A vulnerabilidade de um recomeço - Revista Esquinas

A vulnerabilidade de um recomeço

Por Analuá Baptista, Diovanna Mores Monte e Julia Brito Maciel : julho 23, 2021

Conheça Fernanda Claudia Gouveia Maciel que, diagnosticada com câncer de mama, conseguiu superar os desafios da doença em plena pandemia da covid-19

Aquela noite havia sido difícil, extremamente difícil. Fernanda era pura ansiedade e apreensão. Sentia que carregava o mundo nos ombros. Por pouco não conseguiu dormir. Quando abriu os olhos, percebeu que não era um pesadelo. Pior: era a realidade. O relógio já marcava 9 horas da manhã. Nada. 10 horas. Nada. Aquela agonia parecia não ter fim.

O marido Fred, igualmente atordoado, parecia ter tudo sob controle. Talvez estivesse ainda pior que Fernanda, mas não demonstrava. Observava de longe o sofrimento da esposa, mas aos poucos foi chegando de mansinho, como quem não quer nada.

— “Tá agoniada, né?”

— “Eu tô… eu tenho certeza que deu alguma coisa e as meninas estão sem coragem pra ligar.”

Fred, assim como “as meninas”, não queria ser o responsável por agravar a situação de Fernanda. Não sabia como fazer aquilo, mas não tinha jeito. Era a realidade.

— “É isso mesmo. Elas ligaram pra mim. O resultado deu positivo e elas não tiveram coragem de contar pra você…”

Foi um baque. O maior medo de Fernanda havia se concretizado: câncer de mama. Ainda quando amamentava, teve um cisto do lado direito, fruto de uma bactéria passada pelos filhos. 28 anos depois, sentiu um caroço grande no mesmo local. Não deu bola, pensou se tratar de um novo cisto. Ele se desenvolveu muito rápido.

Ninguém duvidou de que ela venceria tudo aquilo, mas vez ou outra um sentimento silencioso cruzava a mente até dos mais otimistas: o pavor de perdê-la para sempre. “Nós somos de uma época em que a palavra CA trazia um medo danado. Era como se fosse uma condenação, como se a pessoa já estivesse determinada a partir”, confessa Eduardo, um dos irmãos de Fernanda.

Para ela, esse pensamento não era uma possibilidade; era certeza absoluta. Ela sabia que não sobreviveria. Já tinha todo um plano formado na cabeça: ia embora, largaria tudo, deixaria toda a vida que construiu nos últimos 57 anos para trás. O lugar precisava ser bonito, de preferência numa praia. Ficaria isolada, curtindo a brisa do mar e o sol escaldante de um eterno verão.

— “Tá, você vai embora e aí?”, perguntou o médico horas depois.

— “Vou embora, consigo uma medicação forte pra dor.”

— “E quem é que vai aplicar a injeção em você?”

— “Eu mesma.”

— “Você não vai conseguir, a dor é muito grande.”

— “Eu vou num hospital.”

— “Quando você chegar lá vão te prender porque essa medicação é só de uso hospitalar. Fernanda, você não vai estar salva pelos deuses; papai do céu não vai te levar pro céu porque você fugiu de um tratamento. Você é considerada suicida.”

Em 2019, ano do início de nossa história, o câncer de mama era a primeira causa de morte pela doença na população feminina em quase todas as regiões do Brasil. Fernanda era da área da saúde. Ela sabia exatamente com o que estava lidando.

É preciso chuva para florir

Depois de ter jogado um vaso de vidro em direção ao pai, Fernanda aguardava o duelo final. Messias veio em sua direção banhado a sangue. Carregava em suas mãos um pedaço de pau. Ele queria vingança. Em pouco tempo o instrumento causaria estrago na nuca da filha, que foi parar no hospital. “Ela nutria um ódio muito grande pelo nosso pai”, recorda Eduardo.

