"Escravinho do Dória": repórter de Esquinas é xingado em protesto contra lockdown - Revista Esquinas

“Escravinho do Dória”: repórter de Esquinas é xingado em protesto contra lockdown

Por Eduardo Reis : março 9, 2021

Manifestação contra restrições em atividades não essenciais reúne na Av. Paulista bolsonaristas pouco preocupados com a Covid-19

Na última sexta-feira (05/03), o repórter de ESQUINAS Eduardo Reis voltava para casa quando encontrou, na Av. Paulista, um protesto contra o lockdown decretado pelo governador João Doria. Vestindo camisa amarela, Reis chegou a ser confundido com um dos cerca de 100 manifestantes. Ao gravar um video questionando a ausência de máscaras na passeata, o aluno de jornalismo da Cásper Líbero passou a ser hostilizado. Acompanhe o relato:

“Por volta das 19h, sentei-me na praça ao lado do Shopping Cidade de São Paulo, na altura do número 1.200 da Av. Paulista. Queria me despedir de lá antes de retornar ao regime de home office. Eram quase oito da noite quando começaram gritos e buzinas. O som, que à princípio não era cristalino, foi ficando mais nítido à medida em que eu me aproximava do foco da movimentação. Em frente à Fiesp, palco tradicional dos protestos de extrema-direita, cerca de 100 pessoas reclamavam das restrições da propsota de lockdown do governador João Doria.

Uma mulher vestia amarelo e tirava selfies com os cartazes do protesto, com palavras como “Ditadoria” e “Brasil cristão”. Quatro homens altos, brancos e barbados bradavam palavras de ordem contra fome, desemprego e em defesa da liberdade. De tempos em tempos, puxavam coros de “fora Doria” e “Ei, Doria, vai tomar no cu”. Os carros, em sua grande maioria, buzinavam para os manifestantes favoravelmente. Um ou outro motorista xingava o ato.

Atravesso a rua, paro na ciclovia no canteiro central e confirmo minha impressão: a grande maioria dos manifestantes estava sem máscara. Recebo cumprimentos de dois homens grisalhos que juntavam à multidão. Fiquei confuso: só meus olhos eram visíveis, mas meu sentimento era de inconformismo. Logo entendi: eu estava de  camiseta amarela, eu era um deles.

Foi a oportunidade para me infiltrar e cobrar explicações.

À esquerda do protesto, uma viatura da Polícia Militar. Indago a um jovem policial sobre a falta de ação em frente àquele possível foco de contaminação por coronavírus. Resposta protocolar: “Estamos na contenção, não podemos fazer nada”. Dentro do protesto, 10 policiais alinhados também apenas observam.

Vou para um canto menos ocupado, próximo à porta da estação Trianon-Masp do metrô. Começo a gravar um vídeo questionando a ausência de máscara dos manifestantes.

 

 

A reação é instantânea. Uma mulher idosa, cabelos brancos e camisa da CBF, me chama de “comunista” e “escravinho do Doria”. Sinto-me inseguro e tento me afastar. “Minha máscara está aqui!”, grita um senhor de perna engessada e uma única muleta, tirando o objeto não do rosto, mas do bolso da calça rasgada. E complementa: “Mesmo com a máscara tem gente morrendo. Preciso trabalhar, seu moleque!”

Não fui um caso isolado. A atriz Angela Dippe compartilhou no Instagram um vídeo em que sofre xingamentos parecidos dos participantes do ato.

“Que triste. Minutos atrás, eu na Av. Paulista voltando pra casa com duas máscaras, sou chamada de medrosa, comunista e escrava do Doria [governador de São Paulo]! Seguimos. A ignorância sem fim!”, disse a atriz.

 

Fujo do movimento. À direita do protesto, encontro outro veículo da PM. Dois policiais conversam despreocupadamente. Novamente indago sobre o possível foco de contaminação. “Não podemos fazer nada, vai falar com o comandante”, diz o rapaz.

Me enraiveço: “Quando é baile vocês jogam água, aqui na Paulista fazem nada!” Vou embora para não arrumar confusão. Perto da entrada do metrô, noto um pequeno grupo de manifestantes mais jovens — também sem máscaras. Eles ostentavam a bandeira do “anarcocapitalismo”, uma ideia em que o estado acaba e que tudo, inclusive a natureza, se transforme em propriedade privada. Talvez imaginem que o uso de máscara, também seja uma decisão privada. Se esquecem, porém, que além de prejudicar o coletivo, acabam pondo em risco suas próprias vidas.”

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