O português além da norma: a língua viva das periferias - Revista Esquinas

O português além da norma: a língua viva das periferias

Por Júlia Pádua e Stella Soares : julho 10, 2026

Mesmo carregando grande valor histórico e social, a arte de rua ainda é vítima de críticas. Foto: juliocesarcosta/Pixabay

Entre a escola e as ruas, o português reflete identidades, experiências e desigualdades sociais presentes no cotidiano brasileiro

“É difícil ensinar acentuação para um aluno quando ele é o único da sala que sabe escrever”, confessa Deivid Costruba, coordenador pedagógico da Unidade Educacional Prefeito José Meirelles, em São Vicente.

A fala de Deivid não reflete uma realidade única. Na verdade, esse é um cenário comum em muitas salas de aula do país, onde o acesso à alfabetização e à norma-padrão da língua portuguesa ainda revela desigualdades sociais profundas.

Celebrado internacionalmente em 5 de maio, o Dia da Língua Portuguesa foi reconhecido oficialmente pela UNESCO em 2019 e destaca a importância cultural e histórica do idioma. No Brasil, porém, o português também evidencia diferenças regionais, sociais e econômicas.

Além da forma normativa ensinada nas escolas, a língua circula de forma viva no cotidiano e é marcada por gírias, sotaques, referências culturais e expressões populares. Nas periferias, essa dinâmica aparece de forma intensa: ali, o português incorpora música, oralidade, ritmo e experiências locais, transformando a linguagem em um espaço de identidade e pertencimento.

A língua além da gramática

As influências na cultura brasileira são muitas. Essa linguagem ensina sobre a voz social ao incorporar à língua as experiências coletivas de um grupo. Os discursos se tornam, então, construções legítimas, essenciais para a preservação da memória histórica, o que vai muito além da gramática.

Ao mesmo tempo, existe um choque claro: na escola, no mercado de trabalho e em espaços institucionais, ainda se exige a norma-padrão como única forma “correta” de expressão. Isso cria um filtro social. Quem fala diferente muitas vezes é visto como menos preparado, mesmo não sendo.

Cultura, arte e linguagem

A língua se reinventa no cotidiano e incorpora elementos da arte. Nas ruas, são praticadas danças, saraus, batalhas de rima e o Hip Hop, que constroem um senso de identidade em quem os pratica. Para as periferias, a influência da arte na língua resulta na criação de um dialeto próprio e muito diverso.

O MC Grafiteh é um exemplo dos artistas que construíram sua carreira fazendo arte pelas ruas. Dos saraus às batalhas de rima, ele foi apresentado à cultura do Hip Hop, que enxerga como um universo transformador.

“Antes de pensar na arte como um emprego, a cultura já estava me construindo como pessoa. Comecei a me entender como um homem dentro e fora de casa e como um homem negro em sociedade. Isso me ensinou a ter uma voz social ativa”, relata Grafiteh.

Foi a partir do Hip Hop que o artista passou a entender o conhecimento como a principal porta de saída da vulnerabilidade. Para ele, a cultura compartilhada nas ruas mostra a importância de conhecer o lugar de onde você vem e onde quer chegar. É uma forma de exercitar a consciência e a criticidade.

A verdade é que a arte assume uma função de ressocialização entre muitos jovens. Ao refletir sobre o seu próprio papel enquanto MC, Grafiteh entende que sua trajetória é um exemplo de que a periferia não está fadada às limitações sociais construídas por um descaso governamental.

“Consigo mostrar para os jovens que sou artista, mas sou apto a viver qualquer outra coisa. Isso não me limita. Não sou apenas o que vendem nos noticiários.”

Grafiteh explica que o rap, enquanto uma vertente musical do Hip Hop, conquistou grande sucesso no país a partir do chamado “rap consciente”. Essa cultura musical ganhou força ao retratar a realidade das comunidades e ao desempenhar um papel de denúncia. Ela ajuda a contar um outro lado da história brasileira e continua se reinventando.

Mesmo carregando grande valor histórico e social, a arte de rua ainda é vítima de críticas. As formas de arte que não são praticadas em espaços institucionais tendem a ser inferiorizadas por parte da população.

O que ganha destaque é que o Hip Hop não é apenas um gênero musical. Ele diz muito sobre cultura, ideologia, propósito e uma maneira de pensar e de viver que exercitam a arte como expressão.

Nas batalhas de rima, a língua desempenha um papel central. Ela é moldada a partir das métricas e da sonoridade para transmitir uma determinada mensagem. Unindo construções gramaticais, figuras de linguagem e ideologia, as rimas fazem parte de uma linguagem da periferia que é viva.

“Nas batalhas, a fala diferente vira arte. O MC cria figuras de linguagem sem saber o que elas são. É uma cultura de nós para nós, em que a linguagem nos une”, conclui o artista.

