Cultura do Remake: O que está por trás das produções de Hollywood

Cultura do Remake: O que está por trás das produções de Hollywood

Por Ana Flávia Rossi, Beatriz Mansur, Julia Miranda e Maria Fernanda Couto : junho 18, 2026

Sala de cinema. Imagem: Pexels

ENTENDA COMO HOLLYWOOD SUSTENTA SEU MERCADO COM ADAPTAÇÕES, REBOOTS, LIVE-ACTIONS E REMAKES.

Produções originais VS nostalgia: qual exerce maior influência?

As produções nostálgicas estão mais em alta comparadas a filmes que retratam histórias inéditas. É possível perceber essa tendência com as criações mais recentes, focadas principalmente em reboots, continuações ou adaptações, como os anúncios das animações “Frozen 3”, “Os Incríveis 3” e “Viva: A vida é uma Festa 2”.

Essa dinâmica deixou de ser apenas uma tendência e virou a principal aposta de Hollywood. A mudança ocorre, em grande parte, porque a Geração Z chegou à fase adulta e adquiriu o principal poder de consumo e decisão no cinema e na assinatura de streaming. Movidos pelo desejo de reviver momentos do passado, esses jovens buscam  narrativas que já possuem familiaridade e sentem identificação. Eles não precisam ser convencidos a ver títulos como “Toy Story 5” ou “Shrek 5”, pois já conhecem as histórias e os personagens desde a infância.

Para Renato Francisco Marques, graduado em Cinema pela ESPM, a nostalgia se tornou a principal moeda cultural da atualidade por ser “fácil de vender”.

“Ver algo conhecido traz uma sensação reconfortante e segura. Os grandes estúdios utilizam isso para garantir lucro certo. Além disso, após a pandemia, o desafio é tirar o público do conforto de casa para ir ao cinema. A nostalgia é apenas a ponta do iceberg de um costume de consumo mais profundo.”

Os atores, que vivenciam o outro lado das produções, também demonstram opiniões sobre está mudança. A atriz Amanda Seyfried, que participou de obras de sucesso como “Mamma Mia!” e “Garotas Malvadas”, afirmou não concordar completamente com o que Hollywood está fazendo e acredita que os estúdios deveriam priorizar as produções inéditas. A artista declarou em entrevista para a Interview Magazine estar cansada de sequências que visam o lucro descomplicado:

“Eu gostaria de ver conteúdo original. Eu acho assustador e muito corajoso investir nesses projetos hoje em dia. E não é nada inovador fazer sequências. É só por dinheiro e é bem frustrante.” O desabafo evidencia que mesmo as pessoas que trabalham nessa indústria não são adeptas a essa fórmula em massa das produções atuais.

Apesar das críticas, o mercado cinematográfico está dividido entre a nostalgia e as produções originais, mas tudo indica que os remakes e as sequências vão permanecer, por serem uma estratégia poderosa que lida com as emoções e os sentimentos da população. De acordo com um estudo apresentado na Intercom, “a nostalgicidade retrabalha as nossas imagens, afecções e imaginários tecnoculturais, sendo um tempo atravessado por outros tempos”. Isso reafirma que os remakes cruzam diferentes épocas na mesma tela, fazendo o público relembrar o passado com saudosismo. O conceito justifica o comportamento dos grandes estúdios que, quando buscam apelar para a nostalgia, visam um benefício financeiro descomplicado.

Como o público reage ao cenário atual

Se por um lado a indústria insiste em fórmulas conhecidas, por outro, vozes de peso cobram renovação. Durante a CinemaCon deste ano, o renomado diretor Steven Spielberg criticou fortemente a falta de produções originais em Hollywood: “Não há nada mais importante do que oferecer ao público histórias visuais, em qualquer formato, mas precisamos contar mais histórias originais.”

A visão dos espectadores não é diferente. Em entrevista, Renato Marques comenta sobre como o público consome as produções novas e originais: “Sinto que o público está cansado e há uma crescente aposta em histórias originais, como o filme ‘A Hora do Mal’, que foi um sucesso de bilheteria e crítica.”

Recentemente, live-actions e sequências de grandes estúdios como “A Branca de Neve” (Disney) e “M3GAN 2.0” (Universal Pictures), tiveram bilheterias bem abaixo do esperado, arrecadando US$ 205 milhões e US$ 19,7 milhões, respectivamente, fazendo com que ambas as produções fossem consideradas fracassos comerciais, reafirmando como o público está perdendo o interesse e procurando por novidades, em vez de uma reciclagem de filmes antigos que apelam diretamente para a nostalgia.

