Do Algoritmo à Sala de Aula: os impactos reais do fenômeno "red pill" nas escolas

Do Algoritmo à Sala de Aula: os impactos reais do fenômeno “red pill” nas escolas

Por Sophia Cavichioli : junho 23, 2026

Jovem em frente ao computador. Foto: Pexels

COM O CRESCIMENTO DO MOVIMENTO RED PILL, A PROPAGAÇÃO DE CONTEÚDOS DE AVERSÃO E AMEAÇA CONTRA MULHERES TORNOU-SE UM ESTILO VIRAL NA INTERNET. ESSE FENÔMENO IMPACTA NEGATIVAMENTE A FORMAÇÃO DOS JOVENS E FOMENTA A VIOLÊNCIA DE GÊNERO, INCLUSIVE DENTRO DAS ESCOLAS.

O movimento teve como base o filme “Matrix” (1999), que narra uma distopia cibernética na qual o mundo é uma simulação de computador e os humanos vivem sem consciência. Na trama, o protagonista deve escolher entre a pílula vermelha, que possui o poder de fazê-lo despertar para a realidade, ou a pílula azul, que o manteria na ilusão.

Red Pill

Pílulas iguais do filme “Matrix” Foto: Pexels

A partir desse cenário, em 2010, grupos de homens passaram a produzir conteúdos voltados para o público masculino usando essa metáfora em um contexto machista. Os chamados “red pills” são aqueles que dizem ter escolhido a pílula vermelha para despertarem da suposta “dominação feminina” e, para isso, reforçam discursos de superioridade masculina em detrimento da submissão das mulheres.

O avanço do movimento e a dinâmica educacional

Essa ideologia ganhou força no meio digital por possibilitar uma melhor organização e maior alcance, além de auxiliar na criação de bolhas digitais, com a procura do mesmo conteúdo. A professora Rosane Leal da Silva, do Departamento de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), explica o fenômeno:

“As redes sociais têm potencializado esses discursos porque o algoritmo percebe que temáticas que geram afeto, inclusive o ódio, mobilizam os espectadores.”

Dentro desse âmbito digital, a fiscalização é precária, favorecendo um cenário onde adolescentes são bombardeados por conteúdos em que homens se mostram incomodados com a autonomia feminina. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, 83% das crianças e dos adolescentes de 9 a 17 anos que usam internet no país têm ao menos um perfil em redes sociais. Sem a correta mediação desse uso, cria-se um ambiente perigoso tanto para os meninos que consomem o material quanto para as meninas e mulheres ao redor, principalmente dentro das instituições de ensino.

Em entrevista, a psicóloga Letícia Mazzuco, existencialista e pesquisadora em gênero e subjetividade, alerta para um sinal que pais e professores podem observar para identificar se um jovem está sendo influenciado pelo movimento: o vocabulário.

“Eles têm muitos termos, são muitas formas de descrever a realidade. Então, eu acho que é um sinal interessante, para quem é docente é se letrar um pouco mais sobre como eles se comunicam entre si”, afirma.

Esse vocabulário específico foi identificado, por exemplo, no caso do estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana, no Rio de Janeiro, em que réus e vítima estudavam na mesma escola.

Na ocasião, um dos suspeitos foi preso vestindo uma camiseta com a frase “Regret Nothing” (Não se arrependa de nada). O termo circula amplamente em conteúdos machistas, principalmente os produzidos pelo influenciador Andrew Tate, conhecido por discursos de dominação masculina e desprezo pelas mulheres, e que responde na Justiça por estupro e tráfico humano.

Red Pill

Imagem do símbolo presente na camiseta. Foto: g1.globo.com

A dificuldade dos adultos em reconhecer esses códigos, apontada por Mazzuco, aparece na pesquisa “Livres para Sonhar? Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas”, que ouviu 1.400 profissionais da educação e estudantes. Relatos como: “Meninos falam do seu corpo, peito, bunda. Falam na cara, é muito constrangedor. Na cabeça deles é brincadeira, mas é violento”, apareceram com frequência alarmante no levantamento.

Os dados mostram que 68% dos professores afirmaram já ter presenciado comentários sobre o corpo e as roupas das alunas. Contudo, apesar dessa elevada porcentagem, muitos educadores ainda não estão familiarizados com o tema e a seriedade do conteúdo red pill.

