Em meio à censura e à repressão, artistas romperam padrões de comportamento e ampliaram o espaço feminino na música brasileira
“Até os anos 1960, enquanto um ‘homem público’ era um cara da cidadania, uma ‘mulher pública’ era uma prostituta, para a sociedade.” Segundo Carô Murgel, pesquisadora do protagonismo feminino na música popular brasileira, a sociedade impunha às mulheres o ambiente doméstico. Aquelas que ocupavam espaços públicos enfrentavam preconceitos e, muitas vezes, eram associadas à prostituição.
Foi em meio a esse cenário que Rita Lee e Elis Regina subiram aos palcos brasileiros e ajudaram a transformar o espaço ocupado pelas mulheres na música. Rita rompeu barreiras em um cenário do rock predominantemente masculino, enquanto Elis conquistou o público pela força vocal e pela presença de palco, sem esconder seus posicionamentos políticos.
Antes dos palcos, uma vida quase invisível
Durante anos, o casamento foi uma das principais barreiras para a independência feminina. Pelas leis da época, as mulheres casadas dependiam da autorização do marido para exercer determinadas atividades profissionais. Na música, a presença feminina também encontrava limitações. Tocar piano dentro de casa, por exemplo, era socialmente aceito, enquanto construir uma carreira pública como musicista ainda enfrentava resistência.
Em entrevista à Revista Esquinas, Carô relata que, historicamente, era raro que obras de compositoras tivessem suas autorias reconhecidas. Além de recorrerem a pseudônimos masculinos, muitas mulheres perderam registros de suas produções para homens ou maridos. Um dos exemplos citados é Dora Vasconcelos, autora das letras de Floresta do Amazonas e Melodia Sentimental, cujos direitos ficaram vinculados a Villa-Lobos. Casos como esse contribuíram para que mulheres fossem frequentemente vistas apenas como intérpretes, mesmo quando participavam da criação das obras.
Nos anos 1960, porém, a contracultura e a segunda onda do feminismo contribuíram para questionar essa invisibilidade. Se, no início do século XX, as lutas feministas estavam concentradas principalmente na conquista de direitos políticos formais, décadas depois passaram a incluir reivindicações por igualdade na vida cotidiana e profissional.
Essa movimentação colocou no centro do debate temas como autonomia feminina, submissão e assédio no espaço público. Paralelamente, a contracultura questionava normas tradicionais da sociedade ocidental, incluindo estruturas familiares e relações de gênero. Foi nesse ambiente de transformações que artistas como Rita Lee e Elis Regina passaram a reivindicar suas próprias vozes.
Rock, deboche e contracultura
Conhecida como “Rainha do Rock Brasileiro”, Rita Lee (1947–2023) se tornou uma das figuras mais influentes da música brasileira. Nascida e criada em São Paulo, filha de descendentes de imigrantes, Rita teve contato com a música desde a infância, quando estudou piano. Na adolescência, mergulhou de vez nesse universo e começou a compor suas primeiras canções.
Ao lado de amigos, formou o Six Sided Rockers, grupo posteriormente renomeado como Os Seis. Com o passar do tempo, parte dos integrantes deixou a banda. Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias seguiram juntos e deram origem aos Mutantes. Durante seis anos, o trio compôs, gravou e se apresentou, tornando-se um dos principais nomes do Tropicalismo.
O movimento ganhou força entre 1967 e 1968 com artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e os próprios Mutantes. A proposta era promover uma ruptura estética ao misturar rock, guitarras elétricas e referências internacionais com elementos da cultura brasileira, acompanhados de experimentalismo e ironia. Foi nesse contexto que os Mutantes participaram do álbum-manifesto Tropicália ou Panis et Circencis, lançado em 1968.
O fortalecimento do Tropicalismo coincidiu com o endurecimento da ditadura militar. Em dezembro de 1968, o Ato Institucional nº 5 (AI-5) ampliou a repressão política e a censura no país. O deboche, o experimentalismo e a recusa aos padrões tradicionais permitiram aos tropicalistas tensionar, ainda que de maneira indireta, valores presentes naquele período. Isso, no entanto, não impediu que seus artistas fossem monitorados e atingidos pela censura.
Ao mesmo tempo, o movimento dialogava com a contracultura internacional ao questionar instituições tradicionais, como família, casamento e papéis de gênero. Rita Lee incorporou essa estética à própria imagem. Figurinos extravagantes, humor ácido e a recusa em seguir modelos convencionais de feminilidade passaram a fazer parte de sua identidade artística.
De coadjuvante a autora
Foi nesse contexto que, em 1968, os Mutantes se apresentaram no 3º Festival Internacional da Canção. Durante Caminhante Noturno, Rita apareceu usando um vestido de noiva enquanto cantava sobre uma personagem que namorava, mas não pensava em casamento. No ano seguinte, reutilizou a peça em outra apresentação, dessa vez acompanhada de uma barriga de gravidez falsa, ironizando expectativas sociais relacionadas ao casamento e à maternidade.
A trajetória de Rita nos Mutantes chegou ao fim em 1972, quando ela deixou o grupo. Segundo os irmãos Baptista, a banda seguiria em direção ao rock progressivo e a cantora não teria a capacidade técnica como instrumentista necessária para essa nova fase.
No ano seguinte, Rita formou o Tutti Frutti, grupo que marcou uma nova etapa de sua carreira e no qual passou a assumir maior protagonismo como compositora.
