas quando.

Diante da confirmação do fenômeno El Niño, evento considerado o mais influente na Terra, para os anos de 2026/2, o país se encontra em uma situação de vulnerabilidade ambiental grave, em que todas as regiões serão afetadas: algumas por secas, outras por chuvas intensas. Segundo boletins do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o fenômeno já está em curso e deve chegar à sua intensidade máxima ao longo da primavera e do verão.

No cenário atual, a preparação deixou de ser uma opção e passou a ser uma necessidade. Conhecer os riscos da própria cidade e acompanhar os alertas meteorológicos não vão impedir os fenômenos, mas podem evitar uma tragédia. Mas, com isso, vem a questão: “O que fazer para se preparar para esses desastres?”

Maria Assunção Faus da Silva Dias, geofísica, pesquisadora e professora da USP, afirma que, para que desastres ambientais tenham sua força e danos minimizados ou prevenidos, a aliança entre o planejamento do governo e a proatividade da população é a chave para lidar com os desastres iminentes, principalmente agora com o agravamento do El Niño.

A professora explica que é imprescindível o monitoramento das regiões por meio das previsões imediatas/ de curto ou longo prazo: ‘O que acontece quando se tem o El Niño? Chove mais, chove menos. Porém, no dia a dia, tem muita coisa acontecendo. E nós precisamos monitorar, realmente, no prazo mais curto, o que está ocorrendo.’ A especialista diz que a única forma de prevenir ou planejar melhor como lidar com desastres é por meio do monitoramento contínuo:

“É o monitoramento que começa nos dar os alertas com alguns dias de antecedência de coisas que podem acontecer. Então é fundamental você estar monitorando continuamente”, afirma Maria Assunção

Além do acompanhamento individualizado das regiões, é necessário um monitoramento mais interligado e amplo, uma vez que a alteração de qualquer região pode acabar afetando a vizinha, gerando efeito em cadeia. ‘O que acontece aqui no Brasil nos próximos 15 dias é uma função de coisas que já estão acontecendo longe daqui. Por exemplo, naquele caso das enchentes do Rio Grande do Sul em 2024, uma das coisas que estava acontecendo era uma perturbação lá no Oceano Índico, entre África e Indonésia, que vinha perturbando a atmosfera e provocando uma série de frentes frias que foram passando uma atrás da outra. Então, para monitorar isso, é necessário olhar o Pacífico inteiro, para o Oceano Índico, para a África e ver o que está acontecendo lá que pode chegar até o Brasil’, explica.

Apesar da importância da implementação de medidas de urgência para remediar desastres já em curso, é muito mais interessante o acompanhamento das previsões de tempo em áreas de risco, principalmente a longo prazo, uma vez que evita que medidas extremas precisem ser tomadas durante momentos de perdas e desespero.

Em época de grandes crises como as enchentes no Nepal, consequência do derretimento das geleiras do Himalaia na região e mais de 1.350 mortes (muitas em decorrência da ocupação de áreas de risco), discussões sobre a melhoria do preparo global para que desastres como esse sejam evitados começam a tomar cada vez mais força.  Ao abordar desastres naturais recentes como o citado anteriormente, Maria Assunção relembrou outro caso atual que aconteceu aqui no Brasil.

Em fevereiro de 2022, a cidade de Petrópolis (Rio de Janeiro) foi atingida por um grande volume de chuva que acabou deixando 242 vítimas e mais de 4 mil pessoas desabrigadas. A água da chuva ficava acumulada no topo, represando e atingindo as casas da região. Maria Assunção relembra a tragédia por ser um exemplo da importância de analisar o risco de potenciais desastres no local, em prol de evitar mortes e acidentes tão violentos como nesse evento.

A posição de vulnerabilidade que as populações marginalizadas ficam por viverem em regiões de risco acontece na maioria dos casos por falta de outras opções de moradia e a ausência de debate que abranja outras alternativas. A entrevistada, ao comentar sobre isso, diz:

“Se a pessoa tem posses, ela pode escolher, mas e se não tem? Ela não tem para onde ir. Então, é aí que entra o poder público”

A questão de zoneamento está começando a ser discutida com mais frequência, componente inegociável para que planos de proteção populacional sejam traçados. Entretanto, discutir não é o suficiente para uma população que está sofrendo frequentemente com graves tragédias.

“Desastres ocorrem há muito tempo e, em muitos casos, na mesma região. Eu sempre digo isso. No ambiente extremo, já aconteceu isso no território. Você tem que aprender com esses casos passados”, relata a geofísica

O que pode realmente mudar a realidade da população brasileira são ações do poder público, como a criação de projetos e políticas públicas.

Mas, que ações os cidadãos podem realizar por conta própria para evitarem se colocarem em situações de risco? Se atentar às notícias, prestar atenção em alertas de previsão de desastres, como os alertas da Defesa Civil enviados aos celulares de toda a população da região em risco, são os principais itens da lista. Se atentar à avisos, sinais de mudança climática fora da normalidade e o abandono de áreas de risco nos primeiros sinais de deslizamento, por exemplo, são ações fundamentais para que haja uma mínima segurança individual e coletiva atualmente.

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A influência das construções urbanas neste cenário

Os resultados dos desastres climáticos estão diretamente relacionados à forma como as cidades são construídas. O espaço urbano é, por princípio, apropriado pelo homem, que faz uma série de modificações na morfologia natural para poder ocupar e construir. Portanto, a mistura entre o meio ambiente e seu modificador sempre é o cerne das catástrofes ambientais.

