Larrain, as vagabundagens e os morros da cidade onde a Graça visita - Revista Esquinas

Larrain, as vagabundagens e os morros da cidade onde a Graça visita

Por Miguel Groisman : agosto 19, 2019

As filhas do pescador, Los Horcones, Chile, 1956. © Sergio Larrain/Magnum Photos

A mostra do fotógrafo chileno se encerra no próximo domingo

Há uns anos, talvez dois, me veio essa imagem nas redes sociais: uma menina com um vestido daqueles que minha mãe usa nas fotos dela de pequena, com um cabelo curtinho e uma postura ereta, ombros e cabeça posicionados de forma muito firme. O sol bate forte na figura, e a garota anda imediatamente ao lado da sombra que a arquitetura causa. Atrás dela, na umbra ante a um retângulo de luz, aparece outra criança, num quase simulacro da primeira, que aparenta ser menor, no entanto. Os componentes da imagem pareciam tão bem posicionados geometricamente que podiam ter sido calculados. O dono da foto, talvez sua mais reconhecida e a primeira que “veio a ele”, o chileno Sergio Larrain, não acreditava nesse tipo de captura e agora ganha exposição no Instituto Moreira Salles (IMS), em São Paulo.

Passagem Bavestrello, Valparaíso, Chile, 1952
© Sergio Larrain/Magnum Photos

Era em um “Estado de Graça” e em uma abertura à “Musa” que Larrain acreditava. Em mais de um sentido, sua grande Musa é a cidade de Valparaíso, que abriga a Passagem Bavestrello, onde descobri ser o local que as duas meninas foram fotografadas. Com suas subidas e descidas, a cidade permitiu que o fotógrafo capturasse ângulos não-canônicos e diagonais audaciosas. A “cidade pendurada nos morros” é o ponto de início da sua trajetória fotográfica e já prefigura elementos presentes na sua obra: as escadarias, o chão, escuros que ocupam dois terços de uma imagem, cortes pronunciados, figuras borradas, o movimento, os marinheiros e as crianças.

Ilha de Chiloé, Chile, 1957
© Sergio Larrain/Magnum Photos/ Divulgação

Uma boa parte dessa trajetória fotográfica – 140 flagrantes – está exposta no IMS. A diretora artística da Fundação Henri Cartier-Bresson, Agnès Sire, foi encarregada do esforço curatorial para trazer uma retrospectiva do fotógrafo chileno para o Brasil. Ela também editou dois dos livros de Larrain, num dos quais as correspondências entre Sire e o fotógrafo já em exílio são mostradas e é revelado seu desejo que nada fosse montado até sua morte. Dito e feito – ou melhor, respeitado.

Sergio Larrain: um retângulo na mão fica na galeria 3 do IMS Paulista até domingo (25). A exposição segue um trajeto bem cronológico do trabalho do artista, porém, de forma que a ordem não engesse a experiência do visitante. Destaque para uma seção adicionada pelos curadores do IMS Miguel Del Castillo e Samuel Titan Jr que recupera 12 reportagens da revista Cruzeiro Internacional com registros fotográficos de Larrain.

Fotos coloridas para “La ciudad colgada en los cerros”, matéria escrita e fotografada por Larrain para a revista Cruzeiro Internacional

A publicação, lançada em 1957, foi uma empreitada de Assis Chateaubriand visando competir na América Latina com a Life Magazine. Foi distribuída em 18 países antes de fechar oito anos depois por não conseguir se sustentar financeiramente e pela falta de anunciantes. Ali foi o primeiro emprego freelance de Larrain como fotógrafo, evidenciados rapidamente pela fotografia de cor na exposição. Uma das matérias acompanha um texto de sua autoria sobre sua Musa, e uma dupla de fotos colocadas lado a lado em uma montagem inteligentíssima: à esquerda, uma descida com pedras irregulares e prédios antigos; à direita, uma subida lisa e com arquiteturas modernas. Seria menos uma ode à modernidade forçada que um lamento pelos elementos que seriam inevitavelmente sublimados.

Após a Cruzeiro Internacional e antes do seu retiro permanente em 1978 a Tulahuén, a 270 quilômetros da capital chilena, Sergio Larrain trabalhou brevemente para a Agência Magnum a convite de um dos seus fundadores, Henri Cartier-Bresson. Foi encarregado de fotografar a máfia italiana na Sicília. O trabalho foi realizado, mas ele se recusou a entregá-lo. Entre o que foi de fato entregue, estão as fotos da viúva de um mafioso e uma criança fotografada de baixo para cima, com olhar reconcentrado mirado no céu e os cabelos mexidos pelo vento, à sua frente o vulto de uma mão e três figuras incógnitas imediatamente atrás dela.

Nada disso é coincidência na obra de Larrain, nem essas eminências de história nem suas crianças. “A Graça se expressa quando é libertada das convenções, livre como uma criança em sua descoberta precoce da realidade”, escrevia. Com uma origem burguesa da qual ele queria se afastar, o chileno projeta nas crianças que fotografa a liberdade com que elas perambulavam, a ideia de não pertencimento, uma expressão da sua vontade por mudanças sociais e também ele mesmo.

As aspirações de narrativa convidam a pensar “o que diabos está acontecendo aqui?”. Indo além, essas histórias não incompletas, mas sim abertas, são um chamado também para resgatarmos algo que talvez nossa sociedade tenha perdido. Como aponta a crítica de fotografia Simonetta Persichetti, um poder de contemplação. Ao final da exposição, reencontro as meninas da passagem em Bavestrello e, embora saiba que essa passagem existe e leva a algum lugar concreto, Larrain deixa para trás o benefício da dúvida: para onde ela nos convida a ir?

Serviço

IMS Paulista
Av. Paulista, 2424 – Consolação, São Paulo – SP, 01310-300
(11) 2842-9120
Aberto todos os dias (exceto às segundas) das 10hs até 20hs (estendido às 22hs às quintas)
Entrada gratuita

Exposição fica até o dia 25/08