REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Julia Vizotto, Lívia Figueiredo, Júlia Storch e Alessandra Petraglia Edição #58

Mapa da fome

Segurança alimentar na cidade de São Paulo

Entre as décadas de 1990 e 2000 o total de subnutridos caiu, mas, as respostas mais significativas à fome no Brasil vieram em 2012, quando o país reduziu sua taxa de carência alimentar para menos de 5% de sua população. Ainda assim, de acordo com dados divulgados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), sete milhões de pessoas vivenciam condições de desnutrição no Brasil.

Considerada um problema nacional, a desnutrição afeta principalmente as regiões Norte e Nordeste, atingindo respectivamente 36,1% e 38,1% da população. Em contrapartida, a Organização das Nações Unidadas (ONU) destaca que o país tem desempenhado um importante papel no combate à fome. Esse progresso está vinculado a programas governamentais como o Bom Prato, oferecido pela Secretaria de Desenvolvimento Social de São Paulo e do Bolsa Família,  projetado pelo governo federal, que auxiliam no acesso mínimo necessário para a segurança alimentar de crianças, adultos e idosos.

Apesar do sucesso dos programas criados pelo Governo Federal, ainda existem beneficiários que criticam as iniciativas. É o caso de Eduardo Wilson, de 49 anos, que trabalha como flanelinha na Praça Roosevelt há 15 anos e recebe o auxílio do Bolsa Família há menos de dois. Ele diz que “Quando está um dia bom de calor, de sexta e sábado, eu faço 150, 160 ou 180 reais, mais do que o Bolsa Família”. Todo final do mês, recebe o valor de 78 reais que são enviados por ele para Maceió, onde o recurso ajuda seu filho, pai de uma criança pequena. Segundo Eduardo, o dinheiro recebido é pouco. “Não dá para nada, antigamente com cem reais dava para ir ao mercado e comprar a cesta básica completa. Hoje, você pega dois ou três produtos e o dinheiro acaba. Assim, não adianta de nada o Bolsa Família”, critica.

No Bom Prato localizado na rua 25 de março — uma das 49 unidades do programa que tem como objetivo garantir uma alimentação saudável e de boa qualidade a um preço acessível à população de baixa renda — Marcos, 47 anos, espera sua vez na fila, formada em sua maioria por homens com cerca de 40 anos e em situação de rua. Além da fome, carrega no braço direito cicatrizes das facadas que recebeu de um dono de restaurante que não aceitava pedintes famintos em seu estabelecimento. De fato, o álcool e o crack afetam integralmente sua vida, mas, por vezes, consegue trabalhar como pintor para garantir uma renda mínima, inclusive o um real necessário para o seu almoço no restaurante popular.

Já na zona oeste da cidade, na unidade do bairro da Lapa, o Bom Prato apresenta um público mais diversificado: composto por mulheres, trabalhadores assalariados, idosos, deficientes físicos e até mesmo crianças.

O artista Luís Fernando conta que há mais de 12 anos frequenta a unidade, onde entretem o público da fila com seu violão, que aprova o bom som, conseguindo alguns trocados por sua arte. A respeito dos moradores em situação de rua que deveriam frequentar o local, ele comenta: “Tem uns que normalmente estão muito sujos, se sentem mal de vir aqui e acabam não comendo. O público daqui é mais seleto, são trabalhadores e lojistas da Lapa”. Para ele, a música popular é uma forma de amenizar a irritação dos que estão com a barriga vazia e ansiosos.

A rede de restaurantes populares atende em média 1200 pessoas por dia e funciona a partir de subsídios governamentais, que custeiam parte das refeições. Entre seus fiéis clientes, está Paulo, um senhor aposentado cego e cantor de uma das igrejas católicas da região. Ele recebe diariamente atenção especial na unidade da Lapa, a qual sempre frequenta: logo ao chegar, é abordado pelos funcionários que o direcionam a um lugar vago na mesa e levam seu prato de comida.

De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Social, todo alimento preparado é cautelosamente definido por uma nutricionista, que procura estabelecer uma dieta balanceada e saudável, com média de 400 calorias no café da manhã e 1200 no almoço. O cardápio varia de acordo com o dia da semana. Na unidade da Lapa, às sextas-feiras, são servidas porções de arroz, feijão, escondidinho de carne moída, farofa com legumes e salada. Isso tudo é acompanhado por um copo de suco e uma fruta de sobremesa. De manhã, pão com frios e café com leite são oferecidos ao valor de R$0,50. O público que frequenta o local costuma dizer que os pratos são saborosos e bem temperados.