Uma noite no Theatro - Revista Esquinas

Uma noite no Theatro

Por Amanda Oestreich, Ana Elisa Abddala e Marina Sakai : fevereiro 12, 2020

Marco que abriga histórias de diferentes gerações

Imagine-se fazendo parte do seleto grupo de brasileiros que, na década de 1920, estão atravessando o Viaduto do Chá para chegar ao mais novo edifício de São Paulo. Imagine-se usando roupas da época, sentindo a fria noite de setembro, prestes a assistir à ópera mais recente de Ambroise Thomas: Hamlet. A ocasião é a inauguração do Theatro Municipal de São Paulo. Quem poderia imaginar que esse se tornaria um dos maiores antros de cultura da cidade?

“Navios demoram demais. Por que não trazer um pouco da Europa para mais perto de nós?”. Foi o que Ramos de Azevedo pensou ao carregar da França os espelhos de Versalhes — transformados no Salão Nobre. Agora você se sente no mais fino dos países. Afinal, no auge da República Velha, o Brasil prospera e a economia vai bem. Você é um barão do café, ocupa uma das frisas do Theatro, vê o espetáculo do melhor ângulo. Seus funcionários, entretanto, nunca sonhariam em frequentar esses espaços, já que grande parte da população era excluída das programações culturais.

O tempo passou. Seus bisnetos, ainda de classe alta, não frequentam tanto o teatro. Não tem mais a graça ou o status que carregava em 1911. Em suas raras visitas, veem pessoas de diferentes classes sociais, pagam menos pelos ingressos e não têm, necessariamente, a vista privilegiada que você tinha. Agora, pelo menos, é mais democrático. Na sua época, manter hábitos culturais demandava uma fortuna e seus bisnetos se recusam a gastar 5 reais para assistir a um espetáculo. Até mesmo nos gratuitos o Theatro não chega nem perto de atingir sua capacidade máxima.

O lugar mudou muito, os arredores também. A linda construção se esconde atrás de arranha-céus. Trabalhadores apressados passam despercebidos pela fachada que revolucionou a capital. O piso do Salão Nobre — da madeira mais refinada que existia em 1920 — foi coberto por um tapete para ajudar na preservação, mas com desenhos modernos, que deixa evidente a diferença de épocas. Assim também se alterou o subsolo, que foi transformado em um bar contemporâneo, com o intuito de atrair a nova geração.

Teto do Salão Nobre
Ana Elisa Abddala

Por fim, você percebe que apesar da mudança de tempo a atmosfera é a mesma. O Theatro, mesmo que apenas por uma noite, dá ao público um espaço para sonhar o que quisessem. O que antes era um desejo de glamour, agora é a cobiça de jovens artistas que sonham em lá se apresentar. Você queria que seus bisnetos e as novas gerações pudessem vive-lo como você viveu, mas entenda: para manter os sonhos desse novo mundo vivos, o Theatro Municipal de São Paulo precisa se reinventar a fim sobreviver.