Fora das Olimpíadas, escaladores brasileiros lutam pela profissionalização do esporte - Revista Esquinas

Fora das Olimpíadas, escaladores brasileiros lutam pela profissionalização do esporte

Por Tiago Oliveira Baldasso : julho 26, 2021

Escalada estreia em Tóquio sem atletas do Brasil, que buscam abrir caminho para futuras gerações mesmo com pouco incentivo

Cesar Grosso suspira, mirando o fundo da arena. As feições joviais e os braços definidos disfarçam os mais de vinte anos dedicados às competições. Olhar concentrado, chacoalha o excesso de pó das mãos e vira em direção à parede. Com o pé na largada, Grosso apoia as mãos na primeira das vinte agarras vermelhas presas ao muro e olha para o alto. Após o toque da sineta, dispara na vertical, em um tiro. Por alguns segundos, durante a escalada, a sensação é de que a gravidade foi desligada.

Aos 37 anos, Cesar Grosso é o escalador mais rápido do Brasil. No ano passado, nos Jogos Pan-Americanos de Los Angeles, quebrou o recorde brasileiro de escalada em velocidade: venceu o muro de 15 metros em 6,88 segundos. Cesinha, como é conhecido, chegou a disputar a final da competição, mas terminou em 7º lugar. Façanha histórica para um brasileiro, mas insuficiente para garantir uma vaga em Tóquio, onde a escalada esportiva fará sua estreia nas Olimpíadas, no dia 3 de agosto. Serão 40 escaladores competindo pela medalha olímpica – nenhum deles sul-americano.

Cesinha anunciou recentemente sua aposentadoria das competições. O atleta sai de cena em meio a um ponto de inflexão no esporte: antes quase uma subcultura, organizada à margem dos holofotes, a escalada vive hoje uma profissionalização às pressas, fruto da indicação olímpica do esporte.

Na escalada em velocidade, todos largam atrás

Até pouco tempo atrás, os 15 metros da parede de velocidade eram território estranho aos brasileiros. Por décadas, o foco das competições de escalada foram as duas modalidades tradicionais: dificuldade e boulder. Não havia sequer um muro de velocidade adequado no Brasil – altura, inclinação e agarras devem seguir precisamente as diretrizes da Federação Internacional de Escalada Esportiva (IFSC).

Em Tóquio, a ideia inicial do Comitê Olímpico era trazer só a escalada em velocidade: rápida, explosiva, de maior apelo visual. Afinal, é mais fácil impressionar o público com um tiro de speed do que com as nuances de estratégia e equilíbrio típicas de dificuldade e boulder. Após protestos, a IFSC conseguiu negociar a inclusão de todas as disciplinas, mas com a difícil missão de combinar as três provas em uma única medalha.

As três escaladas em Tóquio

Dificuldade (lead) – Feita em paredões verticais, de 15 metros ou mais. O objetivo é chegar o mais alto possível dentro de 6 minutos e os atletas escalam protegidos por uma corda, que devem afixar em mosquetões presos à parede. Cada atleta tem uma tentativa, e em caso de queda, vale o ponto mais alto alcançado. É considerada a modalidade mais tradicional.

BoulderEscalada explosiva, feita em muros baixos, de 4,5 metros. O objetivo é chegar no topo no maior número de boulders possível dentro de 4 minutos. Atletas podem cair e tentar novamente, e escalam sem corda, protegidos por um colchão no solo.

Velocidade (speed) – Distante das outras modalidades, a speed consiste em um tiro vertical em um muro de 15 metros, com agarras padronizadas. Atletas competem lado a lado, como em uma corrida, vencendo o melhor tempo.

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A estratégia de começar em um modelo combinado e crescer a partir daí deu certo. Nos próximos jogos, em Paris, foram garantidos pódios separados para velocidade e para as modalidades tradicionais.

Para Tóquio, no entanto, a maioria dos atletas teve que começar a treinar velocidade do zero, já que, por via de regra, quem se especializa em speed não compete nas modalidades tradicionais e vice-versa. “É como colocar o Usain Bolt para correr uma maratona e depois a corrida com barreiras”, comenta Shauna Coxsey, atleta britânica e bicampeã da Copa do Mundo de boulder.

A mudança também pegou de surpresa a brasileira Bianca Castro, 32 anos, três vezes campeã brasileira de dificuldade. Moradora de Arco, capital italiana da escalada, Bianca costuma cruzar regularmente com escaladores de alto nível nas falésias que cercam o vilarejo, situado no pé dos alpes: “Conseguimos conversar com atletas de elite e vimos que a mudança não foi bem recebida por ninguém.”

Apesar do contratempo, a carioca não desanimou: “Tivemos que aceitar que teríamos que aprender uma nova modalidade e começar do zero. Depois que você pega o jeito, é muito legal ver a evolução. A competição acaba sendo reflexo do treino, já que na velocidade não tem o fator surpresa do boulder e da dificuldade.”

O entusiasmo da atleta rendeu frutos. No ano passado, a escaladora levou para casa o campeonato brasileiro de velocidade, impulsionada pelos treinos que pôde fazer em Arco, cidade que conta com um muro de velocidade oficial. No Pan, no entanto, a carioca ficou em 16º, longe da vaga olímpica.

Apesar das conquistas, Bianca conta que ainda não é possível se dedicar exclusivamente ao esporte. A carioca concilia os treinos com o trabalho no ramo da consultoria, já que as verbas obtidas junto às associações são tímidas frente aos gastos em euro.

No muro e na carreira, jogo de cintura é fundamental

Veterana como Bianca, a atleta Patrícia Antunes, 35 anos, começou no esporte mais tarde, aos 23. Não foi um problema: após um 2º lugar já no primeiro campeonato, ela se animou e mergulhou nos treinos. Nos anos seguintes, venceu oito campeonatos mineiros e dois brasileiros.

