Uma noite no Theatro - Revista Esquinas

Uma noite no Theatro

Por Amanda Oestreich, Ana Elisa Abddala e Marina Sakai : fevereiro 12, 2020

Marco que abriga histórias de diferentes gerações

Imagine-se fazendo parte do seleto grupo de brasileiros que, na década de 1920, estão atravessando o Viaduto do Chá para chegar ao mais novo edifício de São Paulo. Imagine-se usando roupas da época, sentindo a fria noite de setembro, prestes a assistir à ópera mais recente de Ambroise Thomas: Hamlet. A ocasião é a inauguração do Theatro Municipal de São Paulo. Quem poderia imaginar que esse se tornaria um dos maiores antros de cultura da cidade?

Theatro Municipal entre 1902 e 1927
Guilherme Gaensly

“Navios demoram demais. Por que não trazer um pouco da Europa para mais perto de nós?”. Foi o que Ramos de Azevedo pensou ao carregar da França os espelhos de Versalhes — transformados no Salão Nobre. Agora você se sente no mais fino dos países. Afinal, no auge da República Velha, o Brasil prospera e a economia vai bem. Você é um barão do café, ocupa uma das frisas do Theatro, vê o espetáculo do melhor ângulo. Seus funcionários, entretanto, nunca sonhariam em frequentar esses espaços, já que grande parte da população era excluída das programações culturais.

Teatro pré-espetáculo
Amanda Zonaro

O tempo passou. Seus bisnetos, ainda de classe alta, não frequentam tanto o teatro. Não tem mais a graça ou o status que carregava em 1911. Em suas raras visitas, veem pessoas de diferentes classes sociais, pagam menos pelos ingressos e não têm, necessariamente, a vista privilegiada que você tinha. Agora, pelo menos, é mais democrático. Na sua época, manter hábitos culturais demandava uma fortuna e seus bisnetos se recusam a gastar 5 reais para assistir a um espetáculo. Até mesmo nos gratuitos o Theatro não chega nem perto de atingir sua capacidade máxima.

O lugar mudou muito, os arredores também. A linda construção se esconde atrás de arranha-céus. Trabalhadores apressados passam despercebidos pela fachada que revolucionou a capital. O piso do Salão Nobre — da madeira mais refinada que existia em 1920 — foi coberto por um tapete para ajudar na preservação, mas com desenhos modernos, que deixa evidente a diferença de épocas. Assim também se alterou o subsolo, que foi transformado em um bar contemporâneo, com o intuito de atrair a nova geração.

Teto do Salão Nobre
Ana Elisa Abddala

Por fim, você percebe que apesar da mudança de tempo a atmosfera é a mesma. O Theatro, mesmo que apenas por uma noite, dá ao público um espaço para sonhar o que quisessem. O que antes era um desejo de glamour, agora é a cobiça de jovens artistas que sonham em lá se apresentar. Você queria que seus bisnetos e as novas gerações pudessem vive-lo como você viveu, mas entenda: para manter os sonhos desse novo mundo vivos, o Theatro Municipal de São Paulo precisa se reinventar a fim sobreviver.