Após virada histórica sobre Flávio Bolsonaro, petista enfrenta Congresso conservador e desafios para cumprir promessas de campanha
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente da República no último domingo (25), após uma virada inédita na história das eleições presidenciais brasileiras desde a redemocratização. Com 51,79% dos votos válidos, o petista derrotou Flávio Bolsonaro (PL), que recebeu 48,21%, e garantiu seu quarto mandato à frente do Palácio do Planalto, até 2030.
No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro havia conquistado 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O resultado colocava o candidato do Partido Liberal à frente da disputa, mas o cenário mudou nas três semanas seguintes. Enquanto o petista ampliou sua votação em 6,63 pontos percentuais, Flávio registrou um crescimento de 1,18 ponto.
Com mais de 64,2 milhões de votos, Lula tornou-se o primeiro candidato, desde a redemocratização, a vencer uma eleição presidencial após terminar o primeiro turno na segunda colocação. A diferença entre os adversários ultrapassou 4,4 milhões de votos, consolidando uma virada que contrariou o histórico das disputas presidenciais no país.
Além da Presidência, o segundo turno definiu os governos de cinco estados e do Distrito Federal. Os resultados estaduais reforçaram a presença de partidos de centro e direita nos Executivos locais, evidenciando um cenário político dividido que deverá acompanhar o novo mandato presidencial.

Apoiadores de Lula se reúnem em manifestação, com bandeiras e celulares iluminados, em meio à mobilização popular durante o período eleitoral.
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Direita mantém força nas disputas estaduais
Apesar da vitória de Lula na eleição presidencial, os resultados para governador mostraram um cenário diferente. Entre os seis candidatos eleitos no segundo turno, apenas um era filiado ao Partido dos Trabalhadores.
No Rio Grande do Norte, Cadu de Lula (PT) venceu Allyson Bezerra (União Brasil) com 50,77% dos votos válidos, em uma das disputas mais apertadas do país.
Nos demais estados, foram eleitos Omar Aziz (PSD), no Amazonas; Lorenzo Pazolini (Republicanos), no Espírito Santo; e Vicentinho Júnior (PSDB), no Tocantins. No Acre e no Distrito Federal, Mailza Assis (PP) e Celina Leão (PP), respectivamente, garantiram a permanência à frente dos governos locais.

As eleições estaduais também foram marcadas por reviravoltas. No Tocantins, Vicentinho Júnior conseguiu reverter a vantagem de Professora Dorinha (União Brasil) no primeiro turno e venceu com 64,52% dos votos válidos.
Já no Rio Grande do Norte, Cadu de Lula superou Allyson Bezerra por uma diferença de apenas 1,54 ponto percentual, equivalente a pouco mais de 32 mil votos.
Os resultados evidenciam que a vitória do PT na Presidência não se traduziu em um avanço equivalente do partido nos governos estaduais. A distribuição dos cargos entre diferentes forças políticas também revela os desafios de articulação que o Executivo federal enfrentará nos próximos quatro anos.
Das ruas às redes: a mobilização que impulsionou Lula
A mobilização do eleitorado ganhou força nas semanas que antecederam o segundo turno. Manifestações, caminhadas e atos de campanha reuniram apoiadores dos dois candidatos em diferentes regiões do Brasil, enquanto as plataformas digitais se consolidaram como espaços estratégicos na disputa pelos votos.
Na campanha de Lula, a articulação nas redes sociais teve papel de destaque. Um dos principais exemplos foi o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). Criado para mobilizar apoiadores e ampliar o alcance da campanha petista, o espaço ultrapassou 10 milhões de seguidores às vésperas da votação.
Por meio do canal, os participantes recebiam orientações e tarefas para compartilhar conteúdos, divulgar informações da campanha e incentivar a conquista de novos votos. A estratégia mostrou como a organização digital passou a ocupar uma posição central na mobilização política.
“A esquerda teve seus dias de bolsonaristas, não em termos de conteúdo, mas nas técnicas de utilização das redes sociais. Os progressistas e o pessoal de esquerda começaram a usar os algoritmos a seu favor”, afirma Paulo Nicolli, cientista político e professor de Sociologia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
A atuação digital também provocou disputas jurídicas. Em 11 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou a suspensão do canal administrado por Janones, após um pedido da campanha de Flávio Bolsonaro. O episódio reacendeu discussões sobre os limites da propaganda eleitoral na internet, a moderação de conteúdos e a atuação das plataformas digitais durante as eleições.
O debate sobre a regulamentação das redes sociais, que já ocupava espaço na agenda política brasileira, deverá permanecer entre os temas discutidos durante o próximo mandato.
A dificuldade de Flávio Bolsonaro em conquistar novos eleitores
Além da mobilização petista, a dificuldade de Flávio Bolsonaro em ampliar sua base eleitoral também ajuda a explicar a virada no segundo turno.
Embora tenha terminado a primeira etapa da disputa na liderança, o candidato do PL não conseguiu converter essa vantagem em uma vitória. Para Paulo Nicolli, a estratégia adotada pela campanha manteve um discurso voltado principalmente aos eleitores já alinhados ao bolsonarismo, dificultando a aproximação com outros segmentos do eleitorado.

