Sem ser mães, jovens encaram o desafio de cuidar de crianças na pandemia - Revista Esquinas

Sem ser mães, jovens encaram o desafio de cuidar de crianças na pandemia

Por Ariel Boraso Giagio e Beatriz Lopes Silveira : novembro 23, 2021

Conheça o cotidiano de duas estudantes que precisaram assumir responsabilidades extras durante o período de isolamento social

“Como tia, você não imagina que vai precisar assumir responsabilidades com as crianças, como fazer ele dormir, adaptação na escola, dar comida… Você só quer a parte fofinha e gostosa”. Maria Clara, de 24 anos, se sentiu pega de surpresa em ter que assumir o papel de mãe com a chegada da pandemia. Estagiária e estudante na reta final do curso de Arquitetura na Escola da Cidade, ela precisou ajudar sua irmã mais velha a cuidar de seu sobrinho de 3 anos. Enquanto a mãe trabalhava como psicóloga em diversos horários, a jovem o ajudava em casa.

Um misto de irritação e esgotamento eram rotineiros nos seus pensamentos. Ela conta que já chegou a chorar no dia anterior por saber que teria que cuidar novamente do bebê, pois a sensação de “não aguento mais” era muito forte. Não que não amasse seu sobrinho, mas ela sentia o peso. “É um estresse quando preciso lidar com outras coisas da minha vida, mas não consigo porque eu to cuidando de uma criança de 2 anos.”

Situação semelhante ocorreu com a universitária Ramilly Érica, de 18 anos. Logo que começou a pandemia, ela tomou para si a realização as tarefas domésticas da casa. Também passou de cuidar da irmã de 2 anos. “Eu não queria que a minha irmã saísse para qualquer lugar, eu avisei aos meus pais que não queria ninguém aqui em casa, nem babá.” Afetada pela falta de convívio com outros bebês, a pequena exigia atenção total de Ramilly, que deixou a faculdade em segundo plano. “Como ela tinha parado de ter aula, ela começou a gaguejar. Resolvi me dedicar por inteiro no tempo em que estivesse com ela.”

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O cuidado para além das crianças

Thaís Ciardella, formada em pedagogia pelo Instituto Vera Cruz e com mestrado em educação pela Universidade de São Paulo, afirma que esse tipo de arranjo familiar se tornou mais comum no período de isolamento social. Para ela a frase “É preciso uma aldeia para criar uma criança” nunca foi tão verdadeira. “Reconheço que estão fazendo o possível, todos. Eu vi as famílias agindo de acordo com os saberes que elas têm. E aí as dinâmicas são muito diferentes para as crianças”.

Quando as responsabilidades recaem sobre um irmão mais velho, é preciso cuidar para que o jovem não assuma o papel de substituto dos responsáveis. Ela cita o exemplo do percurso de estudo. “As crianças pequenas podem contar com as experiências não com peso de professor ou de pai, mas como parceira, uma pessoa mais um pouco mais experiente”. Outras possibilidades são convidar para uma brincadeira e acolher a criança. “E os pais devem ficar atentos para evitar sobrecarga nos adolescentes.”

Com a volta gradativa ao ensino presencial, já é possível restabelecer a partilha com a escola na educação. Para Thaís, o acolhimento e a atenção a eventuais dificuldades no retorno de estudantes de todas as faixas etárias deve ser a regra. “A pandemia vai ter uma dívida com todo mundo. Vai ter uma dívida histórica nas crianças também”, afirma. Apesar das dificuldades, nem todas as lembranças são negativas. Para Maria Clara, uma parte positiva é que ela não teria esse contato com o bebê se a situação fosse diferente. “Ele percebe que você é uma pessoa que representa carinho, cuidado e conforto. E ele pede por você”, finaliza.

Editado por Rodrigo Ratier

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