As produções de heróis seguem a mesma tendência. Como “Thunderbolts”, da Marvel, apesar de receber críticas positivas, não fechou a bilheteria com um bom lucro. “O público não é bobo e está cansado de ver sempre a mesma coisa. O gênero de herói precisa mudar sua estrutura; a ‘jornada do herói’ tradicional já está batida; é preciso reinventar”, afirma o cineasta.

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O novo perfil do espectador

A relação do espectador com os remakes mudou significativamente nos últimos anos. Eles migraram de forma majoritária para o streaming, se antes essas produções eram direcionadas principalmente a quem já conhecia a obra original, hoje elas buscam atrair novas gerações, que entram em contato com essas histórias pela primeira vez. Esse fenômeno está ligado às mudanças nas formas de consumo, moldadas pelos serviços por assinatura e pelas redes sociais, que facilitam o acesso a diferentes conteúdos.

Remakes

Espectadores em uma sessão de cinema. Imagem: Pexels

De acordo com o artigo “The Shift of Audience and Culture in the Age of Remakes”, publicado por Mohamed Azzouz (2024), os remakes funcionam como uma ponte entre passado e presente, possibilitando que obras de outras épocas sejam reinterpretadas para atender às expectativas de novos públicos. O autor destaca que a cultura contemporânea é marcada pela nostalgia, mas também pela necessidade de atualização, o que exige que os remakes equilibrem elementos clássicos e inovações narrativas.

A plateia atual participa de forma mais ativa da recepção das obras. As redes sociais permitem que espectadores comentem, comparem versões e influenciem a repercussão de um lançamento quase instantaneamente. Como aponta o artigo, essa transformação obriga os produtores a considerarem não apenas a memória afetiva dos fãs da obra original, mas também as demandas culturais e sociais das novas gerações.

Assim, os remakes deixaram de ser apenas uma reprodução de histórias conhecidas e passaram a mostrar as mudanças culturais do próprio público, mostrando como as diferentes gerações se relacionam com a memória e o entretenimento.

O futuro das produções cinematográficas

Se, por um lado, Hollywood continua apostando  suas fichas em franquias milionárias e adaptações de sucesso mundialmente conhecidas, por outro, novas transformações começam a moldar o futuro das produções cinematográficas. O avanço da inteligência artificial, o fortalecimento das plataformas de streaming e o surgimento de novos cineastas têm alterado a forma de como os filmes são produzidos, distribuídos e consumidos.

Os lançamentos previstos para os próximos meses mostram um mercado dividido entre: a segurança das fórmulas já conhecidas e a busca por novas narrativas. Títulos como “Vingadores: Doutor Destino”; “Homem-Aranha: Um novo dia” e “Duna: Parte 3″ mostram que as grandes franquias continuam sendo os principais pilares para atrair o público aos cinemas. Ao mesmo tempo, remakes como o live-action de “Moana” seguem aderindo à mesma fórmula com o mesmo objetivo das continuações.

As adaptações literárias também vêm ganhando grande destaque nas telas dos cinemas. Obras de grande sucesso entre os leitores, como Verity, de Colleen Hoover, e Amanhecer na Colheita, novo capítulo do universo de Jogos Vorazes, reforçam uma tendência que vem crescendo nos últimos anos. Ao transformar best-sellers em produções audiovisuais, os estúdios conseguem alcançar tanto os fãs dos livros quanto um novo público.

Ao mesmo tempo, a indústria continua abrindo portas para novos projetos e narrativas originais. Embora recebam menos atenção do que grandes franquias, esses filmes desempenham um papel fundamental na renovação do cinema, apresentando novos personagens, perspectivas e formas de contar histórias, além da divulgação de novos atores e diretores.

O sucesso de obras originais nos últimos meses demonstra que ainda existe demanda por experiências diferentes e criativas, como no caso dos filmes: Obsessão (2026) e Backrooms (2026), que são obras originais e já apresentaram sucesso de bilheteria.

Dessa forma, o futuro do cinema parece ser moldado pela convivência entre diferentes modelos de produção. Enquanto franquias e adaptações oferecem segurança comercial, histórias inéditas continuam sendo essenciais para garantir a inovação e a renovação da indústria cinematográfica.

Editado por Mariana Lima

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