Fernanda movia os céus e a terra para proteger a mãe das garras de Messias. Se conformar com o sofrimento alheio não era do seu feitio. “Eu tinha muita empatia com todo e qualquer sofrimento que eu visse no outro.” Foi esse sentimento que a transformou em técnica de enfermagem. Apesar de não poder ver um corte sequer sem sentir vontade de desmaiar, Fernanda sabe que o sacrifício valeu a pena.

A enfermeira, então, decidiu se ajudar, assim como ela ajudou quem encontrou pela vida. Em maio de 2019 iniciou a quimio e radioterapia pela rede pública. Não era nada fácil. Tomava a medicação da série vermelha, a pior de todas. Chegava ao hospital às oito da manhã e saía às cinco e meia da tarde. “Eu dava graças a tudo o que estava recebendo. Que aquilo fosse entrando no meu organismo para destruir apenas o que ele tinha que destruir.”

Mas logo vieram os efeitos colaterais. A cor da mama mudou. O esôfago atrofiou. Chegou a perder 10kg. Quando viu o cabelo se desfazer entre seus dedos, não hesitou em raspar aquilo que mais gostava em si mesma. Ao olhar no espelho, já não era mais a mesma Fernanda. Até tentou usar uma peruca feita do cabelo de Pedro, um de seus dois filhos, mas era quente demais. Preferiu assumir a nova Fernanda em um ato de bravura. Acolheu sua nova versão e, sem se importar com o que iam pensar, foi “tocando em frente”, como canta Almir Sater em sua música preferida.

Fernanda precisou retirar os seios. Prevenção, eles disseram. Mas ela não se importava em fazer o procedimento; se iria ajudá-la, deveria ser feito. Mas Fernanda não se abateu. Afinal, tudo estava dando certo. Aquela medicação que ela tanto agradecia por existir estava provocando bons efeitos. Ela caminhava para a completa recuperação e estava pronta para colocar sua prótese definitiva nos seios. Prestes a viajar para São Paulo para reencontrar os irmãos e brindar sua cura, eclode a pandemia do novo coronavírus.

Compreender a marcha e ir tocando em frente

A quimio e a radioterapia provocaram não só efeitos colaterais como, também, a queda na imunidade da enfermeira. Esse fato, juntamente com a imunodeficiência (ela foi diagnosticada em 2017 com artrite reumatoide), fizeram com que Fernanda conhecesse o isolamento social muito antes da Covid-19.

Tendo em vista seu quadro de imunodeficiência e, desta vez, o câncer, que de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), é uma comorbidade viral, Fernanda enxergou a medida de distanciamento social como necessária para sua saúde. “Depois de ter se protegido tanto de um CA, de ter sofrido tanto num tratamento pra chegar uma pandemia e me levar…”

Fernanda ficou neurótica. O medo de morrer era grande. Não se separava do hipoclorito de sódio por um instante. Limpava e desinfectava tudo. Álcool em gel só faltava tomar. Às vezes não deixava nem Fred se aproximar. “A cada hora que olhava nos grupos do WhatsApp era terrível, muito terrível. Três, quatro, cinco pessoas próximas a nós morrendo. Aquilo foi assustando muito.” Dos 25 companheiros de terapia do Grupo Girassóis, que segurou a barra de Fernanda durante seu tratamento, 7 morreram. Fernanda precisou aprender a lidar com despedidas.

Mas não havia doença ou vírus algum que a impedisse de ajudar quem precisava. Fernanda rompeu sua bolha, mesmo que isso representasse um grande risco à sua saúde. A família até tentou, mas sabia que não se impede uma forte onda de chegar à areia. Em março de 2020, quando o Brasil temia a Covid-19, Fernanda acudiu dois grandes amigos, Sandra e Valdir, na luta contra a doença — e não hesitou em fazer isso outras vezes.

Costumam dizer que são em tempos sombrios que nos reinventamos, e foi exatamente o que aconteceu com Fernanda. Cozinhar — especialmente para outras pessoas — é uma das grandes paixões da enfermeira. Vender marmitas foi, então, a solução encontrada pela família para pagar as contas que continuavam a chegar, já que Fred, assim como mais de 8 milhões de brasileiros, também ficou desempregado durante a pandemia.