A língua viva nas escolas

Quando se discute a pluralidade linguística do país, a função das escolas ganha destaque. Entre o seu papel de ensinar a linguagem formal e o de retratar a diversidade do país, surge um questionamento central: como ensinar o português padrão sem desvalorizar outras formas de falar?

Segundo a doutora em Educação pelo Programa Educação: História, Política e Sociedade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e mestra em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), Dayse Mara, a norma culta é essencial enquanto padrão linguístico que estabelece relações e acordos e, por isso, deve ser transmitida nas escolas. Mas dizer que só ela é importante é um erro ou, no mínimo, um engano.

Dayse, que leciona as disciplinas de Língua Portuguesa, Literatura e Redação no Colégio São Luís, reflete que, na prática, o português padrão é ensinado ao lado de um português informal, já que as escolas são organismos vivos e agrupam as experiências e variedades linguísticas dos alunos e professores.

Por mais que ambas as formas de falar caminhem lado a lado, tanto no cotidiano quanto nas escolas, ainda é atribuído um juízo de valor aos discursos, o que distancia uma parcela da população dos espaços institucionais, onde a formalidade da língua ainda é exigida como parâmetro.

Para a doutora, essa atribuição de valor reflete as próprias dinâmicas da sociedade, já que não só o português, mas todas as línguas são, na verdade, construções.

“As línguas são vivas porque acontecem em espaços, tempos e contextos culturais que se modificam. Ela se transforma e é transformada. Afinal, a língua é expressão.”

Em uma terra formada pelo encontro de povos e costumes, o português se estabeleceu como uma mistura. A doutora pensa na consolidação do idioma a partir do documentário Língua: Vidas em Português, lançado em 2004 e dirigido pelo cineasta moçambicano Vítor Lopes.

Inspirada nas concepções de José Saramago, a obra ganha ainda mais sentido em um mês de celebração do português ao trazer a ideia de que a nossa forma de falar deixou de ter um único “dono” e passou a incorporar muitas culturas.

Dayse reflete que esse histórico construiu uma língua que se adapta, se reformula e que é, portanto, uma construção legítima.

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A realidade de uma sala de aula na periferia

Deivid Costruba é professor e coordenador de escola pública e também leciona na rede privada. Essa dupla experiência faz com que o abismo entre os dois mundos seja difícil de ignorar. Educadores da rede pública enfrentam dificuldades muitas vezes inimagináveis para aqueles que atuam apenas em instituições privadas.

Um exemplo dessa barreira educacional é o novo projeto autorizado pela SEDUC, que visa à alfabetização de alunos do Ensino Fundamental II (6º, 7º, 8º e 9º anos) que ainda apresentam defasagem no letramento. A iniciativa pode parecer irreal para algumas camadas educacionais mais privilegiadas, mas representa a realidade de muitos brasileiros.

Complementando a fala de Mara, Costruba destaca que aprende um pouco mais a cada dia, e as gírias e marcas da fala dos alunos, antes estranhas, começam a se tornar comuns. O educador cita a expressão “deita na minha caixa”. Seu significado é simples: “eu gosto de você”. É uma língua viva funcionando, com significado afetivo próprio, completamente fora da norma e completamente eficaz.

Costruba destaca também que, quando a escrita falha, torna-se necessária a avaliação pela oralidade dos alunos. Espera-se que estudantes do Ensino Fundamental II já estejam plenamente alfabetizados, mas essa não é a realidade de muitas crianças que frequentam escolas municipais e estaduais, enfatiza. É uma forma de validar a língua oral da periferia como conhecimento legítimo.

“Tenho um aluno que sabe sobre coisas que estão acontecendo na política porque ele vê televisão, escuta rádio e assiste ao YouTube”, conta. “Mas ele não sabe ler, possui grande dificuldade na escrita e, mesmo assim, ele tem conhecimento.”

Muitos alunos sabem, só não sabem do jeito que o sistema exige.

A distância fica ainda mais clara quando Costruba compara os dois mundos em que vive. Na escola particular há provas dissertativas, material estruturado e alunos que realizam as atividades. Na escola pública, a prova — quando existe — é objetiva, e isso já é considerado um avanço. O aluno que sabe articular o pensamento pela fala, que domina o YouTube e entende de política, muitas vezes nunca consegue demonstrar esse conhecimento em uma prova de múltipla escolha.

A língua viva existe com ou sem a aprovação da gramática. Ela está nas batalhas de rima, nas gírias de afeto, na mesa da cozinha e na sala de aula. O português das periferias não é uma forma “errada” de falar, mas uma construção própria, com lógica, afeto e história. O que falta, talvez, não seja correção, e sim reconhecimento.

Enquanto o sistema continuar medindo o conhecimento pelo que consegue encaixar em uma prova objetiva, continuará excluindo tudo aquilo que transcende o padrão.

Editado por Enzo Cipriano

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