“Eu acho que é melhor começar cedo, mas a escalada é um desses esportes que permite um início tardio. Nunca achei que fosse me tornar profissional, nem atleta de seleção nenhuma”, conta Pati, como é chamada.

Até pouco tempo, a mineira se dividia entre os treinos e uma pequena empresa de alimentos saudáveis, mas a conquista do brasileiro em 2017 fez com que decidisse se dedicar exclusivamente ao esporte.

Formada em relações públicas, Patrícia uniu o carisma à experiência de empreendedora, construindo uma presença forte nas redes sociais, onde dá dicas de treino e nutrição para escalada. Através das redes, a mineira conseguiu atrair a atenção de marcas, conseguindo apoios e patrocínio.

A ficha caiu através do comentário de um amigo, que estava estudando marketing: “Ele veio e falou: ‘olha a Sierra Blair, que é escaladora e também modelo. Super articulada, comunicativa e não necessariamente ganha todos os campeonatos’.”

O comentário fez a mineira entender que podia expandir a marca pessoal para fora das competições. “Percebi que eu posso me articular, usar o meu conhecimento. Se você vai pedir apoio a uma empresa, tem que mostrar para eles quem você é, o que pode dar em troca. Tem que ser cativante, encantador”, explica a atleta. “É incrível ser da Seleção, é um título que eu estampo com orgulho, mas só com o que a gente recebe [das associações] não dá.”

Botando ordem na casa

A paulistana Thais Makino, de 33 anos, completa o trio de veteranas da seleção brasileira. Parceira de Pati Antunes no podcast SitStart, no qual debatem temas de escalada sob uma perspectiva feminina, Thaís já venceu oito campeonatos brasileiros.

Começou na escalada aos nove anos, influenciada pela irmã mais velha e pelos pais, que ajudavam como voluntários nas competições. Foi aos 13 que começou a treinar “sério”,  ao lado de Cesar Grosso. Na época, só havia um ginásio na capital paulista.

Thais foi uma das protagonistas da escalada brasileira na última década, quando um grupo de atletas botou a mão na massa para tirar o esporte da letargia. Em 2013, devido a imbróglios administrativos, não houve campeonato brasileiro. Foi a gota d’água para Thais:

“Estávamos preocupados, não sabíamos o que ia ser da escalada esportiva no Brasil se a gente não se organizasse. A confederação não dava a prioridade necessária e a gente se sentia deixado de lado”, lembra a atleta.

Frustrada com essa falta de perspectiva, Thais se juntou com Bianca Castro, a escaladora Janine Cardoso e o paraclimber Rafael Nishimura para fundar em 2014 a ABEE, o novo corpo organizador do esporte no Brasil.

Com a indicação olímpica da escalada, a ABEE passou a contar com recursos do Comitê Olímpico Brasileiro: os atletas agora contam com o bolsa-atleta e com uma equipe de apoio. Além disso, veio a promessa de construção de um centro de treinamento novo em Curitiba.

No sul do País, um berço construído na rocha

Antes de escalar, é boa prática fazer uma leitura prévia da rocha, geralmente através de croquis – desenhos que esquematizam as vias de escalada, indicando a sua dificuldade.  Se for um local conhecido, é possível encontrar dicas até no YouTube. Ao pesquisar a “Mouse”, via clássica no pé da Serra Gaúcha, o primeiro vídeo que aparece é o da menina Amanda Criscuoli.

Com apenas nove anos, a garota sobe com calma, executando com precisão os movimentos que para alguns são tarefa árdua. De fardamento rosa, ela brinca com a câmera: “O nome da via é Mouse, mas eu nunca vi rato nenhum por aqui.”

Amandinha, como é conhecida, hoje com 14 anos, faz parte da equipe juvenil da ABEE. A gaúcha, filha de pais escaladores, teve o primeiro contato com a rocha aos três anos. Com seis, pediu aos pais para começar a treinar e com oito já participava do primeiro campeonato. Amanda adorou o clima da competição, e desde então não parou mais.

“No começo meus pais inventaram brincadeiras: eu escalava um trecho e depois balançava na corda. Depois de um tempo, nem queria mais fazer o balancinho, só escalar.”

O apoio dos pais foi fundamental. Foram eles que tiveram a ideia de utilizar as redes sociais para contar a história da filha. Com diversas postagens e um site pessoal que conta até com uma lojinha, Amandinha parece compartilhar da mesma veia de Pati Antunes: trabalha a marca pessoal com o mesmo entusiasmo dedicado aos treinos.

“A gente começou a perceber que eu podia contar minha história, mostrar um pouco desse estilo de vida. Aquilo começou a crescer e pelo Instagram consegui vários apoios, patrocínios e entrevistas.”

Passando o bastão da escalada

Além da categoria juvenil, a ABEE abriga também a seleção principal, na qual um mix curioso de idades chama a atenção: os atletas parecem se dividir em dois grupos: um em torno dos 30, outro abaixo dos 21. Parece uma escolha intencional, como se uma geração complementasse a outra.

Os veteranos brigaram pela profissionalização do esporte. É a turma da Thais e da Bianca, que cortou o mato alto e lutou pelo mínimo de estrutura, enquanto conciliava os treinos com obrigações pessoais. Os mais jovens estreiam nas competições sob esse legado, com uma estrutura que até pouco tempo atrás era impensável.

Nesse ânimo, pode ser que nessa década ainda tenhamos a satisfação de ver um atleta brasileiro subindo os muros – e quiçá o pódio – em alguma capital olímpica.

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