Marco do movimento LGBT completa 50 anos - Revista Esquinas

Marco do movimento LGBT completa 50 anos

Por Caio Machado, Pedro Cantelli e Yasmin Luara : junho 29, 2019

Meio século após a Revolta de Stonewall, a comunidade ao redor do mundo ainda não possui seus direitos totalmente garantidos

Tudo começou no pequeno bar de parede de tijolos vermelhos na tradicional área residencial de West Village em Nova York. O local ficou conhecido por dar início a rebelião mais importante do movimento LGBT, em 28 de junho de 1969. Ela incentivou outros motins e movimentos de libertação nos Estados Unidos e afora.

Bandeira LGBT é hasteada na Embaixada do Reino Unido em Brasília
Marcelo Camargo

A Revolta de Stonewall, conhecida pelo nome do bar, ocorreu em um momento delicado para a comunidade LGBT norte-americana. Até 1969 os Estados Unidos possuíam leis que criminalizavam qualquer prática homossexual. O país considerava a homossexualidade e a transexualidade como distúrbios psicológicos, com punições que podiam variar desde regime fechado e internação em sanatórios a terapia de conversão e reposição hormonal.

A cidade de Nova York hoje possui uma grande quantidade de bares e baladas voltadas a comunidade LGBT, é difícil acreditar que essa situação já foi bem diferente. Até 1969 poucos estabelecimentos permitiam a entrada de homossexuais por medo de serem fechados. Stonewall Inn era um dos únicos bares de Nova York voltados para esse público. Controlado por uma rede de mafiosos, subornava a polícia para evitar batidas nos horários de pico. Por esse motivo, era o lugar que mais atraía pessoas marginalizadas, como LGBTs, moradores de rua e prostitutas.

Homenagens em frente ao bar Stonewall Inn, em 2016 (Creative Commons)

Homenagens em frente ao bar Stonewall Inn, em 2016 (Creative Commons)

Apesar desse acordo entre o bar e os policiais, o que era para ser só mais uma noite comum, se tornou um dos eventos que mudaria para sempre a história do movimento LGBT. No dia 28 de junho de 1969, havia em média 200 pessoas presentes no Stonewall Inn, quando a polícia invadiu o local.

O procedimento padrão de fechar as saídas, alinhas os clientes e leva-los a delegacia não aconteceu conforme o previsto. Naquele dia, um pequeno grupo de pessoas decidiu não obedecer às ordens, e se aglomeraram diante ao bar. O restante das pessoas juntou-se ao movimento gritando palavras de luta como “Gay power”, em inglês “poder gay”. Garrafas, pedras e lixo em chamas foram atirados contra as viaturas policiais. A situação só foi amenizada quando um incêndio tomou conta do lugar e novas viaturas chegaram.

Por cerca de cinco dias, várias revoltas aconteceram na região, até que o caos foi contido pelas forças policiais. Era a primeira vez que a comunidade LGBT se unia e resistia contra as leis e a violência do Estado.

As manifestações da primeira revolta na Christopher Street, onde o Stonewall Inn está localizado
Leonard Fink / LGBT Community Center - National History Archive

Direitos LGBTs ao redor do mundo

As práticas homossexuais eram comuns no Mundo Antigo e persistiram até a ascensão do Cristianismo quando passaram a ser condenadas. A primeira vez que uma pratica homossexual foi permitida por foi em 1791, quando a França descriminalizou a pederastia, termo utilizado para as relações entre pessoas do mesmo sexo no país. Pouco tempo depois, em 1813, o Estado da Baviera, na Alemanha, descriminalizou a prática entre homens, voltando atrás em 1871.

Ao voltar o olhar para ao presente, a conquista dos direitos LGBTs no mundo é desigual e complexo. No século XX, 13 países descriminalizaram a homossexualidade, entre eles Portugal, Israel e Canadá. Nos anos 2000, Países Baixos, Bélgica e Estados Unidos autorizaram a união matrimonial entre pessoas do mesmo sexo. No fim de 2018, um feito histórico. A Índia descriminalizou a homofobia, em uma decisão unânime. Em junho de 2019, Botswana se tornou um dos primeiros países africanos a tomar essa decisão.

Mesmo com avanços, cerca de 70 países ainda consideram a homossexualidade um crime, segundo dados do relatório de 2018 da Associação Internacional de Gays e Lésbicas (ILGA).

No Brasil, apesar de termos a maior Parada de Orgulho LGBT e termos progredidos em leis e direitos, como a descriminalização da LGBTfobia em 2019, ainda há muito para se fazer. O país é o lugar onde mais se matam LGBTs do mundo, segundo dados da Transgender Europe.

Para a Organização das Nações Unidas (ONU), em sua campanha Livres & Iguais, que visa proteger a comunidade LGBT, deixa claro que mesmo registando um progresso, ainda há muito o que fazer. “Houve, até o momento, bem menos atenção em proteger pessoas trans e cuidado incipiente com os direitos de pessoas intersexuais”, diz relatório da campanha, publicado em 2016.

No aniversário de 50 anos da Revolta de Stonewall, a polícia de Nova York veio a público se desculpar pelos atos cometidos aos homossexuais no passado. Em 2019, a Associação Americana de Psicanálise também se desculpou por tratar a homossexualidade como doença.