Dessa parceria surgiram músicas como Ovelha Negra e Agora Só Falta Você, além do álbum Fruto Proibido. Rita passou a escrever abertamente sobre assuntos dos quais mulheres eram frequentemente desencorajadas a falar. Desejo, liberdade e comportamento feminino apareceram em suas composições sem a necessidade de adequação aos padrões tradicionais de feminilidade.
A voz autoral da cantora se consolidou justamente em torno de temas como liberdade, corpo e comportamento feminino. A mesma autonomia que se tornou uma característica de sua produção artística também colocou Rita sob a vigilância do Estado.
Sob vigilância
Segundo Giseleda Silva Souza e Maria Izilda Santos de Matos, em Rita Lee: Trajetória, Resistência e Censura, parte dos problemas enfrentados pela cantora com a censura estava relacionada não apenas a questões diretamente políticas, mas também aos chamados temas morais presentes em suas composições, como sexualidade, corpo feminino e liberdade sexual.
Em 1976, Rita Lee foi presa, enquanto estava grávida, sob acusação de porte de drogas — episódio cuja versão oficial seria posteriormente contestada pela própria cantora em sua autobiografia. O caso se tornou um dos momentos mais marcantes de sua trajetória durante a ditadura.
A prisão também aproximou duas das principais vozes femininas da música brasileira daquele período. Elis Regina acompanhou o caso, visitou Rita durante o cárcere e se mobilizou diante das condições enfrentadas pela cantora, então grávida. Para além dos palcos, as duas construíram uma relação marcada também pela solidariedade.
A ousadia dentro e fora dos palcos
Nascida em Porto Alegre, Elis Regina (1945–1982) se tornou um dos principais nomes da música popular brasileira. Sua voz chamou atenção ainda no início da carreira, mas foi em 1965, após vencer o 1º Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior, que a cantora alcançou projeção nacional e se mudou para o Rio de Janeiro.
Em entrevista à Revista Esquinas, Rafaela Lunardi, autora de Em busca do ‘Falso Brilhante’: performance e projeto autoral na trajetória de Elis Regina, destaca que, além da capacidade vocal, a forma como Elis construía sua autenticidade nos palcos ajuda a explicar o impacto de suas apresentações.
“Por mais que ela tenha sido uma intérprete e não compositora, ela se colocava muito nas canções. Suas interpretações são muito performáticas.”
Por meio do corpo, dos gestos e das expressões, Elis transformava a interpretação em uma das principais marcas de sua carreira.
Em 1979, a cantora gravou O Bêbado e a Equilibrista, composição de João Bosco e Aldir Blanc que se tornou associada à luta pela anistia política e à redemocratização do Brasil. A canção dialogava com o sofrimento de famílias atingidas pela repressão e fazia referências relacionadas ao exílio e às vítimas da ditadura. Em meio ao período de abertura política, a obra se transformou em um dos símbolos daquele momento histórico.
Fora dos palcos, Elis também se posicionava politicamente. Durante uma turnê pela Europa, afirmou em entrevista que o Brasil “era governado por gorilas”, acrescentando que não pretendia ofender os animais. A declaração teve repercussão em um período no qual artistas eram monitorados, censurados e, em alguns casos, forçados ao exílio.
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“Falso Brilhante”: um marco na carreira
Um dos trabalhos mais importantes da trajetória de Elis Regina foi Falso Brilhante, projeto que marcou uma nova fase de sua carreira.
Segundo Rafaela Lunardi, o espetáculo nasceu em um contexto de reconstrução da imagem pública da cantora depois de sua participação, sob pressão, em um evento organizado pelos militares. Em 1972, Elis cantou na abertura da III Olimpíada do Exército, episódio que provocou críticas e incompreensão por parte do público.
Foi nesse cenário que, em dezembro de 1975, estreou Falso Brilhante. O espetáculo apresentava elementos da trajetória pessoal e profissional de Elis por meio de referências circenses e de uma estrutura pouco convencional para os shows daquele período. A montagem permaneceu cerca de dois anos em cartaz no Teatro Bandeirantes e chegou a aproximadamente 257 apresentações.
“Extremamente ensaiado, foi um show de muitos atos, quase uma peça de teatro!”, afirma Rafaela.
A repercussão do espetáculo levou Elis a transformá-lo também em disco. Gravado durante as folgas das apresentações, o álbum Falso Brilhante chegou ao público em janeiro de 1976 pela gravadora Phonogram. Entre suas dez faixas estão Como Nossos Pais, Velha Roupa Colorida, Fascinação, Gracias a la Vida e O Cavaleiro e os Moinhos.
Décadas depois, o trabalho continuou sendo reconhecido como um dos principais discos da música brasileira.
A coragem que transformou a música brasileira
Rita Lee e Elis Regina construíram trajetórias diferentes, mas encontraram obstáculos semelhantes em uma indústria e em uma sociedade que ainda limitavam os espaços destinados às mulheres.
Rita fez da composição, do comportamento e da estética instrumentos para questionar padrões de feminilidade. Elis transformou a interpretação e a presença de palco em formas de imprimir identidade às músicas que cantava e não deixou de se posicionar diante do contexto político que atravessou sua carreira.
A relação entre as duas também ultrapassou a música. A visita de Elis a Rita durante sua prisão, em 1976, tornou-se um dos exemplos da solidariedade construída entre artistas naquele período. Em meio à censura, à repressão e às limitações impostas às mulheres, ambas ampliaram os espaços que artistas femininas poderiam ocupar na música brasileira.