Israel x Palestina: especialista explica contexto histórico e implicações do novo conflito  - Revista Esquinas

Israel x Palestina: especialista explica contexto histórico e implicações do novo conflito 

Por Lara Sanchez : maio 22, 2021

Karina Calandrin, doutora em Relações Internacionais, analisa confronto que já dura décadas

“Todos os povos têm direito à autodeterminação e um Estado nacional próprio e reconhecido. A luta por esse direito é o ponto que os une”, diz Karina Calandrin, doutora em Relações Internacionais e especialista em Israel, sobre o conflito mais recente entre o país e a Palestina. Ela lamenta que a situação fomente o antissemitismo, uma vez que muitos não compreendem que judeus são, antes de tudo, um povo.

Uma trégua entre o grupo palestino Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) e as forças armadas israelenses foi anunciada, com um acordo de cessar-fogo mútuo, nesta quinta-feira, 20 de maio. A resolução foi feita após um violento embate de 11 dias, que deixou ao menos 240 mortos. O aval, contudo, não determina os rumos que o conflito poderá tomar no futuro.

Uma série de ataques havia sido iniciada após uma operação policial de Israel, no dia 11 de maio, na Mesquita de Al-Aqsa, na Cidade Velha de Jerusalém, cujo domínio é disputado entre judeus e muçulmanos desde a criação do Estado de Israel, em 1948. O caso teve destaque na mídia internacional, trazendo à tona novamente o debate entre Israel e Palestina e chamando atenção para os conflitos no Oriente Médio.

Nos últimos dias, foram relatados choques, como o de Sheikh Jarrah, bairro em Jerusalém. Um grupo de israelenses invadiu a região e tentou despejar famílias palestinas de suas casas. No final de abril, o clima já havia se acirrado com o adiamento das eleições palestinas.

Esses episódios, no entanto, não se deram de forma isolada — uma sucessão de fatores históricos perpassam confrontos como esse. Ao travar mais um embate, o território retoma uma luta de décadas pela liberdade e reconhecimento da soberania palestina. Com a proporção tomada pelos conflitos da última semana, o movimento #FreePalestine fomentou discussões sobre essa relação histórico-social.

A relação Israel x Palestina

A internacionalista afirma que, hoje, não há relação diplomática entre Israel e Palestina. O atual primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu não reconhece quaisquer entidades palestinas como representações oficiais do território. Segundo Calandrin, Netanyahu entende que a Autoridade Nacional Palestina (ANP) — que, pelos Acordos de Oslo (1993), deveria ser o órgão governante — não é capaz de representar o país.

O desentendimento surgiu em 2005, quando houve uma cisão na regência palestina entre a própria ANP e o Hamas. Atualmente, a primeira é responsável pela Cisjordânia, enquanto o Hamas, que lidera a Faixa de Gaza, é considerado pelos israelenses como um grupo terrorista. Por conta disso, a região não é reconhecida como de soberania palestina.

Sobre a relação de poder territorial que Israel exerce e uma possível associação com o imperialismo estadunidense, Calandrin afirma que, “embora os países demonstrem grande afinidade, a conjuntura atual não é um molde desse sistema: foi apenas nos anos 1970 que se deu a ligação entre eles”. Mas, segundo ela, existem historiografias que compreendem Israel como um Estado colonial e que aproximam o sionismo e a criação da nação com o colonialismo do século XVI.

Para a profissional, a constituição do país não pode ser referida como colonialista, por ter sido, a princípio, igualitarista e mediada pela ONU. Ela não exclui a possibilidade de, no entanto, questionar a legitimidade da organização ao fazê-lo. “As únicas atividades de colonização que podem ser observadas nesse contexto são as ocupações ilegais na Cisjordânia e outros territórios palestinos”, explica a especialista.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, durante o hasteamento da bandeira palestina na sede da ONU
Mark Garten/ UN PHOTO

A luta árabe-palestina pelo reconhecimento

A criação do Estado de Israel se deu no pós-Segunda Guerra, enquanto a Palestina estava sob comando britânico. Ainda com resquícios do imperialismo do século XIX, a Grã-Bretanha abriu mão da área para a criação dos dois territórios. A decisão, organizada pela ONU, foi potencializada pelo sentimento de culpa das grandes potências após o holocausto.

Entretanto, países árabes que eram contra a formação da nova nação invadiram a área onde ela seria criada, no evento conhecido como Guerra Árabe-Israelense de 1948. Israel apenas saiu vitorioso devido ao apoio que recebeu das maiores potências da época.

Posteriormente, segundo Calandrin, houve o reconhecimento dos palestinos como um povo árabe. “Isso não se deu de forma automática. Os demais povos não lutavam contra Israel por serem a favor da autonomia palestina. O fortalecimento da questão só ocorreu com a criação da Organização para Libertação da Palestina (OLP), quando passaram a discutir amplamente o tópico”, esclarece.

Veja mais em ESQUINAS

Com mais da metade da população completamente vacinada, Israel mostra como combater a pandemia

ONU e Human Rights Watch apontam violações do Direito Internacional Humanitário no conflito em Nagorno-Karabakh

“É assustador pensar que só por querer se expressar eles podem te matar”, diz manifestante sobre protestos na Colômbia

Quando os palestinos e seus apoiadores começaram a agir a favor de sua libertação, Israel já era um país consolidado. “A luta de um povo sem reconhecimento e com apoio tardio, contra uma nação não apenas fortalecida, mas que também contava com o apoio de grandes potências, torna a situação muito assimétrica e delicada”, comenta a especialista.

Apesar dos desentendimentos de décadas, existem países do Oriente Médio que mantêm tratados de “paz fria”. Esses acordos fizeram uma série de atritos esvaecerem ao longo do tempo. O que ainda se mantém são embates entre grupos que Israel julga terroristas, como Hamas e Hezbollah. Com isso, o primeiro-ministro do país reforça uma percepção de que não há mais conflitos que envolvem a nação, já que, segundo ele, esses oponentes seriam ilegítimos.

Crise e confrontos recentes

Calandrin enfatiza que, “apesar de terem sido divulgados ataques em Gaza, com ofensivas de foguetes disparados pelo Hamas e respostas em ataques aéreos, a crise começou, na verdade, dentro de Israel, com as revoltas e protestos em Jerusalém contra a população árabe”. Com isso, o Hamas declarou apoio aos árabes e só então o conflito foi levado à Gaza e à Cisjordânia.

O grupo é financiado pelo Irã, inimigo declarado de Israel. Apesar do suporte financeiro do país e a invalidação israelense, o movimento foi eleito de forma legítima pela população de Gaza, fomentando a rivalidade entre o Hamas e a ANP.

Na opinião da internacionalista, além dessa polarização contribuir para o risco de guerra no local, ela acredita que Israel não deveria contra-atacar, porque o país tem consciência das táticas do Hamas e das consequências que suas defesas trazem. Segundo ela, isso criaria uma comoção internacional para o Hamas. “O problema é que, com esse fundamento, o governo Netanyahu obtém lucros políticos internos, reforçando o argumento de que só ele seria capaz de proteger sua população, então ele consegue se manter no poder. Ao final, tudo se trata de um jogo político”.

Encontrou em erro? Avise-nos.