Moda atemporal de Rita Lee: peças da cantora que marcaram sua carreira - Revista Esquinas

Moda atemporal de Rita Lee: peças da cantora que marcaram sua carreira

Por Gabriel Gandolfi (1º ano) Julia de Miranda (1º ano) : maio 17, 2023

Foto de capa da edição especial da revista Rock Espetacular "Rita Lee, a vida e a glória de uma superestrela", 1980. Reprodução/@ritalee_oficial

Para além da época e dos padrões, conheça os looks de Rita Lee que marcaram sua carreira e deram aulas de liberdade e autenticidade

Rita Lee, a rainha do rock brasileiro, era conhecida como a “padroeira da liberdade”, não só pelo seu modo exótico e livre de ser e viver, mas também pelas suas músicas. Infelizmente, a artista faleceu na última semana, aos 75 anos. Entretanto, Rita Lee Jones deixou para o Brasil, e para o mundo, um imenso legado, tanto musical, como no campo da moda, exemplo concreto de sua autenticidade, expressividade e confiança.

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Rita Lee, em 1977.
Reprodução/@ritalee_oficial

O encontro de Rita Lee com a moda

Rita teve seu primeiro contato com a moda a partir do auxílio de Dona Romilda, sua mãe. A jovem artista pedia a ajuda da mãe para produzir seus primeiros figurinos. Porém, a relação de Rita Lee com looks ousados e um tanto quanto “diferentes” se estreitou quando a cantora participou de uma série de eventos da Rhodia, uma empresa que veio ao Brasil em 1919. Os eventos da marca, conhecidos como FENIT (Feira Nacional da Indústria Têxtil), visavam divulgar suas coleções de roupas. Assim iniciou a longa relação de Rita Lee com a indústria da moda.

Peças marcantes

Uma das peças mais marcantes da carreira de Rita foram suas icônicas botas prateadas. O calçado, da marca inglesa da marca Biba, foi adquirido de um jeito “diferente”. Durante a década de 60, a loja era um grande sucesso em Londres, reconhecida inclusive por se tornar a pioneira da moda “fast fashion”. Assim, Rita, curiosa para conhecer a marca, aproveitou uma de suas idas à capital inglesa e entrou na loja. A cantora imediatamente se apaixonou pelas botas prateadas e as experimentou. Em seguida, Rita disse para vendedora que precisava de um número maior, e, enquanto a funcionária procurava as botas maiores, a cantora saiu da loja (sem pagar) vestindo a peça, que se tornou uma de suas marcas registrada.

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Rita Lee e sua clássica bota prateada, Revista Manchete, 1978.
Revista Manchete

Muito tempo depois, a loja abriu uma filial em São Paulo e Bárbara Hulanicki, proprietária da marca Biba, se ofereceu para fazer todo o figurino da turnê “Babilônia” (1978-1979). Na ocasião, Rita Lee confessou ter roubado as botas e até ofereceu devolvê-las, apesar de desgastadas, e Bárbara, em meio a risadas, perdoou a artista.

Outra peça marcante para a carreira da cantora (e roubada por Rita) foi o vestido de noiva que a artista usou, no ano de 1968, em um festival da TV Record. Na época, Rita Lee era vocalista da banda tropicalista “Os Mutantes” e seu vestido se tornou tão icônico, que ela está vestindo a peça na capa do segundo disco do grupo. A história por trás desse look inusitado se deu após a rockeira assistir à gravação de uma cena da novela “O sheik de Agadir”, produzida pela Globo em 1966. Na novela, a atriz Leila Diniz apareceu trajada de noiva e Rita amou o vestido. Diante disso, a cantora teve ideia de tietar a atriz, que ofereceu o figurino como empréstimo e a Rita aceitou despretensiosamente. O vestido nunca foi devolvido.


