The Last of Us Part II: onde heróis e vilões dão lugar a humanos - Revista Esquinas

The Last of Us Part II: onde heróis e vilões dão lugar a humanos

Por Gustavo Alencar : julho 11, 2020

Entenda porque o game tem sido o principal assunto nas comunidades de jogadores nas últimas semanas

*Antes de começar a resenha em si, é importante deixar claro que a análise contará com spoilers da história do jogo. Para tocarmos em determinados pontos será necessário contar diversos acontecimentos do game em questão.*

Não é mistério para ninguém que após o sucesso do primeiro jogo a sequência da franquia The Last of Us era muito aguardada. Tratando de temas delicados e com uma história violenta, crítica, emocionante e, principalmente, com personagens bem desenvolvidos o primeiro game foi, positivamente, uma unanimidade entre jogadores e críticos, se tornando um clássico. Além disso, foi em 2016 que a NaughtyDog, produtora do jogo, abalou a indústria dos videogames com um teaser, na E3 (feira internacional dedicada a jogos eletrônicos), do próximo jogo da saga.

Durante os quatro anos de espera, a expectativa criada no jogo foi enorme. Após diversos trailers e trechos de gameplay, a sequência de The Last of Us prometia melhorar tudo que o primeiro jogo da franquia tinha apresentado. Visto que, o primeiro jogo da saga havia sido elogiado por todo o mundo, esperava-se uma jogabilidade revolucionária e, uma história cativante e crítica.

Antes de entrarmos no ponto alto do jogo, a história, é importante ressaltar a evolução gráfica existente nessa sequência. Enquanto The Last of Us levava todos os recursos do PS3 (PlayStation 3) ao máximo, a NaughtyDog repete a dose extraindo tudo que o PS4 (PlayStation4) tem a oferecer. Esse jogo traz cenários dignos de um pós-apocalipse realista, a natureza já com o ambiente dominado e diversos locais destruídos, dado que a humanidade já está nessa situação há mais de 20 anos. Porém, o que mais chama atenção em The Last of Us Part II é a evolução nas expressões faciais dos personagens, sendo visíveis as fisionomias de dor, felicidade, tristeza e ódio não apenas em cutscenes (sequência em um jogo eletrônico sobre a qual o jogador tem nenhum ou pouco controle), mas também durante a jogatina.

Outro grande marco de The Last of Us Part II é sua jogabilidade extremamente fluida. O segundo jogo melhora em todos os aspectos a jogatina de seu antecessor, mas ainda sim são extremamente parecidos. Visto que, agora existe uma interação com o cenário muito presente e com elementos de stealth (gênero de jogos eletrônicos no qual o jogador deve evitar ser percebido) muito cativantes e divertidos. Além disso, com uma inteligência artificial melhorada e com a introdução de diversos novos inimigos, a dificuldade do jogo aumentou, porém sem deixar de ser divertido e desafiador. Desse modo, dentre as diversas críticas que o jogo recebeu, a jogabilidade foi a única que agradou a maioria dos jogadores, se mostrando divertida e desafiadora a todo momento.

Dito todos os pontos que me agradaram em The Last of Us Part II, vamos entrar no mérito mais polêmico desse jogo e, para mim, o ponto alto do jogo, o enredo. O segundo jogo da franquia conta uma história de vingança, de emaptia e dramática que dividiu os jogadores.

The Last of Us “1” trabalha com uma história tecnicamente simples, em que o ponto forte do jogo é a humanização das personagens e seus desenvolvimentos. O enredo, bem resumido, conta sobre Joel (pai) ter que levar Ellie (filha) até um hospital em que será possível desenvolver uma cura através da garota, visto que a mesma teria sido infectada e não se transformado em “zumbi”. Porém, como já dito, o ponto alto do jogo é no desenvolvimento da relação de pai e filha dos dois. Com um final em que Joel evita o desenvolvimento da cura em um gesto de amor e ódio matando todos no hospital para salvar a garota e mentindo para a própria sobre os acontecimentos no hospital, cria-se o gancho que nos leva ao segundo jogo.

Enquanto no primeiro jogo controlávamos o protagonista Joel, em The Last of Us Part II quem assume o protagonismo da história são as personagens Ellie (jogável em uma parte do primeiro jogo) e Abby (nova personagem). Esse duplo protagonismo foi escondido do jogador até o dia do lançamento, prévias mostravam apenas gameplays com a Ellie. Entretanto, o sigilo da segunda personagem principal é fundamental para o choque durante o jogo e, principalmente, para a mensagem na qual o jogo tenta nos passar.

