Ensino humano: os desafios dos professores de humanidade no EAD - Revista Esquinas

Ensino humano: os desafios dos professores de humanidade no EAD

Por Allan Gaviolli, Giuliano Lagonegro e Paulo Galvão : janeiro 6, 2021

Professores relatam dificuldades do ensino a distância durante a pandemia

Diálogo é aquela fala em que há a interação entre dois ou mais indivíduos. É contato, discussão, conversa, troca. Acordo. Na filosofia, primeiro em Sócrates e depois em Platão, é o processo de busca da verdade através de perguntas e respostas. Na contemporaneidade, é abrir as diferenças para os diferentes. O contato humano que mais se difere do animal e se aproxima do homem. É ao mesmo tempo reciprocidade, diferença, semelhança, com um toque de racionalidade.

O processo de aprendizagem requer, imprescindivelmente, a interação entre os sujeitos e, no caso do ensino das humanidades, esse diálogo é mais do que uma ponte de aprendizado, é a base de todo ensino das disciplinas humanas em si. 

“História é feita, construída e contada por pessoas. No plural. Além disso, ela tende a ser ambígua, incoerente e até mesmo contraditória em muitas partes. E dentro disso cabe a discussão, o embate das ideias – o diálogo”, diz o professor de história Duique Eduardo, 41 anos.

Afastado das escolas (e dos museus) desde março, Duique elenca como uma das questões mais difíceis para conseguir ensinar História a distância o estabelecimento claro do diálogo entre alunos e professores, que hoje viraram apenas “miniaturas de fotinhos na minha tela. E na deles também”.

Mas o diálogo não é apenas a interlocução de falas ditas. E, como observa Duique, o diálogo entre professor e aluno no digital perde não só o contato oral, mas todas as outras nuances que compõem a troca de informações entre os interlocutores. 

“O diálogo não é só a palavra falada, é também expressão corporal, facial, o diálogo é o olho no olho e na aula virtual os olhares ficam desencontrados. Existe na prática do debate um momento em que a posição das mãos, as posições do corpo se encontram e isso faz parte da linguagem que está sendo dificultada”, explica.

 “Filosofia, Sociologia, História, Artes, Letras existem sem as pessoas? Talvez. Mas deixam de existir se não há pessoas falando sobre elas. E muitas vezes fica difícil conseguir uma só palavra, um argumento, uma crítica dos alunos. A cultura do contato faz falta”, avalia Duique.

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Por zoom, falta tato, falta falas, falta gente, falta coesão. Para Duique, sobra vergonha, ansiedade e temas maus trabalhados. O professor elenca uma questão que machucou sua carreira de professor: dar uma aula sobre sufrágio feminino sem a participação de qualquer aluna – ou mulher. 

“Hoje eu gravei uma aula sobre questões de gênero na História, o papel das mulheres. Esse tipo de aula é muito difícil de dar simplesmente porque eu sou homem e meu lugar de fala não é esse. Mas quando eu tenho uma sala de aula, por exemplo na turma de Humanas, recheada de mulheres, que eu sei que tem uma boa formação, um bom conteúdo neste tema eu posso trocar o olhar com elas, pra perceber se meu discurso está completo, se meu discurso está indo em uma direção acessível. Eu posso inclusive pedir ajuda a ela para desenvolver o debate e isso fica muito mais difícil online”, exemplifica o professor. 

E falta opinião, também. Duique, que também leciona para alunos de cursinhos pré-vestibular, afirma que o feedback instantâneo que recebe durante as aulas auxilia em como ele deve prosseguir com as didáticas. Em salas de cursinho, é comum alunos interagirem com o professor para mostrarem que estão acompanhando o que está sendo dito a todo momento.

“Assovios, vaias, risos, eu sabia se estava acertando ou errando na abordagem de um tema pela recepção dos alunos na hora que eu começava a falar. Sem feedback nenhum, é impossível” 

Duique, que escolheu ser professor por amar conhecer pessoas diferentes e ser “a pessoa mais sociável que conhece”, diz que a pandemia é terrível para aqueles que amam a licenciatura como vida.

“Eu tenho alunos que eu guardo boas lembranças, mas tem alunos que eu guardo e que viraram amigos de décadas já. E isso está sendo muito dificultado, principalmente no espaço das entrelinhas, quando você tá entrando na sala de aula e faz uma piada, ou um elogio a um corte de cabelo, ou um comentário sobre um livro que você leu e acha que a pessoa gostaria de ler cria uma conexão. Essas correias que vão quebrando as carapaças das funções sociais é onde a relação do professor com o aluno vai se transformando e acho que isso faz uma falta tremenda.

Contato humano via Zoom: como ensinar Humanidades sem toque ou diálogo

Cecília Galvão, 55 anos, que trabalha há 20 fornecendo assessoria de imprensa para colégios particulares em São Paulo vê certos aspectos positivos no ensino a distância, mas também percebe que a falta do contato pessoal entre professor-aluno é extremamente prejudicial para o desenvolvimento e aprendizado dos alunos, principalmente se tratando de disciplinas que exigem uma maior interação entre as partes e de alunos mais emotivos e sensíveis que demandem mais essa proximidade humana.

“Os hiperativos que por não estarem na sala de aula, acabam por não ter a distração dos colegas. Neste caso estão se dando bem e se sobressaindo entre os outros. Agora, existem sim alunos que estão se sentido prejudicados principalmente aqueles que carecem do contato social. Quem trabalha com disciplinas com áreas que necessitam do contato pessoal estão tendo mais dificuldade nesse tempo de pandemia com o ensino remoto”, diz a jornalista.

A professora de ensino infantil, Dora Amaral, 24 anos, trabalha em uma escola particular bilíngue que perdeu mais da metade dos alunos durante a pandemia. De acordo com ela, o contato entre aluno e professor é indispensável.

“Meus alunos tem em média de 3 a 4 anos, a escola nesse período se torna indispensável. Os alunos não têm condição de entrar no computador e realizar as atividades de casa, o ensino infantil tomou um golpe severo. Não é só o ensino infantil que está enfrentando dificuldades. O Brasil  é um país que conta com uma infraestrutura tecnológica de ensino precária. Não tem equipamentos suficientes para todos os estudantes, ou, se tem, certamente não são bem distribuídos”, diz a professora. 

No final de 2019, quando o país ainda não havia sido atingido pela pior onda do coronavírus, a pesquisa TIC Educação revelou que 39% dos estudantes de escolas públicas urbanas não tinham computador ou tablet em casa. Pode-se imaginar o impacto que a pandemia teve na vida dos estudantes.