Na natureza, não existem desastres, seja em florestas intocadas ou no meio do oceano. Eles sempre possuem relação com consequências do que o homem faz em algum ponto do globo. No espaço urbano, contudo, esses reflexos são mais difíceis de se distinguir.

Segundo o arquiteto Luiz Felipe Schwandner, formado pela USP (Universidade de São Paulo), a tarefa de um arquiteto urbano consiste em prever essas situações. Antes que qualquer projeto seja construído, seja ele residencial ou comercial, a leitura do terreno é essencial. Nisso, inclui-se estudar a topografia do local, a permeabilidade do solo e todos os fatores de insolação e ventilação.

“Se é um terreno inundável, por exemplo, você precisa prever isso para ter uma fundação e uma estrutura adequadas a esse tipo de fenômeno. Se você está perto de um rio, precisa prever que esse rio terá variações. Em algum momento estará mais cheio, em outro, mais seco. Tudo isso é um pouco do que cabe ao arquiteto”, afirma o entrevistado

Na cidade de São Paulo (SP), a maior metrópole da América do Sul, por exemplo, existe um fenômeno interessante. A cidade foi construída sobre muitos rios e, por isso, tem uma topografia muito acentuada. Nos bairros, é possível observar oscilações, subidas e descidas notáveis, e isso se deve ao fluxo dos rios fechados embaixo do concreto. O processo de concretização inibe a permeabilidade do solo, ou seja, a água da chuva não tem para onde ir, não consegue entrar no substrato e percorrer o circuito natural, chegar aos lençóis freáticos e permitir que esse sistema se renove. Assim se explica o grande número de enchentes e deslizamentos, principalmente em construções informais, como as favelas.

A desigualdade social é um buraco profundo que é responsável por grande parte das perdas em desastres naturais. Pessoas menos favorecidas, em sua maioria, estão sujeitas a viver em locais que ocupam informalmente um território e não são apropriados para moradia, como matas ciliares que, inevitavelmente, são inviáveis para ocupação devido ao processo natural.

O Panorama Climático das Favelas e Comunidades Invisibilizadas aponta que 86% das favelas enfrentam eventos climáticos extremos ao menos uma vez no ano. A pesquisa, divulgada recentemente, foi feita pelo Teto Brasil em parceria com o Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq. Futuro do Insper.

O levantamento mapeou 119 favelas espalhadas por todas as regiões do Brasil, em 51 municípios, o que representa cerca de 606.401 famílias em valores absolutos.

Segundo a pesquisa, 60% das pessoas que vivem nestas comunidades consideram estar em perigo no caso de tempestades e chuvas. Dentre os eventos climáticos de maior ocorrência apontados pelo estudo estão:

desastres ambientais

Fonte: Imagem produzida por IA, com os dados fornecidos pela pesquisa

Como o planejamento urbano pode atuar?

Por mais que os desastres naturais sejam, em sua maioria, momentâneos, o planejamento urbano envolve atitudes pensadas e colocadas em prática a longo prazo.

Segundo Luiz, essas medidas são mais complicadas do que parecem, pois envolvem recursos e esforços políticos e governamentais:

“Muitas vezes éramos obrigados a fazer um planejamento no qual os professores chamavam de ‘plano combustível’: propor algo a mais ou possível, entendendo que existe uma questão política envolvida na hora de fazê-lo”, comenta o entrevistado

Apesar disso, a solução mais defendida por especialistas é tornar a cidade mais próxima do que era o seu ambiente natural.

O conceito de soluções baseadas na natureza consiste em métodos de intervenção urbana que buscam recriar processos naturais, seja para reverter danos já feitos ou para planejar novas alterações. Um exemplo é passar a construir ruas com a mesma porcentagem de solo permeável antes existente, um número capaz de absorver a água da chuva e que evitaria enchentes. Existem mudanças que podem ser pensadas desde o início, mesmo em uma cidade grande já estabelecida.

O que acontece, contudo, durante o desenvolvimento desses espaços é o chamado paradigma da eficiência. Em um cenário capitalista e o lucro é visado em detrimento de estruturas pensadas para evitar futuros desastres.

Ainda utilizando São Paulo como exemplo, ao voltar um pouco no tempo, para os anos de 1970, quando estavam sendo construídos muitos edifícios na cidade, as construções aconteciam prevendo o que podia ser aproveitado de um terreno para que nele coubesse o maior número de apartamentos. O que era visto como eficiência, na verdade, revela uma falta de cuidado com a estrutura. Afinal, sem área suficiente para infiltração de água e plantas ao redor, a absorção do calor não ocorre e a temperatura aumenta. No futuro, esse mesmo prédio pode precisar de obras de drenagem caras para remediar problemas, como alagamentos na garagem.

A questão que fica é que não é apenas como sobreviver ao próximo desastre, mas como construir cidades capazes de enfrentá-lo antes que ele aconteça.

O clima já mudou, e as consequências chegaram batendo na porta: desabamentos, transbordamento do Rio Tietê, buscas por desaparecidos e bairros debaixo d’água. Esses são só alguns dos acontecimentos registrados na cidade de São Paulo desde o início das chuvas na sexta-feira, dia 11. É um dos setembros mais chuvosos desde 1943, registrando 75,44 mm de chuva em apenas 24 horas e 198,2 mm em apenas 12 dias. 

Tudo isso foi provocado apenas pela chuva em uma cidade em que não há escoamento. Mas o que acontecerá quando os eventos se tornarem cada vez mais frequentes e intensos, e a cidade continuar mal planejada para todos os moradores?

Editado por Mariana Lima

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