A primeira voz feminina na Champions League - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

A primeira voz feminina na Champions League

Por Anna Capelli, Marina Baldocchi e Pedro Rodrigues : janeiro 31, 2019

Da trave de chinelos para o Estádio Santiago Bernabéu, Viviane Falconi fala de narração, machismo e esporte

“Eu quero desistir”, pensou Viviane Falconi, de 33 anos, à beira da Praia de Botafogo, no Rio de Janeiro, às vésperas de um dos momentos mais importantes de sua vida: o reality show A Narradora Lay’s, do Esporte Interativo. A paixão pelo futebol é antiga: desde criança, a palmeirense teve contato próximo com o esporte por influência do pai. Descalça, divertia-se com a bola nos pés e marcava mais gols do que os meninos do bairro onde morava. O interesse pela narração veio depois: há sete anos, como produtora na Rede Vida de Televisão, encontrou-se distante do tão querido futebol, mas não imaginava que ele seria o responsável por uma nova fase em sua carreira.

A jornalista e amiga Moniele Nogueira foi peça-chave nesse processo. Dela veio o incentivo para que Vivi, como prefere ser chamada, se inscrevesse no reality show A Narradora Lay’s. Doze participantes com um único objetivo em comum: tornar-se a primeira mulher a narrar uma semifinal da Champions League, o maior campeonato de clubes do mundo.

Em entrevista, Vivi Falconi fala de sua trajetória e carreira, que contribuem para mudar a cultura machista no ambiente esportivo. Também revela detalhes do contrato com o Esporte Interativo e o novo desafio na Rede Vida.

ESQUINAS Quando foi o início mais ou menos desses projetos de narração de futebol?

Em 2015, eu participei de um concurso no Facebook de uma página de futebol para meninas. Nem lembro qual era o prêmio, mas era para pegar um trecho de futebol feminino e narrar. Eu fiz por brincadeira. No dia eu era a pior pessoa do universo, porque estava com crise de rinite e sinusite, totalmente congestionada, com crise de tosse. Ficou a coisa mais cômica e ridícula da vida.

ESQUINAS Foi gravado em vídeo também?

Sim. Peguei e mandei para a menina, que gostou e postou, mas foi uma brincadeira. Aí naquela brincadeira do #TBT [tendência de usuários realizarem publicações nostálgicas do passado acompanhadas pela hashtag], eu postei esse vídeo um pouco antes de surgir esse lance do A Narradora. Minha amiga Moniele viu e falou que eu tinha talento. Quando surgiram os rumores de que o Esporte Interativo e a Fox fariam seleções para escolher narradoras, faltando uma semana para acabarem as inscrições, fui ver do que se tratava, vi os requisitos, o que tinha que fazer, se já precisava ter narrado. Não precisava. Por influência da Moniele, gravei e postei no YouTube. Recebi vários comentários de homens falando “nossa, acho que essa menina tem chance no programa”. E aí, apita o WhatsApp do Esporte Interativo. Decidi ir para ver no que dava.

ESQUINAS E como foi lá dentro do reality show? Tanto na frente quanto por trás das câmeras.

A gente gravava muito, era muito tempo de gravação, nem na praia a gente foi. Eu só pisei na areia em um dia que quase desisti do programa. Pisei na areia para relaxar.

ESQUINAS Por que você quase desistiu?

Porque começa a vir a pressão. Você passa várias semanas longe da família, por exemplo. Nunca tinha ficado tanto tempo longe da minha mãe, tinha a questão de saúde dela, que não estava muito bem. Então vai virando uma pressão. Chegou uma hora que eu estava a ponto de estourar.

ESQUINAS O que te ajudou a não desistir?

Primeiro foi a questão da própria família. Eu falava muito com a minha irmã, que disse para eu não desistir. Aí eu fui para a praia e fiquei uma hora de pé, falando com Deus. Percebi ali que eu gosto de narrar. E o engraçado é que naquele dia uma outra pessoa da TV também me mandou uma mensagem como se soubesse o que tinha acontecido, me falando para não desistir. Naquele dia eu senti uma paz tão grande que eu falei “Seja o que for agora, ganhar ou não”. Eu já tinha ganhado muito até ali. Para mim tudo era um prêmio.

ESQUINAS Afinal, como começou a sua história com o futebol?

Desde pequenininha, desde criancinha meu pai jogava futebol. Descobri umas semanas atrás que ele tentou ser jogador do Palmeiras, mas teve que largar o treino para ir trabalhar. Ele foi o grande responsável, cresci assistindo muito futebol com ele, apesar de ele nunca ter ido em um estádio nem conseguido me levar. Com 9 anos de idade, ele me deu a minha primeira bola. Minha mãe queria matá-lo, porque naquela época era muito maior o preconceito de “uma menina no meio de um tanto de homem”. Eu jogava muito na rua, que só tinha meninos.