Desde sempre, a “ovelha negra” buscou impactar e impressionar as pessoas por meio também da moda, já que suas roupas, além de serem elegantes e inusitadas, serviam como protesto. No contexto da ditadura civil-militar, após ser condenada injustamente em 1976 e ser solta, Rita Lee usou uma roupa de presidiária em seu show seguinte, para ironizar a situação. A cantora disse em uma entrevista à revista “Quem” em 2010, que foi tida como troféu para os policiais, pois os hippies eram tratados como bandidos e uma mulher simbolizar a liberdade sexual feminina era um problema.

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Os óculos e o estilo próprio

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Rita Lee usando um de seus icônicos óculos, foto de 2021.
Reprodução/@ritalee_oficial

Rita Lee era, acima de tudo, verdadeira consigo mesma, tinha um estilo próprio. Para Marina Moreira, designer gráfico formada pela UFMG, a cantora era incomparável.

“Eu associo a Rita a algo muito psicodélico. No geral, eu acho ela muito autêntica, principalmente para a época, ela era muito diferente de tudo que se via naquele momento. Tinha um cabelo vermelho, óculos laranja neon”.

Os óculos de diversos formatos e lentes, citados por Marina, na verdade trazem consigo um motivo patológico, pois Rita sofria de fotofobia, condição que a tornava extremamente sensível às luzes. A cantora ficava impossibilitada de deixar os olhos completamente abertos em lugares com muita claridade e por conta disso, Rita passou a utilizar seus óculos revolucionários.

“Ela abriu portas para várias outras mulheres terem coragem de fazer o que quiserem. Ela sempre foi muito corajosa, destemida.”, comenta Marina, que fez um TCC de estampas sobre Rita.

Como a moda define Rita?

Caótica, criativa e sem amarras, Rita fazia o que podia e queria para se manifestar. A rockeira usava referências da época como David Bowie, Mick Jagger e John Lennon. Ela misturava estéticas e tendências ao longo dos 60 anos de carreira, como hippie, fantasias, glam power ou glam rock, maximalista (mistura de estampas), retrô chique e tantas outras.

 


“Rita Lee se relacionava com a moda de forma brincalhona e propositiva, em um diálogo equilibrado dentro do que chamamos de ‘paradoxo da moda’. Cooptava tendências e subvertia ao seu modo, seguindo a lógica da subjetivação pela construção de uma imagem empoderada, à frente de seu tempo, liberal e ousada”, disse em entrevista a carioca Janara Morenna, doutora pela PUC-Rio e designer de moda.

Segundo Janara, “o estilo de Rita Lee transcendia ao que chamamos de moda dentro de um contexto de mercado e indústria. Ela soube imprimir seu “DNA” se pensarmos em seu posicionamento no mercado enquanto artista”.

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Capa da revista O Cruzeiro, 1973.
O Cruzeiro

O legado de Rita Lee

Rita Lee foi uma mulher que encantou muitos com sua autenticidade. Suas perucas coloridas, adereços distintos, roupas transparentes ou chamativas e misturas de estampas, impactaram sua carreira e ainda irão marcar a vida de inúmeras gerações.

Um grandioso exemplo é a roupa usada no especial Rita Lee em 1987, exibido pela TV Manchete, que trazia uma cômica interpretação da música “Saúde”.


Durante a performance, a cantora surgiu no palco com uma espécie de tablado envolto em sua cintura, que contava com pernas de borrachas cruzadas. Ao som doe seu rock, Rita simula movimentos de uma bailarina. Puxava as pernas, uma de cada vez, começava a brincar com posições e no refrão abria as duas pernas como se estivesse em um ato sexual.

Rita Lee sempre esteve à frente do seu tempo e foi capaz de falar sobre vários temas tidos como “tabus” de forma simples. Como dizia a artista na música “Saúde”: “mas enquanto estou viva e cheia de graça, talvez ainda faça um monte de gente feliz”. De fato, fez e continuará fazendo.

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Rita Lee, em 1980.
Reprodução/@ritalee_oficial

Isso é saúde. Isso é Rita Lee.

Editado por Mariana Ribeiro

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