De um lado Fernanda combinava alimentos, massas, molhos e temperos selecionados a dedo. Do outro, Fred lavava e secava a louça. A barreira natural entre os dois tinha uma explicação: Fernanda não queria correr o risco de se contaminar e, por isso, não pediu ajuda a ninguém. Dessa forma, a entrega ficava por conta do marido e do filho Lucas, que chegaram a transportar 25 marmitas por dia. Com Fred voltando a trabalhar, ela foi deixando a atividade de lado, embora sempre encontre quem peça a volta triunfal da famosa panqueca de espinafre com ricota e bechamel.

O que ficou da experiência do confinamento e do aperto em relação às economias da casa foi a união. Fernanda se sentiu mais próxima do marido e dos dois filhos. Os momentos em família se tornaram mais frequentes. Até mesmo os pequenos gestos passaram a ser valorizados. O que antes a rotina engolia, agora era um momento de confraternização. “Nós passamos a comer juntos, não era assim… Cada um tinha seu horário. Agora meus filhos dizem ‘ô mãe, é bom demais ter essa comidinha!’”

Grupo de Apoio Girassóis em 2019

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Mais forte, mais feliz quem sabe

O isolamento social que Fernanda vem lidando desde 2019 fez com que se aproximasse ainda mais de si mesma. “Ao mesmo tempo que tem essa notícia péssima, vêm também outras coisas que a gente resgata e que nem imaginava que precisava.” O perdão e o amor que há muito esperavam ser expressados puderam ver a luz do dia. O passado foi finalmente alinhado; ficaram apenas boas lembranças. Ela ainda crê que exista algo bom dentro de cada um e que ninguém é totalmente mau (nem mesmo seu pai). Fernanda percebeu que nada na vida acontece por acaso.

Mas essa conexão profunda, que boa parte das pessoas começou a sentir durante a pandemia, pode carregar algo perigoso: a autossuficiência. A enfermeira não acredita que o novo normal seja se afastar dos outros. “As pessoas precisam de pessoas para viver, crescer, aprender e ver o mundo de outra forma.”

Agora, quase curada do câncer, Fernanda não vai vacilar. Assim que tudo isso passar, vai correndo fazer novos exames. Quer ter certeza de que está tudo bem. A prótese definitiva no seio chega daqui a 2 meses, quando as coisas melhorarem (é o que espera seu médico). Agora ela está pronta para o que der e vier. O futuro não é mais uma incógnita que lhe causa medo. Para Fred, a esposa está mais apegada à vida, e, por isso, o casal está colocando em prática um velho desejo que parecia nunca sair do papel.

Ela entendeu que não precisa de muito pra ser feliz e já avisou o marido: roupa não compra mais; só biquini e canga. “É nesse pouco que eu quero buscar, é nesse pouco que eu quero viver.” Os dois colocaram a casa em que vivem à venda e seguirão rumo a Aracaju, do jeitinho que sempre foi: um ao lado do outro, de mãos dadas.

Vão construir uma casa modesta, é verdade, mas Fernanda sonha com uma área de lazer grande, muito grande para receber quem lhe faz bem. Coração de mãe sempre cabe mais um. E apesar de não fazer a mínima ideia de como vai sobreviver na capital de Sergipe, ela acha que qualquer coisa lá é bom, “até vender salada de fruta na praia! Eu faço a salada de fruta diferenciada!” Nada mais impede Fernanda na busca por uma alma feliz.

A dor e a desesperança que um dia a praia simbolizou se foram, assim como o mar leva todas as coisas. Não importa onde seja, o sol sempre acompanha o casal. Ele tem o poder de iluminar, de aquecer e de trazer coisas novas. E o novo sempre vem, disso Fernanda bem sabe. Mas o sol não é o único a irradiar luz. Fred, que nutre muito carinho pela canção “Negra Ângela” assegura: é brilho demais para um só olhar. Fernanda já não espera mais pela morte; ela quer sol, ela quer luz, ela quer vida (quando pudermos viver novamente).