Das gravatas às chuteiras: por que o futebol necessita de ações afirmativas raciais? - Revista Esquinas

Das gravatas às chuteiras: por que o futebol necessita de ações afirmativas raciais?

Por Carlos Lírio, Júlia Mei, Letícia Mutchnik, Matheus Ribeiro e Victória Oliveira : julho 21, 2021

Desde o caso do “pó-de-arroz”, em 1914, essa linha do tempo faz uma retrospectiva dos casos de racismo mais emblemáticos do futebol brasileiro.

“Eu fiquei muito frustrado e decepcionado. Só fiquei sabendo do que aconteceu após o jogo. Se eu soubesse na hora, com certeza não iria responder por mim, não sei o que eu faria com aquele cara… Lembro que na ocasião eu perdi até a vontade de jantar.”

A sensação descrita por César Henrique Nogueira, ex-jogador de futebol profissional, é quase rotineira entre os jogadores pretos. No Brasil, há um levantamento inédito do Globo Esporte de 2019 feito com 163 jogadores e treinadores que comprova: quase metade dos atletas das séries A, B e C já sofreram racismo.

O sentimento de impotência e impunidade no meio futebolístico reforça como o racismo ainda está presente dentro e fora dos gramados, além de reverberar o descaso das instituições e falta de interesse em punir os racistas à vera.

César, à direita, ao lado de Ismail Alarid, seu ex-companheiro de equipe, em sua passagem pela equipe da Juventus da Suécia. (Foto: Acervo Pessoal)

César, um ex-centroavante de 30 anos, já jogou em diversos times no Brasil. Passou pelas categorias de base de clubes como a Portuguesa e o Corinthians, além de atuar como profissional no Vila Nova, de Goiás, e no Cene, equipe sul- matogrossense. Seu talento fez com que se destacasse, o que culminou em uma oportunidade de jogar na Europa entre 2015 e 2017, mais precisamente na Suécia, onde vestiu as camisas de três clubes: Juventus IF, IFK Norrköping e Örebro SK.

As experiências no exterior trouxeram-lhe boas histórias, mas também acarretaram momentos de tristeza.

César complementa dizendo que ficou extremamente chateado com a situação e que houve uma grande quebra de expectativa do que seria sua vida na Europa após o acontecido. A discriminação ocorreu logo em seu sexto jogo pela equipe da Juventus.

Atitudes racistas tinham ainda mais força nos primeiros anos do futebol no Brasil, período em que o esporte era praticado majoritariamente pela elite do país. A inserção do negro no jogo brasileiro se deve à atitude de alguns clubes. Dentre eles, destaca-se a Ponte Preta, de São Paulo, que teve Miguel do Carmo, um dos primeiros jogadores negros do país, como um de seus fundadores. A instituição também é chamada de “macaca”, um apelido pejorativo que acabou caindo no gosto dos torcedores.

O Bangu, do Rio de Janeiro, é outro clube importante nessa luta. Ele boicotou e abandonou, em 1907, a Liga Metropolitana, que havia proibido a inscrição de jogadores negros nos clubes, além de ter sido campeão da Segunda Divisão do Campeonato Carioca em 1911, sendo considerada a primeira equipe a ser campeã com jogadores pretos no elenco.

A equipe do Vasco foi campeã da 1ª Divisão do Campeonato Carioca em 1923 com 11 vitórias, dois empates e apenas uma derrota. (Foto: Reprodução)

O Vasco da Gama também temdestaque no processo de inclusão racial, sendo o primeiro clube comandado por um presidente negro, Cândido José de Araújo, em 1905. Além de sair vitorioso em 1923 com um elenco bem miscigenado. Por conta disso, a equipe foi boicotada em alguns campeonatos, mas nunca abriu mão de incluir negros e operários.

O racismo escancarado no início da prática esportiva no país transformou-se, atualmente, em algo mais velado, mas ainda muito praticado, tanto na Europa, como ocorrido com César, como no Brasil, que ainda possui muitos casos de discriminação racial em seus campeonatos.