Flávio Bolsonaro (PL) durante pronunciamento ao lado de apoiadores. O candidato foi derrotado por Lula no segundo turno das eleições presidenciais de 2026.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
“No segundo turno, você precisa buscar os votos daqueles que não votaram em você. A campanha do Flávio Bolsonaro não fez isso: continuou mantendo um estilo mais agressivo, que atende apenas aos próprios bolsonaristas”, analisa o cientista político.
A avaliação aponta para um dos principais desafios das campanhas em segundo turno: conquistar o apoio de eleitores que haviam escolhido outros candidatos ou que ainda não estavam convencidos. Nesse cenário, a capacidade de ampliar alianças e dialogar com diferentes grupos pode ser decisiva para o resultado.
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Quarto mandato será marcado por desafios de governabilidade
Superada a disputa eleitoral, Lula terá pela frente o desafio de transformar a vitória nas urnas em capacidade de articulação política. O presidente iniciará seu quarto mandato diante de um Congresso Nacional com forte presença de parlamentares conservadores e de oposição, o que deverá exigir negociações para a aprovação de projetos e propostas do governo.
Para Renato Dolci, cientista político e mestre em Economia, o cenário exigirá uma postura mais conciliadora por parte do presidente, especialmente nas relações com o Legislativo.
“A governabilidade dependerá da capacidade de estabelecer uma agenda comum com setores que discordam dele em diversos assuntos”, completa.
A necessidade de construir acordos políticos também se relaciona às promessas apresentadas durante a campanha. Propostas como a gratuidade do transporte público aos fins de semana e a ampliação do programa Pé-de-Meia dependerão de recursos orçamentários e de articulação com o Congresso Nacional.
Para Paulo Nicolli, um dos principais desafios será conciliar os compromissos assumidos com os eleitores e as limitações fiscais do país, sem comprometer a capacidade de investimento do governo.
Renato Dolci, por sua vez, destaca a importância de priorizar questões que afetam diretamente a vida da população, como o preço dos alimentos, o poder de compra, o custo do crédito, a segurança pública e a qualidade dos serviços oferecidos pelo Estado.
Mais do que sustentar a mobilização que garantiu a vitória eleitoral, o próximo governo terá de demonstrar capacidade de responder às demandas cotidianas dos brasileiros. Com uma oposição fortalecida e um cenário político fragmentado, a construção de consensos poderá ser tão importante quanto a manutenção do apoio popular.
“A eleição foi decidida pela capacidade de mobilizar eleitores. A avaliação do próximo governo será determinada, sobretudo, pela capacidade de entregar resultados.”