ESQUINAS Você jogava com eles?

Modéstia à parte, eu era melhor que eles [risos]. Jogava muito, descalça mesmo. Era o meu passatempo. Até porque também na escola não tinha o futebol para meninas. Cresci jogando na rua com os meninos, montava time e tudo mais.

ESQUINAS Você citou muito a questão de desistir, mas também a de persistir. Você acredita que nessa sociedade machista, com o machismo tão arraigado, muitas mulheres desistem? O que fazer para reverter esse cenário?

Eu acho que tem muita gente que desiste, sim. Porque você ouve muita besteira, né? A primeira semana do programa foi a mais difícil. Na primeira narração que eu fiz, o pessoal acabou com a gente nas redes sociais – a grande maioria homens. Foi muito cruel, tanto é que eu e grande parte das meninas decidimos que não iríamos mais olhar as redes sociais. Acho que isso foi um ponto positivo, porque a gente parou de ficar lendo e querer comentar, querer articular com alguém.

ESQUINAS Você acha que, enquanto Viviane Falconi, há uma contribuição para mudar essa cultura de machismo na sociedade, sobretudo no Brasil?

Eu acho que sim, até pelo feedback que eu recebo hoje em dia. Depois desse concurso, está abrindo. Não estou falando para você que não tem, mas acho que hoje os espaços estão melhores. Você já vê muito mais mulheres narrando. Tem até emissoras focadas nisso, principalmente via streaming, Facebook, YouTube. Transmissões cem por cento femininas.

ESQUINAS Como foi narrar a semifinal da Champions League?

Foi fantástico! Eu acho que Deus faz a gente viver alguns sonhos. Eu nunca tinha ido para fora do Brasil. Acho que foi uma forma de Deus realizar um sonho meu. Cresci assistindo Cristiano Ronaldo, Modrić, Marcelo – que é um cara que eu admiro pra caramba. Na hora que me vi lá, diante deles, nos treinos, às vezes achava que não era real, me beliscava. Era uma coisa muito grande, um sonho que eu estava realizando de poder narrar grandes nomes do futebol.

ESQUINAS Nesse meio período, você foi convidada pela Rede Vida, casa que já trabalhava antes de participar do concurso, para narrar os jogos de futebol. Como é que foi essa relação com o canal?

Eu achei muito legal da parte deles, muito interessante e eles tiveram a coragem que talvez outros canais não tiveram, que foi a de colocar duas mulheres para narrar e comentar – é uma transmissão totalmente feminina: quando uma narra, a outra comenta e vice-versa. Recebi com a maior alegria, de peito aberto, é um espaço em que eu estou aprendendo e crescendo pra caramba. Narrar sub-17 está sendo uma experiência incrível. E isso só é possível porque a emissora olhou e falou “vamos valorizar as pratas que a gente tem em casa. São duas meninas boas no que fazem”. E está dando certo o resultado.

ESQUINAS Com esse trabalho, você acha que os homens estão te vendo de uma outra forma?

Quando eu retornei do programa, a recepção deles da emissora foi muito legal. Eles até fizeram camisa para torcer. Com os meninos, é muito legal, eu já falava muito com eles sobre futebol. Toda vez que nos vemos, trocamos uma ideia sobre futebol, eles acompanham no sábado, mandam mensagem, foto com a TV ligada. A relação está bem legal. Na verdade, quando eu voltei, recebi outro presente, a direção de um programa, o Bela Itália. Lógico, agora estou trabalhando mais. Tem a parte de produção, direção e o futebol.

ESQUINAS Que reflexão você deixa para seus fãs, sobretudo as mulheres, pensando no machismo na nossa sociedade e na inserção feminina no futebol?

Eu costumo falar que é um muro que, para derrubar, você vai ter que ir tirando pedra por pedra. Muita gente acha que indo com a pé na porta vai conseguir. A gente tem que ver as pessoas mais velhas, como elas enxergam, foram criadas de uma outra forma. Tem profissão que há mulheres que gostam e sabem fazer – aliás, muito bem, tanto quanto homens. Só que elas precisam desse espaço. E esse espaço a gente precisa ocupar também. Não adianta eu querer ser narradora, mas não ter onde fazer. Uma coisa interessante também é a mulher estudar para isso, se preparar, cuidar da sua voz, porque a gente tem que ter todos esses cuidados. Se o povo já fala mal de narrador homem quando o narrador solta um grito mais estranho ou fala um nome de jogador errado, imagina se eu falar. Para ocupar um lugar você tem que estar preparado. Acho que o machismo a gente não vai derrubar da noite para o dia, só que já está caminhando.