Marcel Diego Tonini, doutor e mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), integrante do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (LUDENS-USP) e editor do site Ludopédio, com ênfase na área de Sociologia do Esporte e História Sociocultural do Futebol, explica o motivo pelo qual o racismo continua tão presente nos dias atuais e o que se pode fazer para combatê-lo.

Por que o racismo ainda é tão forte no futebol?

Segundo Tonini, o futebol é um reflexo da sociedade. Logo, se a sociedade é racista, o meio futebolístico também tende a ser. “Em primeiro lugar temos que entender que o futebol faz parte da sociedade como um todo. Então, se a sociedade é racista, não tem como o futebol ser diferente. É evidente que cada esfera da sociedade reproduz esse racismo de uma determinada forma, e o futebol vai reproduzi-lo em suas mais variadas esferas.”

O historiador social ainda conclui que o racismo não ocorre apenas entre a relação torcedor-jogador, visto que a estrutura do esporte em si já é racista.

“Costuma-se olhar muito para a questão do racismo vindo da torcida em direção aos jogadores, mas se a gente for olhar dentro do universo futebolístico vamos perceber outras situações racistas também que não envolvem torcedores. Nós não vemos presidentes, técnicos, nem qualquer outro tipo de integrante negro nas comissões técnicas. Onde vamos encontrá-los? Enquanto atletas ou em profissões com status bem baixos, como roupeiros, massagistas, seguranças e outros. Isso revela como o futebol é racista na sua estrutura e ele acaba reproduzindo na sua maneira esse racismo, que, na verdade, é de toda a sociedade.”

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Zé Roberto também atuou pelo Palmeiras e se aposentou no clube em 2017. (Foto: Divulgação/ Ag. Palmeiras/ Estadão)

De acordo com um levantamento de 2019 do site Superesportes, apenas três entre 100 dirigentes e treinadores da Série A eram negros: o técnico Roger Machado, do Bahia; o diretor do Grêmio, Deco Nascimento, e o assessor de futebol do Palmeiras, Zé Roberto. A investigação levou em conta os cargos de presidente, vice-presidente, diretor, gerente, executivo, coordenador, supervisor e técnico (inclusive os interinos) dos vinte clubes da elite do futebol brasileiro. Mesmo considerando a auto identificação de cor por parte dos entrevistados, a pesquisa não localizou relatos em que os outros 97% tenham se declarado negros.

Assim como os clubes, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) tampouco abre espaço para o negro. Em suas treze diretorias, desde desenvolvimento do futebol até tecnologia da informação, não há sequer um indivíduo negro. Em toda sua história, a entidade nunca foi presidida nem contou com um técnico afrodescendente.

Tais dados revelam que o preconceito racial no futebol está presente desde os bastidores do jogo até os casos mais explícitos. O Observatório da Discriminação Racial no Futebol fez um levantamento dos casos de racismo que se tornaram públicos desde 2014.

Relatório concluído em abril de 2020 pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol. O documento aponta um crescimento de 70% nos casos de racismo nos estádios. (Fonte: Observatório da Discriminação Racial no Futebol)

Mesmo com um aumento exponencial no número de casos registrados, o preconceito está presente nos gramados desde sua origem, época marcada por clubes altamente elitizados e maciça discriminação.

A impunidade também é outra questão que está diretamente atrelada com essa discriminação desde sempre. Para Marcel Tonini, as entidades se importam muito pouco com o preconceito e não visam combatê-lo efetivamente, muito pelo fato delas serem compostas majoritariamente por homens brancos nas posições de liderança, que querem manter os seus privilégios. Dessa forma, a pauta não é a mais importante, tampouco atrativa para as organizações.

Ele também completa dizendo que, ao invés de realizar atitudes que de fato combatam a discriminação racial, as notas de repúdio são travestidas por campanhas e hashtags que não fazem a mínima diferença na luta contra o preconceito.