Depois de poucas horas de jogo somos introduzidos, ao que acho ser, o grande choque e o motivo de vingança de Ellie. Com o assassinato  de Joel, protagonista do primeiro jogo, de forma extremamente brutal cometido por Abby e seu grupo, nos é gerado uma empatia enorme com o sentimento de  vingança de Ellie. Essa sacada do roteiro de matar o personagem mais amado por muitos jogadores nas primeiras horas de jogo, vem com a ideia de gerar um sentimento em nós muito parecido com o que a protagonista sente no momento, tornando a jornada por vingança muito mais épica e desejada.

Após a morte de sua figura paterna, Ellie atravessa Seattle em busca de Abby e seu grupo para mata-los e concluir sua vingança. Após diversos acontecimentos durante a jornada, Ellie mata todos integrantes do grupo, exceto Abby que acaba escapando. Ao voltar ao ponto seguro da jornada, o Teatro, ela encontra seu amigo Jesse morto e Abby com o irmão de Joel feito de refém, e então temos a grande reviravolta do roteiro.

Após o evento do Teatro somos levados ao passado, em que controlamos Abby criança e nos é mostrado que Joel, na cena do hospital no primeiro jogo, mata o pai de Abby. Sendo assim, vemos a motivação da personagem em matar Joel, o que acaba por gerar um questionamento: se sentimos empatia pela vingança de Ellie, deveríamos sentir também pela de Abby? Dito isso, fica claro que essa decisão de roteiro não agradou todos os jogadores, sendo que achamos desde o começo que Abby seria a antagonista.

Ao final do jogo, é mostrado o destino de ambas as personagens com suas jornadas de vingança e tendo o mesmo resultado, o vazio. Ambas as personagens acabam suas caminhadas sem ninguém, apenas com elas mesmas e com cenas finais de cortar o coração. O final do primeiro jogo havia gerado discussões, porém nada se compara à montanha russa de emoções que sua sequência gera no jogador, deixando um completo sentimento de tristeza em seu fechamento que eu nunca tinha vivenciado em nenhuma outra obra.

O game possui um enredo extremamente crítico à sociedade atual e muito dramático. A atitude e coragem de apresentar uma personagem nova (Abby) nos fazendo odiá-la com todas as forças e depois apresentar seu lado da história, que gera em nós uma conexão com a personagem é brilhante. Em tempos onde nosso núcleo social é marcado por extremismos e narrativas unilaterais, é importante uma obra do peso de The Last of Us debater e criticar esses temas, obrigando o jogador a ouvir e entender o outro lado da moeda mesmo que ele não queria.

Um dos grandes acertos desse jogo é mostrar como a vida realmente é. Esse jogo não tem heróis ou vilões, simplesmente porque isso não existe na vida real na maioria dos casos. Ao mostrar os dois lados da história gera o sentimento de que não existem pessoas puramente boas ou ruins, apenas sobreviventes que possuem raiva, amigos, família, sentimentos etc. E mesmo tendo passado por muita coisa no primeiro jogo com Joel e Ellie, ver Joel ser morto no segundo jogo e toda a jornada de Ellie por vingança, ainda assim sentimos a dor que Abby passa e sabemos suas motivações e que na verdade os protagonistas do primeiro jogo nunca foram os mocinhos, mas sobreviventes, assim como Abby.

Outras duas lições de vida que o jogo passa são a de que a vida passa em um piscar de olhos e que o ódio realmente não vale a pena. Ocorrem diversas mortes durante o jogo, que nos gera um sentimento de tristeza e de como aquilo pode acontecer a qualquer momento na vida real. Ademais, o sentimento de ódio de ambas as protagonistas nos mostra de forma brilhante o quanto essa emoção apenas nos prejudica e aonde ela pode nos levar.

Por fim, é importante ressaltar o trabalho de inclusão que a NaughtyDog fez com The Last of Us Part II. Poucos jogos retratam a temática LGBTQ+ de forma tão simples e delicada como esse game, sem se aprofundar no relacionamento e tratando como deveria ser, normal. Isso sem contar o duplo protagonismo feminino existente dentro do jogo que é tratado de forma muito imponente, sem cometer o principal erro que muitos jogos de protagonismo feminino cometem, a sexualização da mulher e reforçar os estereótipos. Além disso, facilmente você encontrará personagens de diversas etnias, raças e sexualidades diferentes.

Portanto, na minha opinião, The Last of Us Part II é com certeza um dos melhores jogos de todos os tempos. Com uma história extremamente complexa, dramática, cinza e com uma montanha russa de emoções ele se tornou um dos clássicos da história dos jogos. Sem um “final Disney”, o segundo jogo pode gerar frustrações e arrancar lágrimas dos jogadores, porém tudo é recompensado com a belíssima mensagem que essa obra de arte nos passa.