A contradição dos fatos cria uma barreira entre o educador e os estudantes. “Eles ficam conversando entre si por códigos e a gente não reconhece essa linguagem”, diz a psicóloga Letícia.

O que leva os jovens ao consumo desses conteúdos

Em entrevista, a psicóloga relatou sobre a falta de identidade dos jovens:

“É característica da adolescência estar tentando formar uma identidade. É um momento de muitas inseguranças, em que o olhar do outro é muito ameaçador, porque você ainda não tem uma base sólida e está buscando essa validação no outro”, explica.

Além disso, a falta de habilidade em lidar com a rejeição se intensificou no período pós-pandemia. De acordo com Letícia, o isolamento colocou os jovens em uma situação de deslocamento social e restringiu o lazer às redes sociais. Esse cenário facilita a aceitação e a procura de um discurso em que se baseia na inferiorização das mulheres, pois elas justificam as frustrações dos meninos e se tornam um discurso de confortável adesão.

“Uma forma de escapar dessas inseguranças é justamente aderir ao discurso Red Pill, que vai colocar nas mulheres a culpa por essa sociedade que supostamente odiaria os homens”, afirma a psicóloga.

É importante sinalizar que, muitas vezes, a própria instituição de ensino pode, involuntariamente, favorecer a persistência desses ideais machistas por meio de uma pedagogia estrutural de gênero. A divisão de tarefas baseada no sexo ou o rigor desproporcional com o uniforme feminino, por exemplo, aumentam essa binaridade das convicções entre meninos e meninas.

A professora Alessandra Braz de Carvalho nota esse reflexo no cotidiano escolar ao observar a diferença em como os alunos se conectam a ela: enquanto os meninos tendem a se afastar, as meninas a procuram com mais frequência.

Neste cenário, Letícia Mazzuco defende a importância dos jovens em realizarem atividades que os desconectem da internet para que consigam desenvolver uma identidade onde a sensibilidade seja possível. A psicóloga ainda reforça a sua preocupação por essa masculinidade em que a vulnerabilidade não é permitida, por ser associada a um sentimento exclusivamente feminino.

Essa masculinidade impulsiona o movimento red pill, a violência de gênero e a homofobia, contribuindo para estatísticas alarmantes. De acordo com a 5ª edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo IBGE, baseado em informações de 2024 onde foram contatados estudantes de 13 a 17 anos de escolas públicas e privadas em todo o país.

A pesquisa comprovou que cerca de 1 milhão de adolescentes foram forçados a manterem relações sexuais. Acentuando uma maior vulnerabilidade entre as meninas, uma vez que elas representam mais que o dobro do registrado entre os meninos (10,9%). O aumento da violência foi mais acentuado na rede pública de ensino (4,2%) e entre adolescentes de 16 e 17 anos, em que o índice chega a 20,9%.

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O reflexo da hostilidade contra os professores

Diante desse cenário, a posição do professor é prejudicada, uma vez que os adolescentes que  a essas comunidades virtuais muitas vezes acreditam estar participando de uma espécie de “teoria da conspiração”. Ao se colocarem em um lugar de suposta sabedoria superior à do docente, eles criam uma barreira que dificulta o diálogo e o trabalho pedagógico do profissional.

A hostilidade não se limita aos estudantes, atinge também o corpo docente. A professora Alessandra Braz de Carvalho, que leciona para o Ensino Médio, relata a diferença em lidar com esses alunos e os mais novos. A educadora conta que os adolescentes demonstram um comportamento mais arredio.

Em sua experiência profissional, há mais casos de alunos de 13 a 14 anos que não aceitam serem submetidos às orientações da professora. A educadora nota que a reação desses estudantes piora dependendo do perfil do profissional: se for um docente que fuja dos padrões estéticos tradicionais ou da orientação sexual esperada por eles, os ataques de desrespeito em sala de aula tornam-se ainda mais violentos.

Apesar dos colégios não terem um posicionamento regular para lidar com o tema, Alessandra Braz defende que a instituição de ensino deve ser o lugar de resistência, se contrapondo aos preconceitos que circulam livremente na internet. Para ela, o caminho para combater o avanço do discurso red pill e construir um ambiente escolar tolerante à diversidade passa pela escuta ativa e pelo diálogo aberto com os estudantes, uma visão compartilhada também pela psicóloga Letícia Mazzuco.

Editado por Mariana Lima

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