“Por que a CBF, que arrecada mais de meio bilhão de reais por ano, não pode doar uma porcentagem, nem que seja irrisória, para entidades como o Observatório da Discriminação Racial fazerem seu trabalho? No Brasil, é muito fácil mascarar essa questão, qualquer Federação de futebol vai e solta uma hashtag com “vidas negras importam”. O Campeonato Brasileiro começou há pouco mais de um mês e o que nós vimos? Vimos algo parecido com as campanhas que ocorreram na NBA (Liga de Basquete Americana)? Longe disso! O máximo que a gente vê é algum time entrando com uma faixa da CBF com os dizeres “somos iguais”, mas isso não vai mudar nada.”

O historiador também cita o que acontece na Europa como exemplo, e faz importantes ressalvas.

“A Federação Internacional de Futebol Association (FIFA) dá um suporte ao Football Against Racism in Europe (FARE), que, traduzindo, seria Futebol contra o Racismo na Europa, há mais de vinte anos. Ela trabalha dentro da FIFA com uma renda disponibilizada pela própria associação. Desde 2006, a entidade que luta contra o racismo esteve presente em todas as Copas do Mundo, e conseguiu identificar catorze atos racistas. O que aconteceu com quem cometeu tais atos? Nada!”

“A FARE consegue mudar a estrutura da FIFA? Não consegue, até porque suas ações são muito limitadas. Valeria a pena o Observatório ser encampado pela CBF e ser usado por clubes que querem alguma chancela de que fazem alguma coisa contra o racismo, mas só estão usando aquela entidade para propagar uma imagem, quando na verdade não fazem nada.”

Outra questão recorrente que está diretamente atrelada a isso é a omissão dos próprios atletas. Após uma breve comparação do contraste de posicionamento entre os jogadores do basquete americano e os do futebol brasileiro, o ex-goleiro Aranha, vítima de um dos episódios de racismo mais marcantes do futebol nacional e, atualmente, colunista do portal UOL, foi entrevistado para essa matéria e explica por que existe essa diferença. Ele também afirma que ainda temos diversos reflexos de uma tardia abolição da escravidão.

Matheus Ribeiro · Aranha falando sobre a omissão dos atletas

De acordo com a revista Forbes, a NBA é a liga que mais possui jogadores na lista anual dos 100 atletas mais bem pagos do mundo de 2020.

Marcel ainda complementa dizendo que não adianta cobrar uma postura dos atletas brasileiros hoje, sendo que ao longo de dez, vinte anos de carreira, desde as categorias de base, eles nunca tenham sido ensinados e estimulados a falar sobre isso. Segundo ele, “não é porque agora que a imprensa esteja olhando e falando mais dessa questão do racismo (e em breve vão esquecer desse assunto mais uma vez) que os futebolistas negros vão ser procurados no intuito de falar sobre isso. Eles não vão saber o que comentar, porque nunca foram estimulados a pensar e falar sobre. Nos Estados Unidos isso já faz parte da cultura esportiva deles. Além de Muhammad Ali, tivemos outros diversos atletas que se posicionaram contra o racismo no esporte, como nas Olimpíadas de 1968, até porque essa cultura esportiva é fruto de todo o movimento negro exercido lá. Mesmo tendo sofrido um preconceito abominável, tanto o John Carlos quanto o Tommie Smith (que protagonizaram o pódio de premiação daquela Olimpíada) foram expulsos do desporto nos EUA pelas suas atitudes de resistência. Fazendo uma comparação com o presente, o que fizeram com o Colin Kaepernick na NFL em 2016? A mesma coisa! Ele está até hoje sem atuar. Embora seja uma sociedade que tenha um histórico de luta e resistência, os americanos, assim como nós, também evoluíram pouco.”

Colin Kaepernick em protesto durante execução do Hino Nacional Norte-Americano em 2016. (Foto: Ted S. Warren/Associated Press)

Não é somente nos Estados Unidos que os atletas têm graves consequências em suas carreiras pelo fato de se posicionarem politicamente. De acordo com entrevista ao veículo Brasil de Fato em 2020, o próprio Aranha afirma que “pagou com a carreira” e diz que desde seu posicionamento, em 2014, ele percebeu que os clubes deixaram de procurá-lo: “Percebi uma má vontade comigo… Por mais que eu estivesse concentrado no jogo, aquilo não saiu da minha mente. Então eu decidi tomar aquela decisão e não me arrependo. Paguei com a minha carreira? Paguei. Me arrependo? Não”.

