Educação sexual e juventude: efeitos na saúde íntima e mental - Revista Esquinas

Educação sexual e juventude: efeitos na saúde íntima e mental

Por Alice Machado, Ana Luísa Mairena, Heloisa Arévalo e Giovanna Farias : abril 7, 2026

Para muitos adolescentes, esse é um tema pouco discutido em seus lares, o que faz com que acabem vivenciando suas primeiras experiências de forma anônima. Foto: Maria_Domnina/PIxabay

Tabu e desinformação sexual seguem afetando a saúde íntima e o bem-estar mental de jovens em todo o território nacional.

A puberdade e a adolescência são momentos de muitas transformações na vida de um jovem, acompanhados de mudanças corporais, hormonais e mentais. São etapas naturais do desenvolvimento humano, porém ainda cercadas por tabus em muitas famílias brasileiras.

Para muitos adolescentes, esse é um tema pouco discutido em seus lares, o que faz com que acabem vivenciando suas primeiras experiências de forma anônima, com poucas informações e mais expostos, impactando a saúde íntima e o bem-estar psicológico. Nesse cenário, torna-se ideal o acompanhamento com profissionais da saúde.

É extremamente comum que, nessa fase, rapazes e garotas comecem a descobrir o próprio corpo e o corpo do outro, a questionar a sexualidade, a ter desejos e impulsos sexuais, entre outras questões que mexem com o íntimo deles. Mas é justamente aí que os erros começam — com a desinformação, a vergonha, a culpa e até o desinteresse.

Desinformação, comportamento e riscos entre os jovens

Em um questionário feito pela TVT News, em fevereiro de 2025, por conta do Dia Internacional do Preservativo (13 de fevereiro), a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) apontou que 59% dos brasileiros afirmam não usar preservativo em nenhuma relação sexual. Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) destacou que o uso de preservativos caiu de 70% para 61% entre meninos de 15 anos sexualmente ativos. Esse cenário revela que a redução do uso de camisinha entre os jovens (15 a 24 anos) tem relação direta com o aumento das ISTs, evidenciando fatores como falta de acesso à informação, dificuldade de acesso a métodos de prevenção, desinteresse pelo tema e até o contato com conteúdos inadequados, como desinformação (“fake news”) e pornografia.

Esse contexto pode causar ainda mais confusão na cabeça dos adolescentes, funcionando como porta de entrada para vícios, sexualização dos corpos, desinteresse pela prevenção e até transtornos mentais, como ansiedade e depressão.

Para a psicóloga Vitória Cristina, especializada no atendimento de adolescentes e jovens adultos, afirma:

“Os jovens são muito impactados pelas mídias, e devemos ter essa conversa com eles. Estamos falando de uma geração que nasceu já inserida nas telas e com acesso a todo tipo de informação. Devemos falar desde a infância sobre sexualidade — não só sobre o sexo em si, mas sobre saúde íntima, reconhecimento de abusos e a construção da consciência de que, independentemente do que acontecer, a família estará ali para acolhê-los”.

Infelizmente, há inúmeros estudos que demonstram falhas importantes na orientação dos jovens, especialmente por parte das famílias — que deveriam ser a primeira base educativa. Esse fator é uma das principais causas que levam os jovens a esconder aspectos importantes de suas vidas, principalmente relacionados à intimidade e à sexualidade. Muitos adolescentes se sentem desvalorizados em casa, tendo seus problemas frequentemente minimizados pelos responsáveis, o que gera sentimentos de rejeição e dificulta a comunicação sobre temas pessoais. Assim, o ambiente que deveria ser de acolhimento e cuidado se transforma em um espaço de resistência e cobranças.

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O papel da escola e os desafios na educação sexual

Essa resistência pode trazer grandes consequências, como gravidez indesejada na adolescência, uso inadequado de anticoncepcionais ou contaminação por ISTs. Esses impactos também se refletem em outros aspectos, como a contribuição para o ciclo da pobreza, ao reduzir anos de estudo e dificultar a inserção no mercado de trabalho. Além disso, há maior risco materno e perinatal, o que pode gerar danos profundos à saúde psicológica, seja por um amadurecimento precoce ou até por situações de luto.

Outro ponto relevante é a influência da mídia e do meio digital, que, embora possam ampliar o acesso à informação, também expõem crianças e adolescentes a conteúdos inapropriados, contribuindo para a hipersexualização e a adultização precoce. O excesso de informações inadequadas pode confundir os jovens e prejudicar a forma como compreendem sua própria sexualidade.

O professor Pedro Sabatino Barão, formado em Biologia pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (USP) e mestre em Ciências, comenta sobre o comportamento dos jovens e destaca o amadurecimento precoce relacionado à sexualidade. Segundo ele, há uma clara influência dos conteúdos consumidos na internet, que acabam levando ao “encurtamento” da infância, colocando adolescentes como alvos de consequências muitas vezes irreversíveis e perigosas.

Ele também ressalta o impacto da falta de diálogo sobre o tema dentro de casa: “O principal desafio para nós, educadores, é o preconceito, já que a família, como primeira instituição, deveria, juntamente com a escola, fazer uma introdução sobre intimidade” — o que, infelizmente, ocorre em poucos casos.

Em sua visão, o professor afirma que o papel central da escola na orientação sobre saúde íntima e métodos de prevenção, como camisinha e anticoncepcionais, é guiar os jovens sobre o início da vida sexual de forma consciente, além de alertar sobre abusos, doenças e outros riscos.

Ressalta-se ainda a importância do tema, visto que menos de 20% das escolas no Brasil oferecem educação sexual aos estudantes, o que contribui para o aumento dos índices de gravidez precoce e de ISTs. Torna-se, portanto, necessária uma mudança estrutural nas instituições de ensino, com ações como a oferta de orientação adequada, campanhas de conscientização e ampliação do acesso a serviços de saúde.

Assim, os jovens podem desenvolver uma relação mais saudável com sua sexualidade, sua intimidade e sua saúde mental, além de disseminar informações corretas entre seus pares, contribuindo para que uma geração que muitas vezes se encontra “perdida” possa se orientar melhor — entendendo que não se trata apenas de um problema individual, mas de uma questão social que precisa ser enfrentada coletivamente.

Editado por Enzo Cipriano

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