Isolamento social, uma poça de sangue e corpo no chão - Revista Esquinas

Isolamento social, uma poça de sangue e corpo no chão

Por Bruno Nogueira Galvão Pereira : agosto 23, 2020

Durante o mês de agosto, ESQUINAS traz relatos sobre idosos em isolamento social. O depoimento de Iracy Nogueira é a sétima reportagem da série

Dia 11 de abril, sábado de aleluia. Iracy Dutra Nogueira, 81 anos, encontrava-se deitada de bruços no chão, contornada por uma poça de sangue. “Parece que eu já estou morta”.

“Essa situação deixa a gente muito oprimido. Como é que pode acontecer uma coisa tão desagradável com todo mundo, né, filho?”, diz a matriarca da família Nogueira ao relembrar o início do isolamento social. Quando o governo do estado anunciou a quarentena, Iracy foi junto de seu marido passar um período na casa da filha mais nova. O lugar é espaçoso: fica num terreno inclinado, como se fosse a encosta de uma pequena colina. Tem um bom espaço ao ar livre, contato com a natureza e a tranquilidade do interior. Ainda assim, o sentimento é de que falta alguma coisa. “Estou me sentindo apertadinha, entendeu?”

Entre angústias e ansiedades, o maior inimigo de Iracy é o tédio. “Aqui eu não tenho minha programação. Todo dia eu não faço nada. Se isso não passar logo eu fico é louca.” O tédio, porém, seria rompido por uma surpresa. Às seis da tarde, horário do café, ela subiu as escadas do quarto onde sua outra filha, Valéria, estava hospedada. Perguntou se a filha queria pão de queijo. Como estava no banho, recusou o lanche. Descendo a escada no escuro, meio cambaleante por conta de um problema na perna, veio o passo em falso.

Debaixo do chuveiro, Valéria escuta um barulho pesado, como se fosse um móvel caindo. Desceu as escadas também no escuro. Molhada e com a toalha enrolada no corpo, ela vê sua irmã, a anfitriã, sentada no chão, paralisada. Sua mãe, deitada. Seu pai também estava deitado, mas na rede, do outro lado da casa. Seu aparelho auditivo não foi capaz de captar os sons histéricos que rondavam o ambiente naquele momento. No telefone, o 192 dava ocupado. As duas cadelas corriam e latiam sem parar. Uma delas se aproximou do corpo estirado e lambeu um pouco do sangue que saia pela cabeça.

“Eu tenho medo é que essa doença pegue em vocês, entendeu? Toda noite eu rezo para o anjo da guarda… Eu já estou velha, posso ir embora. Mas vocês não podem!”.

Iracy foi internada por traumatismo craniano leve. Depois de cinco dias, recebeu alta. Passa bem desde então.

— Quer falar com o vovô também? — ela pergunta a mim, ao final da entrevista.

— Não precisa, é uma pessoa só.

— Então fala que essa pessoa tá muito acuada, morrendo de medo.

Encontrou algum erro? Avise-nos: [email protected]