Equal seria a alternativa para que toda essa discriminação fosse, ao menos, minimizada?

Dentre as possibilidades, as ações afirmativas seriam meios viáveis de combater as desigualdades dentro do futebol, tendo em vista que elas são políticas públicas voltadas para grupos que sofrem algum tipo de preconceito. Dessa forma, buscando oferecer igualdade de oportunidades a todos.

O promotor de justiça do Ministério Público de São Paulo Christiano Jorge Santos relata essa questão em seu livro Crimes de Preconceito e de Discriminação, de 2010. Segundo ele, não é à toa que seja necessário encontrar soluções para que essa desigualdade nos diversos âmbitos da sociedade diminua.

“Considerando, por fim, que não se legisla sobre o abstrato, sobre o intangível, e nossa constituição federal e normas infraconstitucionais foram e estão sendo elaboradas sobre o assunto, levando-se em conta que mais da metade (57%) dos negros com nível universitário entrevistados pelo Datafolha disseram já terem se sentido discriminados por causa de sua cor e 35% do total dos negros entrevistados também, não há como se ignorar a existência da discriminação.”

Com as ações afirmativas sendo colocadas em prática, um número maior de indivíduos negros assumiria cargos importantes nos bastidores das entidades esportivas, enrijecendo as punições e diminuindo consideravelmente o número de casos de racismo. Em algum momento, essa inclusão também iria refletir dentro de campo, com um número maior de treinadores negros, por exemplo. Por ser um cargo que necessita de grande entendimento do jogo e avançado nível intelectual, os negros, subjugados como menos inteligentes, têm pouquíssimas oportunidades para mostrar seus conhecimentos.

Em declaração à revista Placar em 2013, o ex-técnico Lula Pereira diz que o preto é visto apenas como um “tampão” pelos clubes. Depois de anos de carreira, Lula percebe que o ostracismo vivido por ele não está relacionado à competência, mas sim à cor de sua pele.

“Já ouvi de empresários: ‘O pessoal do clube gostou do seu perfil, mas, me desculpe, você é preto’”, afirma o ex-treinador.

Desde 2003, a NFL, liga de futebol americano dos Estados Unidos, adota o sistema de cotas raciais. Pela Regra Rooney, todas as franquias são obrigadas a entrevistar pessoas de minorias étnicas para cargos diretivos, como treinadores e executivos. A lei também exige que pelo menos um candidato a coordenador, general manager ou gerente de operações seja enquadrado em algum grupo minoritário.

Para o ex-goleiro Aranha, as ações afirmativas são como remédios emergenciais.

“Eu costumo dar o exemplo da dor de cabeça. Quando você está com dor de cabeça, você toma uma medicação para aliviar a sua dor, mas depois você tem que procurar um médico para ver a origem da dor e solucionar o problema. Então, as ações afirmativas visam isso, aliviar um problema que está muito forte, mas enquanto isso a causa do problema precisa ser resolvida. Muitas pessoas são contra as ações afirmativas, mas também não fazem nada para solucionar o problema.”

Por mais que seja lembrado constantemente pelo trágico episódio de racismo que sofreu, o ex-goleiro Aranha conquistou diversos títulos na carreira, como Libertadores, Recopa Sul-Americana e dois Campeonatos Paulistas entre 2011 e 2012 pelo Santos (Foto: Jorge Rodrigues/Eleven)

Incrementando essas ações afirmativas aos poucos no mundo futebolístico, o cenário discriminatório atual poderia ter uma melhora significativa, o que seria um grande avanço para uma mudança estrutural. Além dos posicionamentos, são necessárias atitudes práticas para que o futebol, esporte que tinha tudo para ser o mais inclusivo possível, jogue seu preconceito racial para escanteio e expulse os racistas.

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