Dia Nacional do Livro: “Só há mudança profunda do sujeito, na escola e na vida, quando ele se torna um bom leitor”, diz educadora - Revista Esquinas

Dia Nacional do Livro: “Só há mudança profunda do sujeito, na escola e na vida, quando ele se torna um bom leitor”, diz educadora

Por Camila Campache e João Malafaia : outubro 30, 2020

O Dia Nacional do Livro relembra a importância da leitura, “mas não é suficiente limitar essa reflexão a um único dia do ano”

Não é novidade que o povo brasileiro lê pouco. De acordo com a quinta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 52% da população se considera leitora. Quatro anos antes, 56% dos brasileiros liam, o que representa uma queda de 4,6 milhões de leitores.

Hoje, “lembrar do livro é um ato de resistência, coragem e esperança”, diz Joice Ribeiro, doutora em educação e pesquisadora sobre a importância da leitura na formação infantojuvenil. Mas há mais de dois séculos o cenário era diferente.

Em 29 de outubro de 1810, há exatos 210 anos, o Brasil estava em festa. E como não estaria? Acontecia no Rio de Janeiro a fundação da primeira biblioteca brasileira, então chamada Real Biblioteca e hoje conhecida como Biblioteca Nacional. Isso se deu graças à Real Biblioteca Portuguesa,  transferida para o Brasil acompanhando a família real. Desde então, nessa data marcada pela difusão do conhecimento, da leitura e do ensinamento em terras brasileiras, comemora-se o Dia Nacional do Livro.

Antes, nesse dia, o início da liberdade de pensamento da colônia em relação à metrópole era comemorado. Agora, a data serve para sacudir e mostrar a necessidade de consolidar e incentivar a leitura no País. “Vemos todas as formas de arte, como a literatura, serem violentamente perseguidas numa tentativa de extermínio”, completa Joice.

Livros e brasileiros? Em uma mesma frase?

A média de livros lidos em um ano no Brasil é cinco – aproximadamente 2,5 lidos da capa à contracapa e 2,4 lidos em parte. Ainda de acordo com a pesquisa  Retratos da Leitura no Brasil, a maior taxa de leitores por habitantes está na faixa etária de 11 a 13 anos (81%). São jovens que estão na escola e são obrigados a ler para provas e atividades.

“A escola não promove diálogo com os livros e nem com os autores. Eles dialogam com as técnicas”, diz Joice. Os colégios dificilmente instrumentalizam os possíveis leitores para criar gosto pela leitura. Segundo a pesquisadora, eles apresentam os livros como objeto de estudo e como forma de entender um período ou uma escrita, acreditando que, conforme forem crescendo, as crianças vão desenvolver o hábito da leitura espontaneamente, o que é raro.

Débora Vigevani, psicóloga e coordenadora do projeto Fazendo Minha História relata que “não basta disponibilizar livros. É preciso demonstrar real interesse por eles, apresentá-los de forma descontraída e prazerosa, se fazer presente para ler junto”. A iniciativa faz parte do Instituto Fazendo História, que oferece meios para crianças e adolescentes em situação de acolhimento reconhecerem o seu valor e registrarem suas narrativas.

Segundo Débora, a melhor forma de se apaixonar pelos livros é transformando o momento de leitura em uma hora de cumplicidade e aproximação afetiva para além de meras palavras em uma página ou de um auxílio escolar. Os livros são responsáveis por emocionar, encantar e ampliar o sentido de humanizar.

Pedra no meio do caminho

“A leitura é a mãe de todas as competências”, afirma Joice. “Ela é necessária por permitir um olhar para além daquilo que se apresenta. Só há mudança profunda do sujeito, na escola e na vida, quando ele se torna um bom leitor.” É a partir dos livros que crianças, jovens e adultos têm contato com o mundo e com representações dele. De acordo com a educadora, a leitura molda os olhos de quem lê e dá novas lentes de percepção da realidade.

Mas essa jornada pela formação do bom leitor de livros e do mundo parece cada vez mais difícil. Projetos de políticas públicas, como o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), que entregava, anualmente, um acervo de livros de literatura e educação selecionados por professores e pesquisadores para bibliotecas de escolas públicas, vêm sendo sucateados há anos. O PNBE, por exemplo, ficou cinco anos, de 2014 a 2019, sem atualizações no acervo, e o processo de recuperação ainda é lento.

Ainda há o fator do preço. “O brasileiro que mal consegue comer vai deixar a compra de um livro em segundo plano”, explica Joice. No Brasil, livros estão cada vez mais caros, apesar de o mercado editorial ainda estar isento de contribuições e impostos sobre consumo e produção e regular o seu preço abaixo da variável da inflação desde 2004.

Além disso, há a ameaça do projeto de lei para a nova proposta tributária, que implica a taxação de livros como bens de consumo em 12%. Para Paulo Guedes, Ministro da Economia, o consumo de literatura é elitista e não haveria problema em cobrar impostos da elite — mesmo que, de acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, a maioria absoluta de leitores brasileiros esteja nas classes C, D e E.

Clímax

Se vivêssemos como personagens de uma trama literária, este seria o momento em que o leitor pensaria: “Como eles vão sair dessa?”. O cenário brasileiro não é favorável, mas isso não significa que não haja espaço para que a paixão pelos livros seja cultivada.

Segundo pesquisas mensais do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) em parceria com a Nielsen, os meses de setembro e outubro deste ano foram de destaque para o mercado livreiro, em comparação com os mesmos de 2019. Em setembro, houve um aumento de 25,6% nas vendas, e outubro ainda vendeu 4,7% a mais que o mês anterior.

Por isso, o dia nacional do livro se faz tão importante. “Ele permite resgatar e relembrar as enormes possibilidades que esse recurso cultural oferece para o desenvolvimento das pessoas e da sociedade”, reforça Débora. “Mas não é suficiente limitar essa reflexão a um único dia do ano. É necessário fomentar ações contínuas de ampliação do acesso dos brasileiros à literatura.”