20 anos após 11/9, especialistas explicam fracasso da Guerra ao Terror no Afeganistão - Revista Esquinas

20 anos após 11/9, especialistas explicam fracasso da Guerra ao Terror no Afeganistão

Por Isadora Costa e Maria Clara Villela : setembro 9, 2021

Com a promessa de combater terrorismo, Guerra ao Terror fortaleceu grupos extremistas e, 20 anos depois, ainda deixa rastros

11 de setembro de 2001. Data histórica que deixou 2.996 mortos no atentado às Torres Gêmeas em Nova York e levou os Estados Unidos à mais longa guerra de sua história. A “Guerra ao Terror”, instaurada pelo então presidente americano George W. Bush, era uma campanha militar com a promessa de combater o terrorismo ao redor do mundo. Mas o resultado dessas disputas não convencionais, em que o inimigo não é um país, e sim determinados grupos, foram anos de ações militares, trilhões de dólares gastos e incontáveis mortes e suicídios.

Os ataques comoveram desde os cidadãos americanos mais patriotas até qualquer pessoa que passasse na frente de uma televisão naquele dia. Com a cobertura incessante do 11 de setembro, a mídia ajudou a criar estereótipos e a focar em um inimigo.

É o que afirma o cientista político Antonio Henrique Lucena Silva, 41 anos: “Na medida que você tem essas notícias e não se faz essa devida diferenciação, a mídia realmente ajuda a criar essa imagem do árabe. Isso se forma também por conta da construção de narrativas, em que o público interno fica satisfeito e isso legitima ações no exterior”. A construção de uma narrativa maniqueísta criada pelos Estados Unidos, aliada ao medo da população e à necessidade de obter justiça, contribuiu para o desenrolar dessa guerra.

Doutrina Bush

Com a Doutrina Bush em curso, ações sem precedentes dos EUA desestabilizaram muitos países do Oriente Médio, como o Afeganistão, invadido em 2001 acusado de patrocinar a organização terrorista Al-Qaeda, responsável pelos ataques de 11 de setembro.

De acordo com o geógrafo Rogério Carneiro Piccinin, 40 anos, “todo país, não importa a situação, vai defender interesses próprios, mesmo que pareça que ele está defendendo alguém ou ajudando qualquer outro grupo. O grande interesse dos Estados Unidos nesse caso era garantir que ali [no Oriente Médio] existissem governos favoráveis ao ocidente, garantindo influência na região e tendo acesso ao petróleo”.

A política imperialista americana se mostrou  um fracasso ao longo dos anos, levando a consequências catastróficas para os países afetados, com milhões de vidas perdidas e desorganização geoecopolítica e econômica no Oriente Médio. “O inimigo era um grupo infiltrado na população civil, que não tinha nada a ver com isso. Eles bombardearam cidades e obrigaram pessoas inocentes a participar dessa guerra que trouxe prejuízo para todos os lados”, afirma Rogério.

Na Guerra do Afeganistão, mais de 2,3 mil militares americanos foram mortos e mais de 20 mil foram feridos. Mas os mais prejudicados foram os afegãos: foram mais de 60 mil mortes nas forças de segurança e quase o dobro de mortes civis.

“Os americanos jogam o jogo do jeito deles, eles colocam as tropas e derrumbam governos quando é conveniente, eles apoiam um grupo x e quando não é mais conveniente, eles retiram o apoio, as tropas e a população fica desamparada”, explica.

É o caso do próprio Afeganistão. Com a recente saída dos Estados Unidos, prevista para ser concluída na data simbólica de 11 de setembro, o país viu o grupo fundamentalista Talibã assumir o poder e ameaçar os direitos dos cidadãos.

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Afeganistão

O caos e a destruição se tornaram rastros das invasões americanas em países como Afeganistão e Iraque, mesmo após a retirada das tropas americanas. “Internacionalmente falando, se por um lado a Guerra ao Terror conseguiu conter o terrorismo internacional, ela também fortaleceu certos grupos, porque essa guerra não pode ser travada para sempre já que não é convencional”, explica o geógrafo.

“A partir do momento que as tropas são retiradas, esses grupos acabam ocupando o espaço que elas deixaram, esse vácuo de poder, como ocorreu com o Talibã e o Estado Islâmico [EI]. Além disso, esses grupos têm uma projeção internacional, podendo financiar e praticar atentados fora do seu território, desestabilizando países vizinhos”, completa.

afeganistão

O santuário de Zakr al-Deen, sagrado para os muçulmanos xiitas, foi destruído pelo Estado Islâmico.
Levi Meir Clancy

A saída dos Estados Unidos do Afeganistão seria o fim da Guerra ao Terror travada há mais de 20 anos? Segundo o cientista político, “houve uma mudança geopolítica e geoeconômica com a ascensão da China, que agora não pode ser desprezada. A China atualmente é vista como prioridade para os EUA, já que afeta diretamente a economia americana”. Por isso, em sua análise, o foco dos Estados Unidos agora é outro, e os americanos não estão mais dispostos a gastar bilhões de dólares mensais em uma política que não faz mais sentido para eles.

Entretanto, o pronunciamento de Joe Biden após a morte de soldados americanos, vítimas de um atentado no aeroporto de Cabul, capital do Afeganistão, pode indicar o contrário. Debates na internet surgiram acerca da possibilidade de a guerra não ter acabado, apenas ganhado uma nova configuração. “Não vamos perdoar, não vamos esquecer, vamos caçá-los e vamos encontrá-los. Vocês vão pagar pelo que fizeram.  Dei ordem para retaliar contra as lideranças do Isis-K [Estado Islâmico da Província de Khorasan, braço regional do EI]”,afirmou o presidente americano.

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