Do bolso à saúde mental, os custos de ser mulher no Brasil revelam desigualdades que vão além do consumo
Ser mulher no Brasil nunca foi uma tarefa fácil. Além de toda a pressão social que enfrentam para “ocupar o seu papel na sociedade”, muitas ainda se deparam diariamente com os preços desproporcionais de roupas íntimas e itens de higiene feminina.
Em termos materiais, o custo de sobreviver na sociedade não é para qualquer uma. Ao calcular o gasto mensal com produtos mais “populares”, o bolso se assusta. Somando um pacote de absorventes (entre R$ 38,00 e R$ 55,00), lenços umedecidos (cerca de R$ 20,00), anticoncepcional (de R$ 26,00 a R$ 65,00), remédios para cólica (entre R$ 30,00 e R$ 45,00) e roupas íntimas — que precisam ser renovadas ao menos a cada três meses, custando entre R$ 30,00 e R$ 90,00 — o custo mensal ultrapassa R$ 250,00.
Consultas ginecológicas, exames, métodos contraceptivos e tratamentos hormonais também representam gastos constantes. Em um sistema de saúde desigual, acessar cuidados de qualidade ainda é um privilégio — e um custo que muitas mulheres simplesmente não conseguem absorver.
A realidade se torna ainda mais dura quando se observa que as mulheres continuam ganhando menos que os homens, mesmo ocupando funções semelhantes. O custo de ser mulher é duplo: elas pagam mais e recebem menos. Isso cria um ciclo de desigualdade que impacta autonomia, escolhas e qualidade de vida.
Segundo dados do terceiro Relatório de Transparência Salarial, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em 2025 a remuneração média dos homens era de R$ 4.745,53, enquanto as mulheres recebiam R$ 3.755,01 — ou seja, 20,9% a menos. Caso houvesse igualdade salarial, R$ 95 bilhões teriam sido injetados na economia brasileira em 2024.
Apesar da Lei da Igualdade Salarial (Lei nº 14.611/2023), sancionada em julho de 2023, o mercado de trabalho ainda não acompanhou essas mudanças. Estruturas machistas enraizadas na sociedade brasileira continuam afetando diretamente esse processo.
Mesmo com maior escolaridade média, as mulheres seguem recebendo menos. Quando se observa o recorte étnico-racial, a desigualdade é ainda mais acentuada: mulheres negras ganham 53% a menos do que homens brancos.
Diante desse cenário, fica evidente que, para garantir o mínimo de dignidade no cuidado íntimo, ser mulher tem um custo elevado. Ainda assim, todas deveriam ter o direito de escolher o que há de melhor para si.
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Questões emocionais: assédio e pressão social
Além da carga financeira, o lado emocional também é um desafio diário. Para muitas mulheres, andar sozinha nas ruas, no transporte público ou em outros espaços é desconfortável e, muitas vezes, assustador — independentemente do horário.
Existe também o custo de se manter segura: transporte por aplicativo para evitar trajetos à noite, mudanças de rota, cursos de autodefesa, aplicativos de emergência, portas trancadas e vigilância constante. Em um país onde o assédio e o abuso contra mulheres são recorrentes, a segurança deixa de ser apenas uma preocupação e se torna um gasto contínuo de energia, tempo e dinheiro.
Em um depoimento anônimo, uma jovem relata as estratégias que adota para tentar se sentir segura:
“Para ir para o trabalho, faculdade e outros lugares, eu sempre uso um moletom largo nos transportes públicos, independentemente do clima. A gente tenta se prevenir, mesmo sabendo que a culpa não é nossa nem da roupa que usamos. Já fui assediada várias vezes, perto de casa e longe. A gente encara as pessoas no metrô para ver se há algum tipo de malícia; quando é possível, escolhemos estrategicamente onde ficar no vagão, para não ficarmos de costas ou perto demais de algum homem… e, mesmo assim, somos assediadas e perturbadas. É uma sensação horrível de impotência, de não ter voz nem forças para reagir.”
De acordo com dados da Agência Brasil (2026), sete em cada dez mulheres brasileiras relatam já ter sofrido assédio moral ou sexual, principalmente em espaços públicos. No ambiente de trabalho, 38% relatam assédio moral. Em 2025, o Ligue 180 registrou alta de 33% nas denúncias, com a violência psicológica superando a física. Esses números ajudam a entender por que tantas mulheres vivem em estado permanente de alerta — não se trata de exagero, mas de sobrevivência.
Além dos impactos na saúde mental, a pressão social também exige muito dessa parcela da população. O preço continua alto — e só aumenta. Entre cuidar da casa, dos filhos, da vida pessoal e profissional, muitas ainda sentem a necessidade de se “embelezar” e manter uma imagem considerada ideal, muitas vezes inalcançável.
Segundo a psicóloga Roberta Mantovani, as múltiplas tarefas impostas socialmente às mulheres — muitas vezes de forma sutil — criam uma sensação constante de insuficiência.
“Podemos dizer que ainda vivemos em um cenário em que as mulheres estão sobrecarregadas com multitarefas. Isso se dá por influência de uma cultura que coloca a mulher como responsável por cuidar dos filhos, fazer as tarefas de casa, ser uma boa profissional, estudar, cuidar do corpo e ainda estar sempre bonita. Essas exigências nem sempre estão explícitas, mas aparecem em mensagens sutis nas propagandas, nas novelas e nas redes sociais. Essa cobrança leva a uma autoexigência de perfeição, que é impossível. A longo prazo, essa sensação pode levar à ansiedade, depressão e outros transtornos”.
Diante desse cenário, surge a pergunta: como preservar a saúde mental?
Para a especialista, o primeiro passo é abandonar a ideia de perfeição. O autocuidado é essencial no enfrentamento dos desafios diários.
“Respeitar o próprio limite e abandonar a ideia de ser ‘mulher-maravilha’ podem reduzir a autocobrança”.
Ela também destaca a importância de dividir responsabilidades:
“Delegar tarefas aos demais membros da família ajuda a diminuir a sobrecarga. Aceitar quem você é também evita a busca por padrões irreais, muitas vezes construídos com edição de imagens e filtros.”
Por fim, reforça que, caso as mudanças sejam difíceis, é fundamental buscar ajuda profissional. A terapia pode ser um caminho importante para o autoconhecimento e o bem-estar.
O preço de ser mulher é, muitas vezes, invisível. Não está apenas nas prateleiras de mercados ou farmácias, mas também no corpo, na mente e no cotidiano. Trata-se de um custo emocional acumulado, resultado de uma sociedade que ainda responsabiliza as vítimas pelas violências que sofrem. Falar sobre isso, nomear essas experiências e reconhecer seus impactos é um passo essencial para transformar a realidade das mulheres brasileiras.