Cofundadora do grupo de teatro em ônibus Zózima Trupe fala sobre fim de parceria durante pandemia: “É teatro que a gente quer fazer” - Revista Esquinas

Cofundadora do grupo de teatro em ônibus Zózima Trupe fala sobre fim de parceria durante pandemia: “É teatro que a gente quer fazer”

Por Luíza Fernandes : dezembro 7, 2021

Tatiane Lustoza comenta quebra de contrato com a SPTrans em 2020 e valor da companhia para a produção cultural

“Por que não dar um significado novo para o ônibus, que é um ser tão periférico, né?”. É assim que se justifica Tatiane Lustoza, cofundadora, artista e pesquisadora da Zózima Trupe. A companhia de teatro possui um nome excêntrico que pode servir como chamariz de uma arte, por si só, despertadora de cultura e expressão – mas é na resistência que se sustenta o grupo de atores.

Formado por, além de Tatiane, Anderson Maurício, Priscila Reis, Cleide Amorim, Junior Docini, Maria Rosa, Tatiane Nunes Muniz, Amanda Azevedo e Jonathan Araújo, a Zózima se caracteriza por construir peças teatrais e incentivar outras formas de expressão em um ônibus. Isso mesmo: a encenação ocorre dentro do mesmo ônibus que eu ou você poderíamos acenar timidamente, em um ponto qualquer, por toda a cidade.

De acordo com Tatiane, a ideia surge de uma vontade, desde antes da existência concreta da Zózima, de nadar contra a maré e fazer arte para além dos obstáculos. Isso porque, na Faculdade de Artes de São Caetano do Sul, seis alunos de uma turma de dezesseis decidiram seguir com um sonho de espalhar o teatro pela cidade – e que melhor maneira de fazer isso do que usando o seu elo mais forte: o próprio ônibus?

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Zózima Trupe
Acervo pessoal

“O ônibus é um ambiente tão comum para o ser periférico, né?”, destaca Tatiane. “É a nossa casa ambulante. E o que era a gente dentro desses ônibus: a gente ia decorando texto, porque a gente trabalhava, e não tinha tempo para você chegar de onde a gente mora até São Caetano. Era uma viagem de pelo menos duas horas e meia para ir, duas horas e meia para voltar – quando tudo dava certo, senão o tempo era maior. O transporte era nosso meio de expressão artística e de ensaio”.

Tatiane ainda narra que, de uma amizade sincera que percorria a cidade, surge uma necessidade de trazer e ressaltar a importância do ônibus como um representante do transporte público.

“É uma forma de a gente aproveitar esse tempo”, revela a atriz.  “Ele é tão precioso e se perde no caminho. Fazemos isso para transformar o tempo em algo que de fato possa ser uma experiência artística cultural, que faça sentido e que promova uma reflexão – que é isso que a arte faz”.

Em um de seus manifestos – que a Zózima Trupe faz questão de deixar em posição de destaque no site oficial – se diz:

“Que teatro é morada de todos. Casa de fazer farinha/remendar retalhos/remo de rezar imagens. Vazão-vazão. Vamos-vamos. Que estamos na cidade. Que somos a estrada”.

Para Tatiane, o teatro é a razão – desde o começo. É por causa dele e nele que resistem os artistas que querem continuar com  trupe, que teve seus trajetos interrompidos pela pandemia da covid-19.

“É muito cruel e triste com a gente a forma como somos atacados às vezes diretamente ou indiretamente”, desabafa. “É teatro que a gente quer fazer. É isso que a gente quer nesse momento – que as pessoas vivam essa experiência. Eu digo que o ônibus não é só um teatro, é uma experiência”. 

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 O choque

Como uma companhia de teatro independente, a Zózima Trupe sempre aprendeu a se virar para se sustentar e seguir espalhando o teatro pela cidade. Tatiane conta que, para um grupo de jovens ainda em processo de finalização do curso de teatro, foi com muito esforço que surgiu o padrão de organização e cuidado com que cada trabalho é – desde 2007 e até hoje – concretizado.

“A gente foi estudando muito para aprender o que falar, como falar e quais eram as nossas deficiências enquanto grupo”, esclarece a cofundadora da Trupe. “Eu fiz vários cursos de Produção Cultural e entrevistei grandes produtores para entender como é que as pessoas fazem. E aí a gente foi com o espírito empreendedor que a gente entendeu como produzir. Desde o início que eu falava assim: ‘Se a gente não criar novas oportunidades, ninguém vai bater na nossa porta’”.

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Zózima Trupe
Acervo pessoal

E, com muito esforço, bateram: com mais de 650 apresentações da peça ‘Cordel do Amor Sem Fim’ combinadas com duas Mostras de Teatro no Ônibus e oito anos de resistência artística no Terminal Parque Dom Pedro, a Zózima Trupe construiu a fama de um grupo que transforma e inova o teatro.

Em 2012, o grupo fechou uma parceria com a SPTrans, na qual eram autorizados a guardar o ônibus utilizado como cenário das peças de teatro em um estacionamento do Brás – na região leste da capital paulista. Em 2020, com o início da pandemia, muitos projetos e planejamentos futuros da trupe inevitavelmente ruíram. Mas, conforme narrou Tatiane, de todas as coisas que viraram de cabeça para baixo na vida da companhia teatral, o fim desta parceria de intensa importância era a menos esperada.

“Sempre oferecemos nossa programação cultural gratuitamente aos trabalhadores e passageiros de ônibus e terminais urbanos, mesmo quando as ações eram feitas sem recursos públicos, mesmo quando nós e nossos parceiros estávamos sem receber um centavo pelo nosso trabalho”, afirma.

Ela lembra que “há pesquisas que dizem que os profissionais que mais foram desligados por morte de covid-19 foram motoristas e cobradores de ônibus. Acreditamos mais do que nunca na importância do nosso trabalho para aqueles que ficaram e estão tentando reconstruir suas vidas. Agora que estávamos nos preparando para voltar, recebemos mais essa notícia devastadora”.

Contudo, mesmo com um futuro incerto e um frio na barriga para voltar aos palcos – ou, no caso, aos ônibus – Tatiane se mostra esperançosa, sempre com um sorriso no rosto. “A gente tem consciência de onde a gente atua e de que atua da melhor maneira possível, sem comprometer nada nem ninguém. Então eu desejo que venham tempos melhores porque nós merecemos. Todos nós precisamos de tempos melhores e, de alguma maneira, temos que construir esses tempos”.

Editado por Enzo Volpe

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