Mais mulheres na política não significa, necessariamente, mais direitos para as mulheres - Revista Esquinas

Mais mulheres na política não significa, necessariamente, mais direitos para as mulheres

Por Camila Fioranelli : novembro 4, 2026

A participação feminina nos espaços de poder ainda esbarra em desigualdades estruturais e disputas dentro dos partidos políticos. Foto: Kayo Magalhães/Agência Brasil

Mulheres, que são 52,8% do eleitorado, continuam sub-representadas, mas principal entrave é a agenda que novas parlamentares representam

As eleições de 2026 formaram a maior bancada feminina da história do Congresso Nacional. A Câmara terá a partir de 2027 109 deputadas federais, contra 90 em 2022, o equivalente a 21,2% das 513 cadeiras. No Senado, 12 mulheres foram eleitas entre as 54 vagas em disputa, o triplo de 2022, e a bancada chegará a 18 integrantes em 2027. O país também elegeu três governadoras, igualando o recorde de 2006, e terá 213 deputadas estaduais, 26 a mais que em 2022.

O avanço numérico, porém, não garante que os direitos das mulheres sejam representados. Na ciência política, essa diferença é discutida a partir de dois conceitos: a representação descritiva, que considera quem ocupa os espaços de poder, e a substantiva, que observa quais pautas essas pessoas defendem, como votam e quais políticas ajudam a construir.

“É importante a gente entender que a presença de mais mulheres na política não vai significar automaticamente mais políticas de promoção da igualdade de gênero”, explica a pesquisadora Vitória Daier, doutoranda em Administração Pública pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Vitória Daier
Foto: Divulgação

Isso não significa que toda mulher eleita deva restringir sua atuação às pautas femininas. A participação também precisa alcançar áreas como economia, segurança pública e transparência, tradicionalmente dominadas por homens.

Obstáculos dentro dos partidos

A desigualdade começa antes mesmo das eleições. Embora a legislação determine que cada partido registre ao menos 30% de candidaturas de cada sexo nas disputas proporcionais, o cumprimento da cota não garante condições iguais de disputa. Em 2026, as mulheres representaram 36,8% dos candidatos a deputado federal, mas conquistaram apenas 21,2% das cadeiras. Entre 2018 e 2024, foram, em média, 34% das candidaturas e 17% das pessoas eleitas.

A desigualdade também aparece no financiamento. Pelo menos 30% do Fundo Eleitoral deve ser destinado a candidaturas femininas, conforme decisões do STF e do TSE posteriormente incorporadas à Constituição. Ainda assim, até setembro, cada candidata havia recebido, em média, R$262 mil, contra R$312 mil dos homens, segundo a plataforma 72 Horas, monitor independente que acompanha a distribuição de recursos de campanha com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O recorte por situação eleitoral, porém, revela outra dimensão. Entre candidatos à Câmara sem mandato, as mulheres receberam, em média, R$324 mil, contra R$299 mil dos homens, segundo levantamento do Congresso em Foco. Isso porque candidatos à reeleição recebem quase oito vezes mais recursos que os demais. Como os homens já são maioria entre os parlamentares que ocupam mandatos, essa vantagem influencia a distribuição geral dos recursos.

Outro obstáculo são as candidaturas femininas fictícias, registradas apenas para cumprir a cota e que podem levar à cassação de toda a chapa, conforme a Súmula 73 do TSE. Para Daier, enfrentar essas distorções exige democratizar a estrutura interna dos partidos e ampliar a participação feminina nos espaços de decisão.

Pautas no Congresso

Conquistar uma cadeira, porém, não significa necessariamente defender políticas de igualdade de gênero. Ingrid Fernandes, do Instituto AzMina, chama atenção para parlamentares que se apresentam como defensoras das mulheres, mas apoiam iniciativas que restringem direitos.

Ingrid Fernandes
Foto: Divulgação

Segundo ela, parte da agenda legislativa reúne propostas contrárias aos direitos da população trans e ao acesso ao aborto legal, inclusive nos casos previstos em lei, como a gravidez decorrente de estupro. Na discussão sobre violência doméstica, Ingrid observa que muitos projetos priorizam o aumento de penas e o endurecimento das punições, sem enfrentar as causas do problema ou investir em prevenção. Entre as alternativas, defende programas educativos nas escolas, desde a infância, para discutir relações de gênero e prevenir a violência.

Para acompanhar essas iniciativas, o Instituto AzMina criou o projeto Elas no Congresso, que monitora propostas na Câmara e no Senado e avalia seus possíveis impactos sobre os direitos das mulheres e da população LGBTQIAPN+. O acompanhamento permite identificar medidas ainda em tramitação e ampliar o tempo de mobilização da sociedade civil.

A política dos corredores

A influência política, entretanto, não se limita às propostas e votações públicas. Parte das decisões também é construída em articulações informais, em festas e encontros onde parlamentares estabelecem relações de confiança e influência.

“Existe uma outra camada que é da articulação política. É a política que acontece nos corredores”, afirma Ingrid.

Ela questiona se mulheres negras que ocupam cargos políticos têm as mesmas oportunidades de circulação e articulação que homens brancos e se conseguem frequentar os mesmos ambientes em que acordos e alianças são construídos.

O caso do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, ajuda a ilustrar essa dinâmica. Mensagens recuperadas pela Polícia Federal mostram a organização de uma festa privada em uma boate de São Paulo, em outubro de 2023, com 120 mulheres contratadas para cerca de 20 convidados homens, entre políticos e autoridades. O episódio evidencia um ambiente em que homens ocupavam a posição de convidados, enquanto as mulheres estavam presentes como contratadas, e não como interlocutoras políticas.

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Além do número de eleitas

Ampliar a presença feminina nos espaços de poder é fundamental para democratizar a política, mas a representatividade também depende das condições de disputa, do acesso às decisões e das pautas defendidas durante os mandatos. Mais mulheres eleitas representam um avanço, mas transformar essa conquista em direitos exige que elas tenham condições efetivas de participar e influenciar os rumos das instituições.

Editado por Enzo Cipriano e Vandson Lima

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