A transição de um evento voltado para a cultura do rock para o entretenimento de massa garante o crescimento financeiro do festival, entretanto, divide o público em relação à preservação de sua essência original.
De símbolo do rock, em 1985, para palco do pop, o Rock in Rio mudou para acompanhar a transformação do público e da indústria. Se por um lado a transição garantiu a longevidade do evento, por outro levanta o debate: a diversificação foi uma evolução vital ou a perda de sua identidade?
Em janeiro de 1985, no fim da época de ditadura militar no Brasil, nasceu no Rio de Janeiro um evento pensado para transformar a cultura jovem do país. Criado pelo publicitário Roberto Medina, o Rock in Rio surgiu com o objetivo de colocar o Brasil na rota dos grandes espetáculos internacionais, algo inédito na América Latina até então.
A proposta era dar palco a uma juventude sedenta por liberdade de expressão, reunindo ícones do rock mundial, como Queen e Iron Maiden, e as fortes figuras do rock nacional para mais de um milhão de pessoas em um local de lama e euforia.
Quatro décadas depois, a dimensão do evento é outra. Acumula mais de 4.600 artistas em uma lista que hoje vai do rock de “Foo Fighters” e “Avenged Sevenfold” ao pop e eletrônico de “Maroon 5” e “Calvin Harris”. O festival se prepara para mais uma edição no mês de setembro.
A migração do palco e o novo comportamento da plateia
Com o passar das edições, contudo, a proposta do festival expandiu os limites do próprio gênero e de seu nome. O Rock in Rio deixou de ser estritamente um encontro de fãs de rock para ampliar-se como um espaço de entretenimento e atração de marcas, onde a música pode compartilhar o protagonismo com brinquedos e ativações publicitárias. Se por um lado a estratégia garantiu a sustentabilidade financeira em uma indústria musical em constante crise, por outro provocou um ruído inevitável na promessa original do evento.
Com a bagagem de quem acompanha a indústria musical desde os tempos de faculdade, o crítico musical Sérgio Martins analisa essa transformação sob a ótica do mercado e dos impactos culturais. Para ele, o festival seguiu a rota lógica do entretenimento global:
“Rock in Rio abraçou a consolidação de mercado, mesmo que o festival carregasse um conceito bem amplo”, afirma.
Embora reconheça essa flexibilidade, Martins enxerga desvantagens na tentativa de agradar a todos os públicos simultaneamente. Ele aponta que essa abertura excessiva acaba deixando em segundo plano gêneros tradicionais e estilos como o reggae, a soul music e o heavy metal, cuja presença na escalação passou a depender do que a própria organização entende como oportunidade comercial. No lugar da escuta atenta do passado, ganha força o desejo de estar presente e registrar o momento, transformando o show em um evento de afirmação social nas redes.
Segundo o site Promoview, dados do Spotify sobre consumo ao vivo revelam que 67% dos jovens da Geração Z buscam nos festivais uma experiência de escapismo e socialização, evidenciando que a vivência do evento e a interação social muitas vezes se tornam o objetivo principal.
Além da mudança no palco, o crítico observa uma transformação profunda no comportamento de quem ocupa a plateia. Martins destaca um contraste entre as gerações passadas, focadas na apreciação artística, e o frequentador contemporâneo: “Algumas gerações entendem a música como um complemento da balada”, pontua. Para os públicos mais jovens, o ato de estar fisicamente no espaço e registrar a presença nas redes sociais muitas vezes se sobrepõe ao próprio espetáculo, transformando a experiência em um evento de autoafirmação social.
Essa dinâmica se reflete também na economia dos megaeventos. Para o crítico, grandes nomes internacionais, como Bruno Mars, hoje preferem turnês solo a dividir cachê em festivais, impondo um desafio direto à atratividade e ao orçamento do Rock in Rio.
A importância das marcas na composição do festival
Se por um lado a mudança no estilo do evento acontece para se adequar ao público, a presença de marcas no evento contribui para aprofundar essa relação, funcionando como um elo entre a experiência física do festival e o cotidiano do público nas redes sociais.
Ativações, estandes temáticos e parcerias comerciais deixam de ser apenas patrocínio e passam a compor a própria narrativa da vivência do festival, se tornando pontos de interação, registro e compartilhamento, alimentando o desejo de pertencimento que move boa parte do público jovem.
A expansão do evento não agrada apenas aos ouvidos da plateia, mas também à experiência completa dos shows. Desde a entrada à hora da apresentação, o objetivo agora é manter o público conectado e criar memórias que possam ser compartilhadas.
Em entrevista, Thiago Rodrigues, diretor de criação da agência AKM, comenta sobre a importância de as marcas criarem interações que preservem e protagonizem experiências reais e físicas.
“Nós saímos de uma era de hiper digitalização das coisas, junto a isso, a geração dos 18 aos 20 anos está entrando em contato com mídia física de música. Com isso, os festivais e marcas estão entendendo que hoje todos vivem a era da experiência do evento, onde o mais valorizado para o público são as conexões humanas”, afirma Thiago
Hoje as marcas deixaram de ser apenas implementação e se tornaram parte significativa na construção do Rock In Rio, buscando não apenas visibilidade, mas integração e um lugar na memória afetiva de quem frequenta o evento. Essa presença, no entanto, funciona melhor quando dialoga com a essência do festival em vez de se sobrepor a ela: quando a ativação soma à vivência do público, e não apenas explora o momento como vitrine de consumo.
Há espaço, portanto, para que marca e festival lucrem com a parceria sem que isso custe a autenticidade da experiência, buscando uma inserção mais orgânica, que beneficie ambos os lados sem transformar o público em audiência cativa de publicidade.
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Uma nova essência
A resposta sobre a preservação da essência do Rock in Rio varia conforme a geração que responde. Para a geração de 1985, a perda de espaço do rock tradicional apresenta um desvio da proposta original e, para os mais jovens, a Cidade do Rock entrega exatamente a mesma promessa de liberdade, conexão e espetáculo de quatro décadas atrás.
O fato é que o novo formato dá resultados: um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta um impacto de R$3,36 bilhões na economia carioca, provando que a união com o mercado e o entretenimento de massa garantiu a longevidade do festival.
O Rock In Rio nasceu para provar que o Brasil também possuía lugar no palco dos grandes espetáculos mundiais, e quatro décadas depois essa promessa segue cumprida, ainda que por outros meios.
A transição do rock para o entretenimento de massa não apagou o projeto original de Roberto Medina, mas ela o atualiza. O festival trocou seu nicho puramente roqueiro pela pluralidade de gêneros, mas manteve o que sempre foi seu maior trunfo: reunir multidões em torno de uma experiência coletiva. A essência de 1985 se preocupava em dar voz a uma juventude sedenta por liberdade, a de hoje é reconhecer que essa liberdade também se expressa em outros ritmos, outras telas e outras formas de estar junto.