Quarentena dos idosos: “Venci o câncer. Não vai ser o corona que vai me derrubar” - Revista Esquinas

Quarentena dos idosos: “Venci o câncer. Não vai ser o corona que vai me derrubar”

Por Bruna Sales : agosto 16, 2020

Durante o mês de agosto, ESQUINAS traz relatos sobre idosos em isolamento social. O depoimento da aposentada Cidinha Carrasco é a quarta reportagem da série

— E a família? Tem insistido para que a senhora fique em casa?

— Ah, eles me enchem o saco direto. Mas, o que que eu faço? Saio da minha casa, vou pra garagem. Abro o portão, dou umas olhadinhas assim, como quem não quer nada, e volto. Aí, dá vontade de novo de ver a rua. Vou lá, dou uma olhadinha e volto.

 

Mês de março, começo da quarentena. Tirando as visitas ao hospital para fazer radioterapia, Maria Aparecida Carrasco, ou Cidinha, não saiu de sua casa em Mogi das Cruzes. “Não sou de ficar parada. Eu gosto mesmo é de sair, caminhar a pé pelo centro da cidade, encontrar com as amigas.” Mirella Carrasco, sua neta de 20 anos, não vê nisso nenhuma surpresa. “A minha vó é rueira desde que eu me conheço por gente. Aliás, me lembro de pedir para ir à casa dela à tarde e ouvir a desculpa repetida de que ela tinha que ir ao INSS”, diz entre risadas. “Quer dizer, ela queria sair, e não ficar presa em casa cuidando de neto.”

Diagnosticada em 2019 com câncer de mama, Cidinha já está na etapa final do enfrentamento da doença. Nem por isso o receio de adoecer tornou-se mais forte. “Não fiquei com medo não, pelo contrário. Mesmo quando eu descobri o câncer, eu aceitei tanto. O que tiver que acontecer, acontece”, diz Cidinha.

Cidinha, que faz parte do grupo de risco, utiliza máscara para se proteger.
Acervo Pessoal

Nos primeiros meses, a rotina adaptada para aguentar o isolamento era simples. Acorda, organiza as coisas em casa. Entra na internet, joga baralho, vê TV. Para suprir os encontros mensais de bingo com as amigas, o WhatsApp era o companheiro.

O confinamento era respeitado com algumas escapadinhas. Como a do dia 30 de março. Após uma sessão de radioterapia, Cidinha foi fazer o que mais gosta: compras no supermercado. “Eu dei uma passadinha no Assaí”, diverte-se. A senhora aposentada vê a ida ao supermercado como uma experiência. Gosta de comparar preços entre marcas e supermercados; analisar as ofertas de cada opção; escolher suas próprias frutas, verduras e legumes. “Ela não gosta que ninguém vá por ela”, reforça Mirella.

As netas Mirella e Isabella e a filha Cláudia foram as únicas visitas daqueles tempos. “A Claudia precisou trazer meu remédio de São Paulo. Mas nada de beijo e abraço”. Pensa por um instante e confessa: “Ah, eu dei abraço sim, matei a minha saudade. Dei um abraço nelas escondido da Claudia, que ela viu e ficou brava. Bom, se eu morrer, morro feliz.”

O cenário dramático, felizmente, não aconteceu. Com o fim da radioterapia em junho, Cidinha flexibilizou a quarentena “para comemorar”: foi à Igreja para agradecer – em seguida, fez a unha. Hoje a rotina é parecida com a vida pré-pandemia: compras no centro, mercado, mercadão, missa e manicure. “Os velhos já estão arrastando chinelinho! Se é pra prevenir a saúde dos idosos, então vamos soltar todos na rua? E os novos ficam tudo trancadinho”, brinca.

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