Pequena Bolívia - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

Pequena Bolívia

Por Beatriz De Paula, Guilherme Guerra, Mariana Branda, Mariana Gonzalez, Naiara Albuquerque e Paula Calçade : março 2, 2018

O grande encontro tradicional da comunidade andina na Praça da Kantuta, na zona norte de São Paulo

Quem chega na estação Armênia do metrô sente logo o cheiro de churrasco da avenida Cruzeiro do Sul. Após alguns passos, os pedestres avistam as primeiras barracas de comida da Feira Boliviana, que acontece todos os domingos na praça Kantuta, na zona norte da capital paulista.

Ali, o espanhol é a língua oficial. Crianças e adultos se amontoam nas barraquinhas que vendem os sucos de K’sas, uma bebida adocicada e laranja, feita com pêssegos e erva doce; e o pollo a la parilla, tradicional cozido de carne de porco, frango, batata e mandioca frita. O prato, servido em um pequeno pote de plástico, sai por 12 reais. Ao fundo, músicas andinas se misturam aos sons das frigideiras.

“Nós trabalhamos a semana toda e domingo podemos nos divertir como na Bolívia”, diz Romário Rodrigues, jovem brasileiro e filho de bolivianos. A comunidade boliviana se tornou a segunda maior população de imigrantes na capital paulista, atrás apenas dos portugueses, segundo dados da Agência Brasil divulgados em 2013. Em busca de condições melhores de vida, essas pessoas se concentraram nas periferias e em trabalhos como confecções de roupas e comércio. A feira virou  ponto de encontro, um descanso da realidade do dia a dia.

Festa busca dar continuidade à cultura andina através das gerações
Mariana Gonzalez

“Essa feira é minha comunidade, minha gente”

“A gente se reunia em quinze pessoas e começamos a armar essas banquinhas”, lembra Rosa apontando para a estrutura da própria tenda. “E como éramos ambulantes, vendíamos essas coisinhas miúdas no domingo à tarde, até de noite, quando o movimento nas praças e maior”, conta. Na época, em 2001, a feira não tinha licença da prefeitura e acontecia de forma clandestina no bairro do Pari, a cinco quilômetros de onde acontece hoje, na Armênia. Depois de seis meses instalados semanalmente, problemas começaram a surgir: “Os vizinhos começaram a se incomodar por causa de sujeira e do amontoado de coisas. Então, com medo da retirada da polícia, a gente teve que ir embora dali. Foi muito triste parar naquele momento”.

Apesar das dificuldades, a persistência de Rosa com os outros bolivianos – e um único brasileiro – fez com que a feira fosse retomada. Com o apoio da Missão Paz, que Rosa chama de “Igreja dos Imigrantes”, no bairro central do Glicério, o grupo teve recursos para correr atrás da autorização de funcionamento. “O padre deu muita força, a gente fez a nossa parte e conseguiu a assinatura da Prefeitura”, lembra. O endereço, entretanto, acabou mudando. Do Pari para a Armênia, os bolivianos encontraram na Praça da Kantuta um novo lar que deu origem à feira homônima. “Essa pracinha era abandonada e ficava vazia, ninguém usava para nada”, descreve. Apesar da simplicidade, o local tinha toda a infraestrutura necessária para se tornar o reduto que é hoje: espaço para montar as barracas e uma quadra de futebol que, atualmente, ora serve para praticar o esporte e ora para acolher recitais de poesias, concursos de danças típicas ou até mesmo um centro de convivência para moradores do bairro. “Essa feira é minha comunidade, minha gente”, reconhece a senhora.

Todos os domingos, Rosa não deixa de estender o whipala, bandeira colorida símbolo da união andina, faça chuva ou faça sol. Nos outros dias da semana, ela trabalha – também como camelô – na região do Bom Retiro e do Brás, ambos os bairros no Centro.

O mais importante é minha filha conhecer o nosso país”

Apesar da feira acontecer há mais de 15 anos, poucos brasileiros a frequentam. É comum, porém, encontrar Imigrantes bolivianos que aproveitam a feira como um modo de relembrar e ensinar para seus filhos nascidos no Brasil a cultura de seu país natal.

É o caso de Vania, que assim como seu marido, nasceu na Bolivia. Segurando a sua filha, ainda um bebê de colo, eles frequentam a Feira da Kantuta faz dois anos. “A comida daqui é igual a da Bolívia, mas o mais importante é minha filha conhecer o nosso país, por isso estamos aqui”, sorri.

Assim como o bebê de Vania, muitas crianças também estão na Kantuta. O público da praça é repleto de famílias e casais, além de grupo de jovens. Lurdes é mais uma nascida na Bolívia, e acompanha seu irmão mais novo nos brinquedos grandes de ar, são poucos pula- -pulas, escorregadores e gira-giras ao lado da quadra. Observando seu irmão que escorrega e corre, diz não sentir falta da Bolívia e não gosta da comida da Kantuta, prefere morar no Brasil, mas traz seu irmão para que ele possa brincar com outras crianças de descendência andina que seu irmão se diverte.

Dois degraus abaixo da praça, ao menos vinte barracas de artesanato e roupas se distribuem lado a lado pela rua lateral à Kantuta. Desde que chegou no Brasil, em 2010, Rosario Torrico vai à feira boliviana vender seu artesanato. Enquanto ajeita os vários tecidos de cores vibrantes no lugar que considera o seu “cantinho”, ela explica que os povos andinos se diferenciam pelas cores. Se uma região tem mais flores azuis, essa tonalidade predomina na vestimenta do seu povo. Se fizer muito sol em um lugar, o alaranjado se destaca nos tecidos produzidos pelos artesãos. Aponta para uma moça que está vestida de amarelo forte. “Viu só? Ela é do Equador!”.

Mais à frente da barraca de Rosário, quatro mulheres dividem um refrigerante enquanto conversam em uma pequena mesa. Uma lona está encostada em uma das cadeiras com o logo “Equipe de Base Warmis – Convergência das Culturas”. A boliviana Jobana Moya, integrante desse núcleo de imigrantes, conta que elas estão na Kantuta para divulgar o projeto, e também para aproveitar as comidas tradicionais. “Hoje somos em trinta voluntários, entre brasileiras e imigrantes, mas é bastante rotativo, sempre entram novas participantes que queiram integrar um projeto que afirma a não discriminação e busca mais direitos para os imigrantes”, explica.

Essas mulheres querem estimular o diálogo entre culturas e lutar contra a violência que a comunidade de imigrantes sofre por meio da promoção dos direitos humanos. “Nós fazemos algumas ações práticas, como a promoção do ‘Programa de Conscientização e Proteção ao Direito do Migrante da Faculdade de Direito da USP’, estávamos todas lá”. A Feira da Kantuta é o espaço para dança, reencontro com a ancestralidade, discussões por mais direitos ou só um lugar para o almoço em família.

Na Praça da Kantuta, coletivo feminista cola cartazes com dizeres feministas
Mariana Gonzalez